Thursday, August 27, 2009

"Só sei que nada sei"

Podem me achar radical, dogmático e um tolo por ter algumas certezas, mas não consigo evitar. Quando teclo estas palavras, eu não tenho dúvidas de que elas aparecem no monitor, numa óbvia relação causal. Então existem sim absolutos, quer queiram ou não os cultuadores da dúvida como o máximo da maturidade intelectual em oposição aos terríveis fanáticos que insistem em garantir que A é igual a A, que A não é uma "representação" ou um "simulacro" de A, A - afinal de contas - é mesmo A. "Só sei que nada sei", disse Sócrates, o filósofo, não o ex-jogador de futebol marxista. Ora, Sócrates caiu aí em clara contradição, por mais que seja reconhecido até hoje como um exemplo universal de inteligência. Se ele nada sabe, como é que sabe que nada sabe? A dúvida serve como um estímulo pra se pesquisar e chegar a uma conclusão, mesmo que aproximada, ela não pode virar o estado permanente da pessoa em relação a tudo, sob pena dela colocar a própria vida em risco. Você tem alguma dúvida de que vai se queimar ao encostar a mão no fogo? Tem alguma dúvida de que vai cair se se jogar de um desfiladeiro? Não, as pessoas estão bem cientes das leis físicas que não deixam de ser - horror! - certezas. A realidade existe, não é um joguinho tipo Matrix ou a ante-sala de um céu ou inferno.

14 comments:

Haemocytometer said...

Sol, pra não dizer só dos filósofos que eu gosto, deixo você com Kant no fundamento de toda a fenomenologia que se seguiu até hoje:

"According to Kant, it is vital always to distinguish between the distinct realms of phenomena and noumena. Phenomena are the appearances, which constitute the our experience; noumena are the (presumed) things themselves, which constitute reality. All of our synthetic a priori judgments apply only to the phenomenal realm, not the noumenal. (It is only at this level, with respect to what we can experience, that we are justified in imposing the structure of our concepts onto the objects of our knowledge.) Since the thing in itself (Ding an sich) would by definition be entirely independent of our experience of it, we are utterly ignorant of the noumenal realm."

sol-moras-segabinaze said...

Lois, eu sou, sob certos aspectos, um idiota da objetividade mesmo. Então, sinceramente, não compreendo bem essa diferenciação entre o mundo "phenomenal" e o "noumenal".

Por que não seríamos capazes de entender o que é "a coisa em si"?

João said...

Há algum tempo, uma burrinha da Eco, após seus argumentos serem refutados por fatos e lógica (não lembro qual era a questão), apelou pra pretensa lição de moral e sabedoria, me dizendo "João, vou te contar um segredo: a verdade não existe" - encarnando, em suas palavras, a maior sensação de estar falando a verdade.
Nas palavras dela, de fato, a verdade, não existia. hehe

sol-moras-segabinaze said...

Pois é.

Haemocytometer said...

Por várias razões, mas a mais básica é que os sentidos não são as coisas. Ao mesmo tempo que eles nos ligam a elas, nos separam delas.

Basta mencionar que uma única coisa pode estimular cinco dos nossos sentidos, e nós temos que juntar esses estímulos numa imagem única da coisa, num esforço da imaginação. A coisa é mais o que se ouve ou o que se vê dela?

Se nossos cinco sentidos fossem outros, se só tivéssemos a percepção dos campos magnéticos e da eletricidade estática, por exemplo, ajuntaríamos os fenômenos de outros modos e perceberíamos outras coisas, embora o mundo percebido continuasse o mesmo.

Sebastian Volta said...

Você não pode provar-me que não é um "brain in a vat"...
Você admite certas "verdades" ou "objetividades" ou "ilusões" apenas para seguir vivendo ou, como mesmo disse, "não por a própria vida em risco".

Mas, mesmo colocando todas as especulações solipsistas de lado, não se percebe o mundo como ele realmente é, mas a interpretação que seus sentidos consegue extrair dele. Na realidade, esta "imperfeição" é fundamental, porque se fosse possível perceber cada átomo que chega aos nossos olhos, teriamos uma "sensory overload" e não conseguiriamos realizar nada. Mas cada animal tem seus limites de percepção da realidade e, humanos, são apenas mais um tipo de animal.

sol-moras-segabinaze said...

Lois, realmente, os sentidos não são as coisas, eles percebem as coisas. Nós juntamos todos esses estímulos in the big picture através da razão. A coisa é tanto o que se ouve quanto o que se vê. Eu ouço e vejo aqui o meu HD trabalhando, qual o problema com isso?

Se os nossos sentidos fossem outros, nossa percepção talvez fosse diferente, mas o HD permaneceria sendo um HD, não?

Como os nossos sentidos são esses mesmos que a gente conhece, o que vai se fazer? Desqualificá-los porque eles não percebem a eletricidade estática?

Podemos até relativizá-los, não somos oniscientes nem onipotentes, mas são eles que nos fazem perceber as coisas.

sol-moras-segabinaze said...

Sebastian, eu não admito certas "verdades" apenas pra continuar vivendo, se bem que este é um objetivo crucial. Eu admito certas verdades (as reconheço, pra ser mais preciso) pra conseguir me relacionar com o mundo e porque tenho uma necessidade imperativa de tentar compreender minimamente o que está acontecendo à nossa volta.

E, de fato, não somos capazes de perceber tudo o que acontece, todos os átomos e ácaros que nos envolvem, nem explicar tudo o que acontece ou aconteceu, mas não lhe parece quase que um dever tentar se aproximar o máximo possível da verdade?

Haemocytometer said...

Concordo com o Sebastian.

Sol, esse seu "compreender minimamente" e a "verdade" da qual você quer se "aproximar o máximo possível" são resultado de uma percepção INTERESSADA. No fundo, você só quer mesmo continuar vivendo, se relacionando com o que acha que é o mundo. Se funcionou até agora, beleza, você acha que vai continuar funcionando.

A busca da verdade está muito além disso. E outra: se KANT, que era KANT, elaborou três críticas - que lançaram as bases para todo o sistema de conhecimento do mundo moderno - desenvolvendo essas questões, acho que você devia ao menos lê-lo atentamente (no mínimo a Crítica da Razão Pura) antes de formular esses postulados.

Sebastian Volta said...

"não lhe parece quase que um dever tentar se aproximar o máximo possível da verdade?"

Sim! Claro! Mas sempre tendo em mente nossas imperfeições...

"I have made it a rule not to reject anything decisively and not to trust anything blindly." -- Pechorin in Michail Lermontov "Hero of Our Time"

sol-moras-segabinaze said...

Verdade, Lois. Não li os livros de Kant, então não me atrevo a fazer uma crítica direta a ele. No entanto, já li algumas coisas a respeito e suspeito que a diferença nos tais postulados é estrutural. Não vou concordar com alguma coisa só porque foi Fulano ou Sicrano que falou. Sei que a Ayn Rand tinha profundas diferenças com o homem, chegando a dizer que ele era uma influência mais nefasta que todo o marxismo e cristianismo juntos. Eis uma amostra do que ela, não eu, queria dizer:

The man who closed the door of philosophy to reason, was Immanuel Kant.

Kant’s expressly stated purpose was to save the morality of self-abnegation and self-sacrifice. He knew that it could not survive without a mystic base—and what it had to be saved from was reason.

Attila’s share of Kant’s universe includes this earth, physical reality, man’s senses, perceptions, reason and science, all of it labeled the “phenomenal” world. The Witch Doctor’s share is another, “higher,” reality, labeled the “noumenal” world, and a special manifestation, labeled the “categorical imperative,” which dictates to man the rules of morality and which makes itself known by means of a feeling, as a special sense of duty.

The “phenomenal” world, said Kant, is not real: reality, as perceived by man’s mind, is a distortion. The distorting mechanism is man’s conceptual faculty: man’s basic concepts (such as time, space, existence) are not derived from experience or reality, but come from an automatic system of filters in his consciousness (labeled “categories” and “forms of perception”) which impose their own design on his perception of the external world and make him incapable of perceiving it in any manner other than the one in which he does perceive it. This proves, said Kant, that man’s concepts are only a delusion, but a collective delusion which no one has the power to escape. Thus reason and science are “limited,” said Kant; they are valid only so long as they deal with this world, with a permanent, pre-determined collective delusion (and thus the criterion of reason’s validity was switched from the objective to the collective), but they are impotent to deal with the fundamental, metaphysical issues of existence, which belong to the “noumenal” world. The “noumenal” world is unknowable; it is the world of “real” reality, “superior” truth and “things in themselves” or “things as they are”—which means: things as they are not perceived by man.

sol-moras-segabinaze said...

Even apart from the fact that Kant’s theory of the “categories” as the source of man’s concepts was a preposterous invention, his argument amounted to a negation, not only of man’s consciousness, but of any consciousness, of consciousness as such. His argument, in essence, ran as follows: man is limited to a consciousness of a specific nature, which perceives by specific means and no others, therefore, his consciousness is not valid; man is blind, because he has eyes—deaf, because he has ears—deluded, because he has a mind—and the things he perceives do not exist, because he perceives them.

His view of morality is propagated by men who have never heard of him—he merely gave them a formal, academic status. A Kantian sense of “duty” is inculcated by parents whenever they declare that a child must do something because he must. A child brought up under the constant battering of causeless, arbitrary, contradictory, inexplicable “musts” loses (or never acquires) the ability to grasp the distinction between realistic necessity and human whims—and spends his life abjectly, dutifully obeying the second and defying the first. In the full meaning of the term, he grows up without a clear grasp of reality.

If “genius” denotes extraordinary ability, then Kant may be called a genius in his capacity to sense, play on and perpetuate human fears, irrationalities and, above all, ignorance. His influence rests not on philosophical but on psychological factors.


http://aynrandlexicon.com/lexicon/kant--immanuel.html

Sebastian Volta said...

Eu, sinceramente, acho que Kant "sucks" boa parte do tempo. Concordo com Rand, nesse ponto. Gostaria de ler "...Razão Pura" a título de curiosidade, mas seu "imperativo categórico" é funesto. Ele inverte o princípio moral básico "não faça com os outros o que não gostaria que fizessem a ti" -- que é um postulado negativo, de abstenção -- para um positivo -- "aja como se todos os seus atos fossem um ato universal" --, mas este universal não existe, é subjetivo e varia de pessoa para pessoa. É quase um "faça com os outros o que gostaria que fizessem a ti" sem considerar que cada um tem um desejo diferente. Essa concepção universalista, fruto do iluminismo, é uma aberração epistemológica. Essa aberração propicia o Estado maternalista que vem desenvolvendo-se no mundo.
Talvez a chave do sucesso do mundo britânico (incluindo antigas colônias que tiveram sua influência) seja o fato da epistemologia britânica ter seguido Hume, ao invés do resto do mundo.
O mundo continental europeu só foi ter uma luz, novamente, com Nietzsche e aqui há uma boa discussão sobre isso: http://www.ohadmaiman.com/displayessay.asp?PageNumber=19

sol-moras-segabinaze said...

Bem colocado, Sebastian.