Tuesday, August 25, 2009

A arte perdida da argumentação

"Nos dias que correm, é relativamente fácil depararmo-nos com o paradoxo que diz respeito ao acto de argumentar. No decurso do último século, argumentar ou discutir tomou uma conotação sobretudo negativa, província de indivíduos pedantes que invadem o território sacrosanto e indisputável da opinião individual. Existe a percepção que todas as opiniões são igualmente válidas e/ou intocáveis." (http://solipsistainconformista.wordpress.com/2009/07/11/a-arte-expirante-da-argumentacao/) Por causa da minha, errr, militância pela liberdade individual, volta e meia sou convocado em situações sociais a dar opiniões sobre isso ou aquilo. Tento evitar, mas sinto quase como um dever me manifestar e tentar fazer os outros entenderem o que estou dizendo. Nesse processo, acabam acontecendo muitos ruídos de comunicação, porque as opiniões são partes integrantes da personalidade da pessoa e quando você questiona aquilo que ela acredita, o questionamento de uma idéia passa a ser o questionamento da própria pessoa. Então, pra evitar maiores desentendimentos entre os brasileiros cordiais, a discussão é desqualificada como uma espécie de ostentação intelectual que divide ao invés de aprimorar. Como eu mesmo já mudei muito de opinião ao me deparar com argumentos melhores do que os que eu conhecia, acho razoável crer que os outros também sejam capazes de abandonar idéias piores por idéias melhores.

6 comments:

Helio said...

Bom texto, Sol!

sol-moras-segabinaze said...

Honrado com a visita, Hélio.

João said...

"

A cultura do beicinho

Olavo de Carvalho
Zero Hora, 23 de janeiro de 2005



No Brasil, quando você topa uma discussão franca e prova o seu ponto de vista honestamente, com fatos e lógica, o resultado é invariável: a parte derrotada chama você de intolerante. Tolerância, no entender desse povo, não é abdicar da força em favor da razão. É abdicar da razão para não ferir o apego sentimental que o interlocutor tem a opiniões insustentáveis. Mas, com toda a evidência, o amor às próprias opiniões, a recusa de submetê-las ao teste da lógica, é a definição mesma da intolerância. O que os brasileiros chamam de tolerância é a intolerância imposta por meio da chantagem emocional que faz beicinho quando contrariada por argumentos. Só o que a distingue da intolerância totalitária são os meios que emprega. Entre o beicinho e a guilhotina, a diferença é de grau, não de substância. Tanto que do beicinho se passa, com a maior facilidade, aos insultos e às ameaças de morte – morte ao “intolerante”.

Opiniões, neste país, não são hipóteses concebidas para tentar descrever a realidade. São símbolos de uma personalidade ideal, próteses psíquicas em que se amparam as identidades pessoais vacilantes. São amuletos. Desativar um deles pelo exame racional não é trocar uma visão tosca da realidade por uma visão mais aprimorada: é desfazer um encantamento protetor, é colocar uma alma em risco, demolindo seus pilares de papelão"

http://www.olavodecarvalho.org/semana/050123zh.htm

Não sou exatamente um fã do Olavão, que me nega o direito de poluir meu corpo com o que eu quiser e bem entender, mas esse diagnóstico ( A Cultura do Beicinho) foi perfeito.

sol-moras-segabinaze said...

Concordo contigo, João.

João said...

Acho interessante mesmo esse lance, porque sou chamado de "radical" por tanta gente - minha mãe, então... hehehe - em minhas posições, quando mudei diversas delas. Vai ver, porque reconheço tão naturamlente quando vejo que estou errado que ninguém percebe.

"Não radical", pelo contrário, é, cada vez mais, quem se aferra - radicalmente - ao hábito de moderar suas opiniões de acordo com o politicamente correto e correntemente aceito.

Outra coisa que tem me chamado a atenção, porém, é o crescimento da mentira como método - sendo aceita pelos "não radicais" como "outros pontos de vista". Assim, se chama de terrorismo de "resistência", invasão de "ocupação", fatos aritimeticamente comprovados de "modelo econômico", "diálogo" a aceitação de que tiranos fechem veículos de comunicação que não lhe obedeçam, compra de votos como nunca antes neste país se fez de "caixa 2 que todo mundo faz", mestrado não concluído de título de "doutora" e por aí negunho vai aceitando bovinamente a mentira.

sol-moras-segabinaze said...

São os extremistas do centro, os "pragmáticos". Na realidade, não têm princípios porque isso seria limitar, digamos, o seu campo de atuação, seria trazer pruridos desnecessários a um projeto maior. Enfim, os fins justificando os meios.