Friday, July 31, 2009

José, vice-rei do Egito, coloca os irmãos à prova

Depois de ouvir o diagnóstico de José sobre os seus sonhos, o faraó nem esperou pra ver se as previsões se confirmariam e foi logo o nomeando vice-rei do Egito. "Uma vez que Deus te revelou estas coisas, não há pessoa tão inteligente e tão sábia como tu. Será tu quem governarás o meu palácio; a teu comando, todo o povo te obedecerá." O que custava esperar uns anos até ver se o homem sabia mesmo das coisas e, só então, dar a ele todo esse poder? Ele não podia ser mais um desses videntes picaretas? Não importa, são os mistérios da fé. O faraó então deu a ele uma das filhas de Putifar, com quem José teve 2 filhos. Terminados os 7 anos de fartura, se iniciaram os 7 de fome e, graças a José, o Egito havia estocado alimentos pros dias duros que se seguiram. Longe dali, Jacó mandou os filhos, com a exceção de Benjamim, seguirem até o Egito para comprar trigo e assim não morrerem de fome. José, ao ver os irmãos, fingiu que não os reconhecia. Passou então a provocá-los, dizendo que eram espiões e que só os soltaria se eles trouxessem o irmão mais novo que ficou em casa com Jacó. Tá acompanhando? Simeão ficou como refém e lá foram os irmãos trazer Benjamim para a prova de José. Que se ressalte que José chorou escondido no meio disso tudo e deu o trigo aos irmãos sem cobrar um vintém (qual era a moeda naquela época?). Quando chegaram em casa, Jacó se desesperou: "Ides deixar-me sem filhos! José desapareceu, Simeão já não está aqui e quereis levar Benjamim também? Tudo se volta contra mim!" Rúben, um dos irmãos, disse então ao pai: "Poderás matar meus dois filhos se não te devolver Benjamim". Gente, parem com essa matança, por favor. Vamos combinar que ninguém pode matar mais ninguém, que tal?

O Burrico de Balaão

O Luiz Renato do blog que dá nome ao post disse que as últimas leituras do meu site o fizeram lembrar das seguintes passagens do livro "A imitação de Cristo" de Tomás de Kempis: "Nas Sagradas Escrituras devemos buscar a verdade, e não a eloquência. Todo livro sagrado deve ser lido com o mesmo espírito que o ditou. Nas Escrituras devemos antes buscar nosso proveito que a sutileza da linguagem. Tão grata nos deve ser a leitura dos livros simples e piedosos, como a dos sublimes e profundos. Não te mova a autoridade do escritor, se é ou não de grandes conhecimentos literários; ao contrário, lê com puro amor a verdade. Não procures saber quem o disse; mas considera o que se diz." Tirando o fato de que não considero livro nenhum "sagrado", não tenho discordância com o que vai acima. "Os homens passam, mas a verdade do Senhor permanece eternamente (Sl 116,2). De vários modos nos fala Deus, sem acepção de pessoa. A nossa curiosidade nos embaraça, muitas vezes, na leitura das Escrituras; porque queremos compreender e discutir o que se devia passar singelamente. Se queres tirar proveito, lê com humildade, simplicidade e fé, sem cuidar jamais do renome de letrado. Pergunta de boa vontade e ouve calado as palavras dos santos; nem te desagradem as sentenças dos velhos, porque eles não falam sem razão." Aqui a coisa pega mais. Qual é a "verdade" do Senhor? A passagem também questiona o fato de que, ao ler um texto, nós "queremos compreender e discutir o que se devia passar singelamente." Como assim? A leitura não serve justamente pra isso, pra se compreender e discutir a realidade? No final, diz-se que se as sentenças são proferidas pelos velhos, eu não posso me desagradar, "porque eles não falam sem razão." Isso não seria um argumento de autoridade? (http://oburricodebalaao.wordpress.com/2009/07/30/capitulo-5-da-leitura-das-sagradas-escrituras/)

Thursday, July 30, 2009

José interpreta os sonhos do faraó

Passados 2 anos, o faraó teve um sonho louco, em que 7 vacas feias e magras devoravam 7 vacas bonitas e gordas. Sonhos nem sempre primam pela beleza estética, vamos combinar. Logo depois a mesma coisa, agora com espigas no lugar das vacas. Perturbado com essas imagens, o faraó convocou todos os sábios e adivinhos do Egito pra tentarem decifrar o significado da coisa. Estranhamente, os videntes não arriscaram nenhum palpite, eles eram muito humildes naquela época. Foi quando o esquecido copeiro se lembrou de José. O faraó então convocou José e disse: "'Tive um sonho e não há quem o interprete. Ouvi dizer que, apenas ouve um sonho, logo o interpretas'. José respondeu: 'Não eu, mas Deus dará uma resposta plausível'". Ah tá, José é apenas um porta-voz de Deus, entendi. Depois de ouvir o faraó, José decretou: "Virão 7 anos de fartura no Egito e depois mais 7 anos de carestia." O conselho de José recomendava o que os economistas do governo americano se recusam a seguir: poupança ao invés de gastança governamental, produção ao invés de consumo desenfreado. O boom da abundância e o bust da escassez. Os economistas do mainstream, que imaginam que a solução pra sair de uma bolha é criando outra bolha, deviam ler essa passagem. José para a presidência do Fed já!

Intérprete dos sonhos no cárcere

"Sucedeu, depois, que o copeiro e o padeiro do rei do Egito ofenderam o seu senhor, o rei do Egito, que lançou-os no cárcere onde José estava preso." Um dia, o copeiro e o padeiro tiveram, cada um, um sonho diferente. "Ao entrar, pela manhã, José os encontrou com o rosto abatido e perguntou: 'Por que estais hoje com o rosto mais triste?' Eles responderam: 'Tivemos um sonho e não há quem os interprete'. José disse: 'Por acaso não cabe a Deus a interpretação dos sonhos? Contai-me os sonhos." Então José agora é o próprio Deus? Que confa... O copeiro disse que sonhou com uma videira com 3 ramos, as uvas amadureciam e ele segurava uma taça, que dava depois ao faraó. O novo Deus na terra e intérprete de sonhos disse então que em 3 dias o faraó o reconduziria ao antigo cargo. "Mas lembra-te de mim quando as coisas te correrem bem, e faze-me o favor de me recomendar ao faraó para que me tire da prisão." "Ok", asseverou o copeiro com o "ok" lá da área. O padeiro também contou o seu sonho e o diagnóstico de José não foi tão animador: "Dentro de 3 dias o faraó levantará tua cabeça: ele te pendurará numa árvore para as aves comerem tua carne." Onde está o pessoal dos Direitos Humanos quando a gente mais precisa deles? Passados os 3 dias regulamentares, as previsões do novo Deus se concretizaram, mas o copeiro esqueceu do seu pedido.

A mulher de Putifar

Depois de ter sido vendido aos ismaelitas pelos irmãos, José foi comprado por Putifar, um ministro do faraó egípcio. Como a Bíblia deixa claro diversas vezes, Deus estava com José, que se tornou "um homem bem sucedido". Quer dizer, "bem sucedido" na medida em que um escravo pode ser bem sucedido. "O patrão notou que o Senhor estava com ele e fazia prosperar tudo o que empreendia". Como não teria graça se tudo permanecesse numa boa, a mulher de Putifar, ao notar que José "tinha um belo porte e era bonito de rosto", começou a dar em cima do filho de Jacó. "Dorme comigo", ela disse, usando o consagrado eufemismo bíblico pro sexo. José resistia bravamente até o dia em que a mulher se irritou e simulou aos berros que ele havia tentado violentá-la. "Esse escravo hebreu que nos trouxeste abordou-me querendo abusar de mim", ela disse ao marido, que mandou prender José. Mas como o Senhor estava mesmo com ele, o carcereiro-chefe logo ficou seu amigo. "Este confiou a seus cuidados todos os que se achavam presos. Era ele que organizava tudo quanto lá se fazia." Com o c. virado pra Lua, José iria fazer história.

Sobre o culto às celebridades

O Marcello Anthony foi ao programa da Fernanda Young e lá pelas tantas, com a cumplicidade dela, meteu o pau nos jornalistas que cobrem - opa! - o mundo das celebridades. "Ganham mal, mas têm as armas nas mãos." Há aí, evidentemente, uma incompreensão da cadeia de acontecimentos que faz do Anthony uma celebridade que se aproveita dessa condição ao mesmo tempo em que reclama dos seus efeitos indesejados. As pessoas que assistem as novelas, peças e dão credibilidade às celebridades pra que elas possam fazer aquele comercial e ganhar uma grana boa, são as mesmas que estão interessadas em saber com quem essa celebridade, por exemplo, está namorando. Não são universos estanques, a menina que gosta do Jonas Brothers também tem a ilusão de "ficar" com o seu ídolo e isso faz parte da relação que garante ao grupo a sua popularidade. Não são os jornalistas que decidem, num rasgo de maldade, ir atrás de informações pessoais dos famosos. Isso pode até acontecer, mas, em geral, são os consumidores que demandam esse tipo de informação. Numa adaptação da famosa frase de Mises, não existem cachaceiros porque existem alambiques; existem alambiques porque existem cachaceiros. Então a culpa do Anthony ser fotografado com a filha na praia não é só do paparazzo, um mero intermediário entre um produto (a celebridade) e o consumidor (os fãs e curiosos em geral).

Wednesday, July 29, 2009

168

Achei que "providenciais" caía bem no final do último texto, mas fiquei em dúvida: tem acento circunflexo no "e" ou não? Fui então ao Google conferir. Como não vi a palavra em nenhum dicionário ou coisa parecida, tava indo pelas páginas que imaginei terem mais credibilidade, até que vi o tal "providenciais" num texto em PDF da legislação do município de Pelotas no Rio Grande do Sul e, como bom brasileiro, cheio de fé no governo, cravei cheio de certeza: "Eis aí a minha prova definitiva, não tem acento." Foi quando li com mais atenção e estava escrito "DECRETO NÚMERO 195 Abre créditos especiais e dá outras providenciais." (http://www.google.com.br/search?q=providenciais&hl=pt-BR&start=20&sa=N).

José vendido pelos irmãos

José era o filho mais novo de Jacó e também o seu preferido. Como é comum nas histórias bíblicas, isso provocava um ciúme mortal nos outros 11 irmãos. Depois de ter um sonho em que os feixes de trigo dos irmãos se prostravam diante do seu, em submissão, José - muito ingênuo - contou o sonho aos irmãos, que passaram então a planejar a sua morte. "Aí vem o sonhador! Vamos matá-lo e lançá-lo numa cisterna. Depois diremos que um animal o devorou. Assim veremos de que lhe servem os sonhos." Um dos irmãos, Rúben, ao ouvir isso, contemporizou: "Não derrameis sangue. Lançai-o naquela cisterna no deserto, mas não levanteis a mão contra ele." Depois de jogarem José na tal cisterna, os irmãos avistaram uma caravana de ismaelitas, no que Judá, outro irmão, fez mais uma sugestão: "Que proveito teríamos em matar nosso irmão e ocultar o crime? É melhor vendê-lo a esses ismaelitas." Dúvida: como se davam essas transferências de "propriedade" na antiguidade? Uns caras pegavam alguém, se declaravam "donos" daquela pessoa e pronto? Ou tinha algum tipo de documento? Pra fazer o pai acreditar que o irmão tinha sido devorado por um animal feroz, os irmãos molharam a túnica de José com sangue de cabrito. Ao ver as vestes ensangüentadas do filho, Jacó se contorceu de dor, mas aceitou a versão dos filhos sem muitas investigações, a ciência forense não era mesmo muito desenvolvida na época e, naquela hora, Deus onisciente devia estar tirando mais uma de suas providenciais sonecas.

Jacó luta com Deus

"Levantou-se, ainda de noite, tomou suas duas mulheres, suas duas escravas e os 11 filhos e passou o vau de Jaboc." Não sei o que aconteceu com o décimo segundo filho de Jacó e nem o que é um "vau". "Vai no Google!" Tá lá, "trecho de um rio, lago, mar com profundidade suficientemente rasa para passar a pé". "Quando depois ficou sozinho, um homem se pôs a lutar com ele até o raiar da aurora. Vendo que não podia vencê-lo, atingiu-lhe a coxa, de modo que o tendão da coxa de Jacó se deslocou. O homem disse a Jacó: 'Larga-me, pois já desponta a aurora.' Mas Jacó respondeu: 'Não te largarei, se não me abençoares.'" Que maluquice. Um cara surge do nada e começa a lutar com Jacó. Não são apresentados os motivos, mas a briga é sangrenta. O homem desconhecido vê que não pode vencer Jacó, ao mesmo tempo em que desloca a coxa de Jacó. Talvez a vitória pudesse ser construída a partir daí, não é mesmo? Como loucura pouca é bobagem, Jacó se dirige ao homem que se esforça para matá-lo e pede a sua bênção. O homem (na Bíblia ele não tem asas) pergunta o nome ao ferido e diz: "Doravante não te chamarás Jacó, mas Israel, porque lutaste com Deus e com homens, e venceste." Deus foi derrotado? Essa é nova. Jacó foi então abençoado e saiu mancando. "Por isso os israelitas não comem até hoje o nervo da articulação da coxa, pois Jacó foi ferido nesse nervo."

Tuesday, July 28, 2009

Sobre o orgulho

No Gênesis se fala muito do orgulho como um mal a ser combatido. Não sei se por ser do signo de Leão, por ter o nome que tenho ou por quais motivos não-científicos que sejam (hehe), posso dizer que sou um cara orgulhoso. Me incomoda gente que choraminga, que não se dá o respeito ou que se humilha em troca de migalhas de atenção ou dinheiro. Mas, pra ser justo, excesso de orgulho (soberba?) pode ser mesmo prejudicial e dou um exemplo próprio. Um tempo atrás fui à Ilha Grande com a namorada. Um lugar maravilhoso, praias calmas, com ondas, rios, montanhas e trilhas. Um pacote quase completo. Num dos dias, fomos à praia com ondas. Me sinto bem confiante no mar, o que pode ser também um erro. Então lá estava eu pegando jacaré muito relaxado quando me dei conta de que não dava mais pé e a correnteza me levava pro fundo. Por mais que eu tentasse voltar pra beira, não conseguia. E a cada tentativa frustrada, mais cansado ficava. Por um momento achei que tivesse perdido o controle da situação. Mas, mesmo correndo risco de vida, não pedi ajuda. Me sentiria humilhado balançando os braços, reconhecendo a minha derrota frente ao mar. Claro, quem sou eu pra desafiá-lo? Só sei que, uma bela hora, quase sem fôlego, consegui voltar à tona. Não sei se foi a mão de Deus ou a minha força de vontade, mas desde aquele dia trato o mar com muito mais respeito. E decidi que o meu orgulho não pode custar a minha vida.

30 idéias para mudar o mundo

Era a capa do Megazine do O Globo de hoje. Salvar o planeta entrando pro Greenpeace (yeah, right...), doando uma prancha, um violão, fazendo todo tipo de trabalho voluntário ("acrescenta muito ao currículo"), dando uma força na favela e outras ações consagradas pelo politicamente correto. O ambientalismo, como se vê, substituiu a utopia vermelha pela verde. Outro dia vi o Dado Dolabella nos alertando que se "alguém não fizer alguma coisa, a água vai acabar!" É esse tipo de ignorância que se espalha por aí. A água é constante, ela não vai acabar. Mas não se diz isso em lugar nenhum, é mais jogo difundir a histeria pra concentrar bastante poder nos iluminados de Brasília e da ONU. Aí você lê o Jabor e fica com a impressão de que, já que o socialismo não funcionou, não há nada a fazer além de contemplar a sujeira do jogo político. Ou seja, já que a piração dele não deu certo, só nos resta votar na esquerda menos radical (PSDB). Ainda no Segundo Caderno, aparecem as figuras de sempre com um abaixo-assinado reclamando de mais participação do estado na "política cultural". "Mas não é dirigismo!", diz uma das signatárias, como um freqüentador de uma sauna gay ao ser flagrado em pleno ato: "Eu não sou gay, eu não sou gay!" Tipo, quero o estado bancando a arte (a minha e a dos meus amigos, é claro), mas finjo que defendo a liberdade de escolha. Enfim, dão mil voltas em torno do próprio eixo pra não contemplarem a única maneira de se aprimorar o sistema: separando gradualmente o estado da economia, indo em direção ao liberalismo. Dessa idéia, ninguém fala.

Monday, July 27, 2009

Discutindo com um ateu bolivariano

Mudança da sociedade em direção ao comunismo ou ao bolivarianismo do século 21? Mudança nem sempre é necessariamente pra melhor. E ateísmo não é sinônimo de socialismo ou comunismo. Ateísmo lida com a existência ou não de Deus. O modo como o estado deve ser organizado são outros 500. Um estado total como o socialista é tão ou mais opressor quanto qualquer igreja. O estado deve ser laico. Ateísmo não se "implanta" numa decisão de cima pra baixo. Ateísmo deve partir de cada consciência individual que não se amarra a dogmas ou regras sem sentido. E a Revolução Francesa não foi nenhuma maravilha, rios de sangue e a formação de um estado pré-totalitário. Se você diz "abaixo o preconceito", eu digo "abaixo a ignorância". Pois é, bem lembrado. Os soviéticos tentaram "implantar" o ateísmo de cima pra baixo e o que houve foi violência, expurgos e a demolição das antigas catedrais pra se louvar Marx, Lênin e Stálin. O questionamento do fudamentalismo religioso deve se dar através da razão, e não através de armas e opressão. Se você vem com esse papo de "implantar" o que quer que seja na marra, não conte comigo. De qual "modelo decadente" você está falando? E sim, a única forma de aprimorar a opinião e a consciência das pessoas é através da persuasão, do convencimento. Então porque as pessoas estão todas alienadas pela "enganação da mídia", elas precisam que seres iluminados como você e os seus amigos (Zelaya, Chávez, etc) as tirem desse limbo mental e as obriguem, sob coerção, a enxergar a "realidade". Entendi. Quando a gente for ver, todos estaremos sob a ditadura bem intencionada dos iluministas bolivarianos, aquele povo que admira Fidel Castro e acha que a liberdade religiosa é um "capricho burguês".

Deus castiga 3

Alguém chamado Maurício apareceu nos comentários do texto "Sobre a diferença entre crentes e ateus" e colocou o link de um vídeo do Nelson Rodrigues, me recomendando que começasse a assisti-lo lá pelos 6 minutos. Curioso como um gato, lá fui eu. Numa entrevista, Nelson diz primeiro que não acredita em "ateu legítimo": "Isso não existe." Depois o repórter pede a ele um conselho aos ateus, no que o grande tricolor exclama: "Anda de quatro, AGORA!" Dei uma boa risada. Sou um gigantesco fã de Nelson Rodrigues e talvez ele tenha razão. Talvez eu não tenha evoluído o suficiente pra perceber que tudo isso que vivemos e morremos é guiado por uma entidade sobrenatural. O difícil é definir qual entidade é essa, se a dos gregos, a dos católicos, a dos islâmicos, a dos judeus, a dos evangélicos, a dos povos da floresta ou de sei lá qual corrente. "É tudo um Deus só!" Pode ser. Talvez essa minha resistência seja fruto de uma rebeldia tardia, que se eu continuar questionando tudo, daqui a pouco vou estar mesmo de quatro, urrando no bosque. Um dos meus joelhos já deu uma fraquejada, mais uma ironia com o Senhor e o outro entra na roda. Registrarei aqui se for o caso, se o meu computador ainda estiver vivo até lá, ele tem dado uns paus muito estranhos ultimamente.

Friday, July 24, 2009

Deus dá filhos a Jacó

Depois de gramar por 14 anos e ter a mão e as outras partes do corpo das irmãs Lia e Raquel, Jacó mal tinha começado o trabalho imaginado por Deus: "Quando o Senhor viu que Lia era desprezada, tornou-a fecunda, ao passo que Raquel permaneceu estéril." São as compensações divinas. Lia logo deu à luz a 4 filhos de Jacó. Quer dizer, ela imaginava que ele a desprezava, mas vemos que a prática não era bem essa. "Vendo que não conseguia dar filhos a Jacó, Raquel ficou com ciúmes da irmã e disse a Jacó: 'Dá-me filhos, senão eu morro!'" Dramática ela. "Jacó irritou-se com Raquel e lhe disse: 'Por acaso estou no lugar de Deus que te fez estéril?' Ela respondeu: 'Aí tens minha escrava Bala. Une-te a ela para dar à luz sobre meus joelhos. Assim terei filhos também eu por meio dela.'" Cuma? Mas Jacó não se fez de rogado e se uniu a Bala, tendo mais 2 filhos. Já são 6. Enciumada, Lia também deu a Jacó a sua escrava, Zelfa, com quem teve mais 3 rebentos. Não perca a conta, são 9 agora. Em troca de algumas mandrágoras, fruta afrodisíaca, Raquel deixou que Lia "dormisse" novamente com Jacó. O homem, que não negava fogo, lá foi fazer mais um filho e outro na sequência. São 11. Pra não deixar Raquel novamente insatisfeita, o Deus magnânimo a tornou finalmente fecunda e lá foi o garanhão da antiguidade a engravidá-la, agora de José, perfazendo o total dos 12 patriarcas de Israel.

Do Make Say Think - "A With Living"

Deus castiga 2

Segue a saga da maldição divina. Por não tratar a Bíblia com o devido respeito, por me fiar na pobre tradução da CNBB, por não consultar os grandes teólogos e nem aprender aramaico, hebraico e grego pra entendê-la com a devida profundidade, pisei hoje na merda. Mancando como um coxo, não consegui me desvencilhar do bolo mole que algum cachorro depositou na rua. Foi clássico. Houve uma época aqui na rua em que o número 2 dos cães dominava as calçadas. Depois de uma bem sucedida campanha de conscientização, os proprietários passaram a recolher os dejetos dos seus animais, mas parece que houve um retrocesso. Um campo minado de m. dominava hoje a paisagem. O fato da m. ser fruto de uma diarréia canina certamente dificulta o trabalho de limpeza, tanto do seu dono como do meu tênis. O material penetrou nas mínimas reentrâncias do pisante, numa lembrança sutil de como Deus está mesmo nos detalhes.

Thursday, July 23, 2009

Casamento com Lia e Raquel

Como Esaú estava louco pra matar Jacó, sua mãe Rebeca o aconselhou a se refugiar na casa de seu irmão, Labão. Essa rima teve o dedo de Deus. Opa! Chegando lá, Jacó notou que Labão tinha duas filhas, Lia e Raquel. "Lia, a mais velha, tinha um olhar apagado, mas Raquel era bonita de corpo e de rosto. Jacó ficou enamorado de Raquel e disse a Labão: 'Eu te servirei sete anos por Raquel'. 'É melhor confiá-la a ti do que entregá-la a um estranho', disse Labão". Mulher na antiguidade era assim, uma commodity. Então Jacó ficou servindo Labão por 7 anos e disse pro tio: "Dá-me minha mulher, pois completou-se o tempo e quero viver com ela. Chegada a noite, porém, Labão tomou a filha Lia e levou-a a Jacó, que dormiu com ela. Ao amanhecer, Jacó viu que era Lia e disse a Labão: 'Por que me enganaste?'". As pessoas eram muito distraídas com o sexo nessa época, só percebiam com quem "dormiam" ao amanhecer. Se bem que isso acontece hoje em dia também. De qualquer maneira, Labão não cumpriu o prometido e disse que só daria a filha mais nova se Jacó o servisse por mais 7 anos. O filho de Isaac então labutou por mais 7 anos e finalmente "Labão deu-lhe por mulher sua filha Raquel, e com ela a escrava Bala para servi-la como criada. Jacó se uniu também a Raquel e amou Raquel mais do que Lia." A monogamia, como se vê, não era exatamente praticada pelos escolhidos do Senhor naquela época.

Isaac abençoa Jacó

"Quando Isaac ficou velho, seus olhos se enfraqueceram e já não podia ver. Chamou, então, o filho mais velho, Esaú: 'Meu filho!' Este respondeu: 'Aqui estou!' Isaac lhe disse: 'Como vês, já estou velho e não sei qual será o dia de minha morte. Pega as tuas armas, as flechas e o arco e sai para o campo. Se apanhares alguma caça, prepara-me um assado saboroso, como sabes que eu gosto, e traze-o para que eu o coma e te dê a bênção antes de morrer." Rebeca, mulher de Isaac e mãe de Esaú e Jacó, ouviu tudo. Como Jacó era o seu filho favorito, ela o alertou: "Vai ate o rebanho e traze-me dois cabritos gordos. Com eles farei para teu pai um assado saboroso como ele gosta. Depois, leva-o a teu pai para que ele coma e te dê a bênção antes da sua morte." Quanta intriga, parece até novela. Jacó respondeu à mãe: "Mas Esaú é peludo, enquanto a minha pele é lisa. Se o pai me tocar, vai me considerar um impostor e atrairei sobre mim a maldição em vez da bênção." A mãe insistiu e lá foi Jacó tentar ludibriar o pai. Se vestiu com as roupas do irmão enquanto a mãe preparava o assado do golpe e conseguiu enganar o pai cego direitinho, que o abençoou com aquele papo de que o povo o iria servir, as nações se prostariam diante dele e toda aquela divina escravidão patrocinada pelo Senhor. Esaú voltou da caça e, depois de ser informado de que Jacó já havia sido abençoado, pediu ao pai: "Não tens mais do que uma bênção, meu pai?" No que o pai, magnânimo, recitou: "Longe da terra fértil será a tua morada e sem o orvalho que desce no céu. Viverás da tua espada e servirás ao teu irmão; mas logo que te soltares, sacudirás o jugo do teu pescoço." Isto é, por ter sido enganado pelo irmão Jacó, Esaú foi consagrado como seu servo. Isso não vai acabar bem.

O sacrifício de Isaac

"Deus pôs Abraão à prova. Chamando-o, disse: 'Abraão!' E ele respondeu: 'Aqui estou'. E Deus disse: 'Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá e oferece-o ali em holocausto sobre o monte que eu te indicar." Abraão, na verdade, tinha outro filho, Ismael, com a escrava egípcia Agar, mandados embora a pedido de Sara (mãe de Isaac) com o consentimento de Deus para vaguear (palavras da Bíblia) pelo deserto de Bersabéia. Anyway, Deus quer que Abraão sacrifique o próprio filho. "Quando chegaram no lugar indicado por Deus, Abraão ergueu ali o altar, colocou a lenha em cima, amarrou o filho e o pôs sobre a lenha do altar. Depois estendeu a mão e tomou a faca a fim de matar o filho para o sacrifício." Note que em nenhum momento há uma nesga de questionamento por parte de Abraão. A fé é cega. "Mas o anjo do Senhor gritou-lhe do céu: 'Abraão! Abraão!' Ele respondeu: 'Aqui estou!' E o anjo disse: 'Não estendas a mão contra o menino e não lhe faças mal algum. Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste o seu único filho'." Que horror. O anjo, Deus himself devia estar ocupado torturando outros fiéis, prosseguiu: "Juro por mim mesmo - oráculo do Senhor - já que agiste deste modo e não me recusaste seu único filho, que te abençoarei e tornarei tão numerosa tua descendência como as estrelas do céu e como as areais da praia do mar. Teus descendentes conquistarão as cidades dos inimigos. Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque me obedeceste." Ou seja, obedeça - sem dar um pio - o procurador do homem invisível que um caminho de glórias o aguarda. Não se preocupe em entender e praticar a justiça, mate o seu filho inocente se necessário, apenas siga o Senhor, esta é a "moral" da história.

Wednesday, July 22, 2009

Sobre a diferença entre crentes e ateus

Como o Pedro (http://oindividuo.com/) não disponibiliza comentários no seu site, vou dar por aqui mesmo um pitaco sobre o que ele escreveu: "(...) O melhor que consegui até agora foi o seguinte: diante da complexidade do mundo, o crente pressente a existência de uma inteligência transcendental, ao passo que, para o ateu, esse pressentimento é um passo indevido, uma projeção de quem observa o mundo. O crente, ao perceber algo mais vasto que sua própria inteligência, julga tratar-se da obra de outra inteligência; o ateu, ao perceber algo mais vasto que sua própria inteligência, julga que o domínio dessa vastidão virá com o tempo. Parece que as duas atitudes refletem duas posições a respeito de uma possível ciência universal. De um lado, o crente pergunta ao ateu: “E quando ficar evidente que a ciência universal é impossível, você passará a crer?” E o ateu pergunta: “E se a ciência universal acontecer, você deixará de crer?” É um tanto irresistível observar que, dita assim, a posição atéia parece se basear não num prometeanismo voluntarista, mas num prometeanismo inevitável: a transcendência não será mais necessária porque conquistá-la é só uma questão de tempo." Não sei exatamente o que ele quer dizer com "ciência universal", mas imagino que seja a explicação científica de tudo o que acontece ou aconteceu no mundo. Ora, não me parece justo dizer que o ateu ache que todas as respostas serão inevitavelmente dadas pela ciência um dia. Mais coisas certamente serão compreendidas com o tempo, mas não necessariamente todas elas. Se estivesse numa aposta, eu cravaria que a origem do universo nunca vai ser completamente explicada. Um "não sei", no entanto, não equivale a dizer que as lacunas do conhecimento sejam evidências da existência de uma entidade sobrenatural.

Deus castiga

Gosto muito de jogar futebol. Passei boa parte da infância e adolescência no playground do prédio da minha avó no Humaitá e era incrível, porque ali se reuniam não só os moradores dos 3 blocos, mas toda a molecada das redondezas, inclusive do morro Dona Marta. Era como uma colônia de férias permanente. Eu não ia às festinhas e tinha vergonha de jogar "salada mista" - coisas escabrosas aconteciam - mas botava uma pilha tremenda pra gente jogar bola. Só que chegou um belo dia em que os moradores do prédio perderam a paciência com aquela algazarra e começaram a proibir a entrada dos não-moradores. Foi triste. Iniciei então a minha carreira no mundo do rock e fiquei dos 20 aos 30 anos, auge da forma física, sem jogar futebol. Foi quando o povo do rock decidiu criar uma pelada e lá fui eu novamente. Já se passaram 5 anos e me sinto no apogeu da minha forma física e técnica. hehe Quer dizer, me sentia, porque desde que comecei a série sobre a Bíblia me machuquei duas vezes. A primeira uma leve distensão e, na última segunda, dobrei feiamente a perna esquerda, torcendo o joelho e o tornozelo. Estou andando trôpego como um Frankenstein. Acho que é um sinal, ou uma terrível coincidência. Ou talvez o meu inferno astral se manifestando. Não sei em qual crendice atribuir a minha desventura, mas estou definitivamente vetado pro jogo que o nosso time fará semana que vem contra o Casseta e Planeta.

Monday, July 20, 2009

A esquerda nacionalista

"Paralelamente, desenvolve-se a infiltração comunista no Brasil. Como na China, dentro de algum tempo não haverá alternativa entre o grupo corrupto que domina o poder e a máquina comunista, montada à custa dessa corrupção que paralisa o país e neutraliza todas as resistências." Profético raciocínio de Carlos Lacerda ainda em 1956. Não há muito paralelo entre o liberalismo e Lacerda, que sempre se definiu como um "pragmático", ou seja, alguém que não se aferrava a princípios ideológicos. Quer dizer, já li ele se declarando como um "democrata cristão", mas não sei exatamente o que isso significa. Pelo subjetivismo da coisa, talvez significasse qualquer coisa que ele considerasse correta. De qualquer maneira, uma mistura entre a esquerda que quer o estado mandando e desmandando na economia e o nacionalismo patrimonialista que quer manter os seus privilégios ancestrais resume bem o estado de coisas no Brasil com a ascenção do PT ao poder. Quem está dentro da máfia dominante fica satisfeito e quem lutava pela "justiça social", se não está totalmente feliz pela falta de mudança no "sistema", pelo menos tem a sensação de que algo está sendo feito pelos mais necessitados. Eu não concordo absolutamente com isso, mas acho que é o que tá rolando.

Origem dos moabitas e amonitas

"Ló subiu de Segor e foi morar nas montanhas com as duas filhas numa gruta. A mais velha disse à mais nova: 'Nosso pai já está velho, e aqui na gruta não há homens com quem possamos casar-nos, como faz todo mundo'." O espírito de manada já se manifestava naquela época. "Vamos embriagar nosso pai com vinho e dormir com ele, para ter filhos dele." Filhas da gruta! "Embriagaram o pai naquela noite e a mais velha foi dormir com ele sem que ele nada percebesse, nem quando ela deitou nem quando se levantou." Se foi dormir com ele, eu até acredito. Se "dormir" é um eufemismo pra sexo, nem a pau. Que propriedades maravilhosas existem nesse vinho que fazem o cara dormir enquanto mantém o circurcisado em pé? Fizeram o mesmo no dia seguinte com a irmã mais nova e, novamente, Ló não percebeu nada. Que pai distraído! "Assim as duas filhas de Ló ficaram grávidas do pai." Deus não vai ligar a sua fúria contra esse incesto invertido? "A mais velha deu à luz a Moab, antepassado dos moabitas, e a mais nova a Ben-Ami, antepassado dos amonitas." Problemas de má formação congênita à vista, a não ser que o Senhor use mais uma vez de seus poderes miraculosos.

A destruição de Sodoma e Gomorra

De tarde, 2 anjos chegaram a Sodoma. Ao vê-los, Ló se levantou e disse na segunda pessoa do plural: "Meus senhores, rogo-vos que venhais à casa de vosso servo para lavardes os pés e pernoitardes. Amanhã cedo, ao despertar, seguireis vosso caminho." Anjos merecem essa moral. "Ainda não foram dormir, quando os homens da cidade, os habitantes de Sodoma, cercaram a casa: moços e velhos, vieram todos sem exceção. Chamaram Ló e disseram: 'Onde estão os homens que vieram à tua casa esta noite? Traze-os cá até nós, para termos relações com eles'". Eita ferro! "Ló saiu à porta, fechou-a atrás de si e lhes disse: 'Por favor, meus irmãos, não façais semelhante maldade. Vede, tenho duas filhas ainda virgens. Vou trazê-las para fora. Podeis fazer com elas o que bem entenderdes; mas nada façais a estes homens, pois vieram acolher-se sob o meu teto'". Que coisa. Não que os habitantes de Sodoma tivessem o direito de violentar quem quer que seja, mas com que presteza Ló ofereceu as filhas virgens, não? Então os sodomitas "avançaram violentamente sobre Ló e já estavam para arrombar a porta. Mas os hóspedes intervieram e feriram de cegueira os homens que estavam fora." Cacildis, que bafão. Depois dos anjos orientarem Ló a sair dali com a família sem olhar para trás, "o Senhor fez então chover enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra. Destruiu as cidades e toda a região, junto com os habitantes e até a vegetação do solo. A mulher de Ló olhou para trás e tornou-se uma estátua de sal." É o que dá não acreditar no Senhor, você e as leis da química vão pra cucuia.

Aliança selada pela circuncisão

Abrão tinha 96 anos quando o Senhor lhe apareceu e lhe disse: "Eu sou o Deus Poderoso." Ok. "De minha parte, esta é a minha aliança contigo: tu serás pai de uma multidão de nações. Já não te chamarás Abrão: Abraão será teu nome, porque farei de ti o pai de uma multidão de nações. Eu te tornarei extremamente fecundo." Data daí a primeira mudança de nome por motivo de fertilidade. Numerologia divina. Um "a" a mais e uma multidão de nações é criada. "A terra em que vives como estrangeiro, toda a terra de Canaã, eu a darei como propriedade perpétua a ti e a teus descendentes. Eu serei o Deus deles." Propriedade eterna em troca de obediência eterna... Não tinha um arranjo menos definitivo, não? Deus disse então a Abraão: "Esta é a minha aliança que devereis observar, aliança entre mim e vós e tua descendência futura: todo varão entre vós deverá ser circuncidado. Circundareis a carne do prepúcio: esse será o sinal da aliança entre mim e vós. Assim trareis em vossa carne o sinal de minha aliança para sempre. O incircunciso, porém, que não circuncidar a carne de seu prepúcio, será eliminado do povo, porque violou minha aliança". Coitado. Além de lidar com a sujeira acumulada e com o preconceito da sociedade castradora, o incircunciso ainda é "eliminado" do povo. É muita injustiça social.

Friday, July 17, 2009

A Copa de 94

Eu já era maior de idade e lembro bem: Taffarel, Jorginho, Aldair, Márcio Santos e Leonardo (depois Branco); Mauro Silva, Dunga, Zinho e Raí (depois Zinho); Bebeto e Romário. Um ataque extraordinário, um meio de campo que marcava bem e uma defesa consistente. A retaguarda não deixava o adversário fazer gol e o Romário e o Bebeto decidiam. O jogo com a Holanda foi o mais complicado, porque os caras sabiam jogar e empataram uma partida que parecia decidida. O Branco, que sempre foi bom e durante uns anos foi um dos principais jogadores da seleção, acertou aquele chute e o Brasil avançou. O Raí decepcionou, parecia desconectado com a bola e foi substituído pelo Mazinho. O Zinho me parecia burocrático perto do início da carreira dele no Flamengo, mas tinha lá a sua função. O Bebeto sempre jogou bem e o Romário foi o craque daquela Copa, sem dúvida alguma. A birra com aquela seleção foi obra de alguns jornalistas saudosistas, românticos que provavelmente nunca jogaram bola e acham que a coisa se decide na base do lirismo, viúvas do Garrincha. Lembro dos comentaristas que nunca engoliram o Zagallo. "O Pepe era melhor!" Outros tão até hoje por aí desancando quem não se encaixa na sua visão do que deve ser o "verdadeiro futebol brasileiro, o futebol arte". Falar é fácil. Futebol não é arte, é competição, mesmo na mais bisonha das peladas. Mesmo a arte não é só arte, é competição também.

Noé e os filhos

"Pereceram todas as criaturas que se moviam na terra, aves, animais domésticos, animais selvagens e todos os animais que fervilham pelo chão, bem como todos os seres humanos." Aniquilar todos os seres humanos cujos "corações tendiam unicamente para o mal" e desobedeciam o homem invisível eu até entendo, mas por que os pobres animais entraram na roda? Eles também desobedeciam o Senhor? Ou as suas mortes foram apenas um inevitável efeito colateral do grande dilúvio? "Os filhos de Noé, que saíram da arca, foram Sem, Cam, e Jafé. Cam é o antepassado de Canaã. Esses 3 eram os filhos de Noé, pelos quais se povoou toda a terra. Noé tinha mais de 600 anos e começou a praticar a agricultura e plantou uma vinha. Bebeu vinho e se embriagou, ficando despido dentro da tenda. Cam, o antepassado de Canaã, viu a nudez do pai e foi contar aos dois irmãos que estavam fora. Sem e Jafé, porém, puseram o manto nos ombros e, caminhando de costas, cobriram a nudez do pai. Despertado da embriaguez, Noé ficou sabendo o que fizera o filho mais novo e disse: 'Maldito seja Canaã! Que se torne o último dos escravos de seus irmãos'". Que maluquice. Por ter visto o pai de 600 anos nu e bebum e ter chamado os irmãos, Cam foi condenado pelo pai a ser escravo dos irmãos. Não parece uma pena um tanto desproporcional ao "crime"? Ou o condenado foi Canaã, que nem tinha nascido ainda?

Thursday, July 16, 2009

O tesão não é uma escolha

Se tudo der certo, a gente nasce e cresce. Num certo momento, os hormônios entram em polvorosa e, se você tem o básico pra sua sobrevivência, o sexo passa a ser uma força dominante. Não é assim porque você quer, como se houvesse uma "opção sexual". Há uma escolha, por exemplo, quando você vê uma pessoa que considera atraente passando na rua e você decide se vai ou não olhar pra trás. Você não escolhe se vai achá-la "gostosa", mas escolhe se vai mostrar isso em público. "Putz, viro ou não viro, eis a questão!" Como demonstrações de tesão em público são mal vistas, alguns resistem. E é bom que seja assim, isso é a civilização. Então, pra curar essa repressão do meio social, o camarada bebe e vai a uma boate ver e ser visto. Com as inibições em baixa, os casais se formam com mais facilidade. O maior critério é a atração física, a evolução explica. Como "pegar" o maior número de mulheres ainda é sinal de status, a dinâmica se dá da seguinte maneira: os homens atacam e as mulheres defendem. Isso não é uma regra, é uma tendência. Quem vai negar que a influência familiar, pro bem ou pro mal, não é importante nessa hora? Os pais não querem dizer "we told you so" quando a filha aparecer grávida de um malandro que ela mal conhece, eles querem que ela ou ele tenham a noção de que fazer ou não sexo é, afinal de contas, uma decisão que pode ter conseqüências sérias. O tesão não é uma escolha, a fornicação é.

O seu camarada na amizade da sua garota

Óbvio que ler a Bíblia sob a luz da lógica e da ciência é complicado. Se ainda hoje as trevas da ignorância atingem boa parte da população, imagine como era milhares de anos atrás. Então a leitura que faço da Bíblia é a seguinte: "Olha, você pode não compreender bem o que está sendo dito aqui, mas siga o que a gente diz pro seu próprio bem." É um instrumento de controle. "Tente seguir esse caminho, irmão, se não quiser passar a eternidade ardendo no inferno." Sei que não é muito simpático aos olhos dos crentes eu ficar ironizando algo que é literalmente sagrado pra eles, mas será que a gente não consegue fazer o bem sem a perspectiva de um prêmio ou castigo após a morte? "Se Deus não existe, tudo é permitido." Bullshit. Matar é errado porque desestimular esse tipo de ação é do interesse de todos, não porque a Bíblia diz. O que promove a sobrevivência da espécie é bom, o que a ameaça é ruim. A sacralidade da vida pode e deve ser defendida sob um prisma racional. O aborto, por exemplo, é errado não porque o Papa assim determinou, mas porque todos já fomos fetos e ninguém gostaria de ser assassinado. "Então a masturbação deveria também ser proibida!" Negativo, um feto se forma com a união de um espermatozóide com um óvulo. Aproveite o seu esperma o quanto quiser, mas tenha a ciência de que ao colocar o seu camarada na amizade da sua garota, um novo ser pode ser criado, com tantos direitos e potencialidades quanto você.

Wednesday, July 15, 2009

As origens

"Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida, e ele tornou-se um ser vivente." Por que respiração boca-narina e não boca-boca? "O Senhor Deus deu-lhe uma ordem, dizendo: 'Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não deves comer, porque, no dia em que dela comeres, com certeza morrerás!" Esta parece ser a origem daquela frase de efeito (frases de efeito muitas vezes não passam de meias-verdades): a ignorância é uma bênção. Aí Deus cria Eva a partir da costela de Adão e surge a serpente, que bota pilha pra Eva comer a maçã: "De modo algum morrereis, pelo contrário. Deus sabe que, no dia em que comerdes da árvore, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal" A serpente não só fala como conjuga a segunda pessoa do plural como ninguém. Tascou um "comerdes" ali que pra mim era novidade. Eva, muito ingênua, ignorou as recomendações de Deus e preferiu ouvir a serpente falante, comendo o fruto proibido com Adão. Os dois, que andavam nus por aí sem nenhum pudor, ficam então envergonhados com os seus corpos. Como a revolução industrial ainda não havia popularizado o algodão como vestuário, Adão e Eva tiveram que se contentar em cobrir as partes baixas com uma singela folha de figueira.

Gênesis

"Depois de ter evocado a criação do universo e do ser humano, descreve como, ao afastar-se de Deus, o homem pecou, querendo ser 'dono de seu nariz'". Está compreendido? Por querer "ser dono de seu nariz", o homem pecou. Bacana é a subserviência. "Mas depois do castigo purificador do dilúvio, fica em pé a figura de Noé, eleito para dar um novo início à humanidade." Ou seja, por querer "ser dona de seu nariz", a humanidade é aniquilada pelo Deus misericordioso, que deixa Noé como testemunha. "E quando o orgulho babélico provoca a dispersão de povos e línguas, surge a figura de outro eleito e 'aliado' de Deus: Abraão. (...) Em suma, a história dos patriarcas mostra como o homem, muitas vezes contra seus próprios planos, deve responder ao chamado de Deus e confiar no plano salvífico traçado por Deus e no dom gratuito, a 'graça', por ele proposta". Em suma, você tem que confiar no plano divino, mesmo que ele vá contra os seus próprios planos. Você vira um servo do Senhor, mas, pro redator, Deus faz isso por você "de grátis": "Olha, você é meu escravo, mas agradeça porque não vou cobrar nada por isso". Segue: "A autosuficiência, a violência, o desrespeito à vida e qualquer forma de orgulho são contrários à sua vocação. A realização dessa vocação vai ser mostrada na figura de Abraão e de seus descendentes, através da história de amizade, eleição e aliança da parte de Deus, mas também de orgulhosa rebeldia da parte do homem, devidamente 'corrigida' por Deus." Essas aspas em "corrigida" chegam a ser engraçadas, mesmo que o resultado seja trágico pro rebelde. Não compreendi bem o que a "autosuficiência" e "qualquer forma de orgulho" estão fazendo ao lado da "violência" e do "desrespeito à vida". Deus e o seu redator estão equivalendo essas coisas? Desobedecer um homem invisível é tão pecado quanto matar um homem visível?

A verdade da Bíblia

Vou tentar finalmente ler a Bíblia do início ao fim. Claro que já tinha lido a "Bíblia em quadrinhos", mas vou encarar a versão pra maiores num esforço pra tentar compreender o livro mais influente da cultura ocidental. A tradução é da CNBB e começo pela introdução, justamente no capítulo "A verdade da Bíblia". "Muitas vezes a Bíblia é criticada por não concordar com a biologia, com a arqueologia, com as ciências em geral ou com opiniões corriqueiras nem sempre muito científicas..." Deixam logo claro que se trata de um livro de ficção. "Em vez de denegrir a Bíblia em nome de um conceito estreito e superado de ciência, convém admirar o carinho com que ela foi copiada de mão em mão, milhares de vezes, sem alterações significativas, quando só existiam papel e pena." Tipo um telefone sem fio milenar. "A Bíblia ensina a verdade útil para nossa salvação, e isso, não tanto pelas palavras que estão no papel, mas pelo caminho de retidão e de dom total, caminho, afinal de Jesus de Nazaré." É o que veremos.

Tuesday, July 14, 2009

O idealismo

"Os católicos parecem mais desapegados disso, focados que dizem estar no 'amor ao próximo'. Isso é bonito, mesmo que muitas vezes inaplicável." Se certas pessoas não merecem o amor alheio, isso certamente não invalida o ideal. Se o realismo joga com as circunstâncias atuais, o idealismo propõe algo que é atemporal. É o idealismo que faz um atleta treinar em busca de aperfeiçoamento. É o idealismo que faz um cidadão estudar e se esforçar pra compreender minimamente o mundo. É o idealismo que faz alguém se engajar na causa que seja. Claro que ser "idealista" não absolve ninguém de antemão. Os nazistas e os comunistas também eram idealistas. Então os diversos tipos de idealismo se chocam com a realidade, tentando alterá-la ou, ao menos, aperfeiçoá-la. Um dos motivos que fazem o debate de idéias ser tão crucial é a identificação correta das causas mais importantes a serem defendidas. Quando se ouve por aí que o idealismo acabou e que as pessoas "só pensam em dinheiro", pode ter certeza de que se trata de alguém desiludido com a própria causa ou com a resposta que ela obteve na realidade. O idealismo não vai acabar nunca, porque o homem é um eterno insatisfeito. Se por um lado isso o angustia, por outro o afasta da estagnação.

Comparação superficial entre católicos e evangélicos

É bem superficial mesmo, como diria Nelson Rodrigues, do tipo que "as formigas atravessam com a água pelas canelas". "Melhor então se manter calado!" Pense o que quiser. Os evangélicos têm pior reputação. Um cara do meu círculo social que dissesse que virou evangélico seria quase como se anunciasse que contraiu Alzheimer. O cidadão cai no conceito geral. "Alzheimer não é uma escolha!" Verdade. Se tivesse virado macumbeiro, o estrago não seria tão grande. Claro que diante da "revelação" e da sensação de ter encontrado o Senhor, o camarada não dá grandes importâncias ao que os outros pensam. Passa a ser associado então aos pastores em geral e ao Edir Macedo e suas sacolas de dinheiro em particular. (http://www.youtube.com/watch?v=GUuQDL8Qnkg) O catolicismo recebe mais respeito. Não o respeito absoluto que os católicos gostariam de receber, porque também há resistência. Mas há uma liturgia e um desapego maior aos bens materiais, pelo menos é a minha impressão, que os associam a uma busca espiritual mais séria. A força dos evangélicos pode vir justamente do seu apelo aos prêmios terrenos pela crença, ao dinheiro especificamente. Os católicos parecem mais desapegados disso, focados que dizem estar no "amor ao próximo". Isso é bonito, mesmo que muitas vezes inaplicável. Não sei, este é um diagnóstico de alguém que não acredita em Deus e nem demoniza o dinheiro, mas que cresceu entre católicos. Talvez isso tudo diga mais sobre a tendência de nos identificarmos com os nossos e estranharmos os outros do que qualquer outra coisa.

Monday, July 13, 2009

"Adevogado" das liberdades individuais

Tem os links aí do lado, as citações que coloco e tal, mas a busca pela verdade é individual, eterna e intransferível. Não sou "adevogado" de Mises, Dawkins ou Rand, sou advogado das liberdades individuais. Essas pessoas não inventaram a liberdade, elas forneceram insights e argumentos pra que essa liberdade fosse corretamente compreendida e defendida. Quando Mises fala que as pessoas agem seguindo os seus próprios interesses, ele constata o óbvio. Ele não está dizendo que as pessoas têm o direito de passar por cima das outras e nem que as escolhas sejam isentas de erros, isso é uma caricatura. Quando Dawkins diz que Deus "provavelmente não existe", ele não está chamando automaticamente de "burros" todos os crentes, ele está constatando o óbvio. Ele não está dizendo pros ateus saírem por aí caçando os crentes, isso é uma caricatura. Quando Rand fala que o indivíduo é um fim em si mesmo, ela constata o óbvio. Ela não está dizendo pras pessoas só pensarem em si mesmas, isso é uma caricatura. Lógico que essas coisas são "óbvias" pra mim, não quero e nem posso falar pelos outros. Concordo não porque foram eles que disseram, mas porque são pensamentos coerentes com a minha própria visão do que seja a liberdade. O que acontece na microesfera libertária é um conflito inevitável entre os que acreditam e os que não acreditam em Deus. Isso faz diferença, mas não o suficiente pra separar esses liberais na luta contra grande parte dos diversos tipos de coerção.

Friday, July 10, 2009

Discutindo futebol 2

Quer dizer, pensando bem, a torcida influencia sim, comparecendo ao estádio e comprando produtos do clube. Influencia porque isso reverte em dinheiro e patrocínios pro time, que pode então comprar os melhores jogadores. Influencia também ao enaltecer ou vaiar determinado jogador, pressionando o técnico a fazer isso ou aquilo. Claro que, uma vez em campo, quem decide são os jogadores, mas os times com maior torcida são também os maiores candidatos aos títulos. Há uma lógica aí, obviamente. E isso diz um pouco do espírito gregário (numa interpretação positiva) ou de manada (numa interpretação pejorativa) do ser humano. A torcida cresce porque o time ganha ou o time ganha porque a torcida cresce? Quanto mais gente torce por um time, mais pessoas tendem a torcer por esse time. A solidão e a dissidência cobram um preço que o camarada decide ou não pagar se a sensação de independência compensar o custo. Ou então o cara nem liga pra futebol. "Muito investimento emocional pra pouco controle da situação." Na adolescência, uma derrota feia do Flamengo prejudicava a minha semana. Não deixei de acompanhar, mas tenho hoje um distanciamento que poupa a minha indignação pra assuntos mais importantes, como o volume da rádio AM da vizinha.

Discutindo futebol

Taí um dos grandes equalizadores da sociedade brasileira. É como conversar sobre o clima, se o calor fosse adversário do frio. "É claro que o calor é melhor, conta com a maior torcida do Brasil!" Mesmo sem muita influência no que rola, o torcedor vira um grande advogado daquela camisa que ele escolheu, ou escolheram por ele, pra torcer. Sim, porque ser Flamengo ou Vasco ou católico ou evangélico, na maioria das vezes, não é bem uma escolha fria e racional. Se a sua família é predominantemente flamenguista ou vascaína ou católica ou evangélica, você vai seguir pela mesma seara se não quiser criar atritos. Alguns espíritos mais rebeldes não levam a herança familiar tanto em consideração, mas essa é uma minoria. Então você escolhe uma camisa e, como realmente gosta de futebol, está comprometido com o que acontece com aquele time até o fim dos seus dias. A não ser que, no meio do caminho, você vire a casaca, o que rende as piadinhas e desqualificações de praxe. "Hei de torcer, torcer, torcer, hei de torcer até morrer, morrer, morrer..." O coisa é séria, tá pensando o quê? Mas o seu time não ganha mais nada e assistir a alegria dos outros às suas custas não é agradável. A paixão é cega, ótima frase pra justificar qualquer maluquice. "Pô, eu dei porrada nesse cara porque ele tava usando a camisa do outro time..." "Sim, eu destruí o ônibus porque o meu time perdeu, não lhe parece razão suficiente?" "Claro que o juíz é FDP, ele não marcou aquele pênalti." "Óbvio que eu sou melhor do que você, meu time ganhou mais brasileiros." E por aí vai.

Thursday, July 09, 2009

Sobre achar que se tem a razão

As pessoas acham, né? Elas sabem das suas contradições e limitações, mas imaginam que possam ver as coisas com clareza e um certo distanciamento. Ou não, sei lá, estou falando de mim. Então você tem um insight e exclama: "Putz, lógico! Como é que eu não tinha pensado nisso antes?" Você examina as outras possibilidades, mas nada parece fazer tanto sentido. Paciência se vai haver oposição, nada do que é bom vem fácil. Bom, talvez a masturbação. Você reconhece que a verdade não tem dono, mas que se aproximar dela é possível numa busca que não acaba nunca. Você não quer andar por aí sem entender minimamente como as coisas funcionam. A ignorância não é uma bênção, é um risco pra sobrevivência. Por saberem pouco, as crianças precisam de responsáveis. Então você e as suas sinapses se embrenham entre as teorias e os fatos, tentando encontrar uma lógica nos acontecimentos. Essa investigação tem uma testemunha privilegiada: você, que é humano como todos os outros. "Nada do que é humano me é estranho." Quer dizer, essa é uma meia verdade, vez ou outra estranho certos comportamentos. Mas ei, é só mais uma frase de efeito. Se discorda do outro, você tenta mostrar a sua opinião com educação. Não, você não concorda com aquilo que está sendo dito por isso, isso e por aquilo. Não, não estou te chamando de burro, estou dizendo que talvez você esteja enganado nessa questão. Sim, eu também posso estar enganado. Mas ouça o que eu tenho a dizer e bata um papo com a sua consciência a respeito, por gentileza.

Discutindo com um cineasta brasileiro

O trágico é que quando os jornais vão falar na meia-entrada, dão mil voltas mas não mencionam a única saída justa: A SIMPLES EXTINÇÃO DESSE PRIVILÉGIO. O "direito" do estudante em pagar meia corresponde ao dever dos outros pagarem mais. "Direitos" exercidos às custas dos demais não são direitos, são privilégios. Nenhum empresário consegue se manter no negócio se não tiver lucro. Condenar o lucro é coisa de ideologia ultrapassada. Quem não precisa se preocupar com isso são os cineastas que conseguem patrocínio governamental a fundo perdido e o próprio governo, que se ficar endividado é só jogar títulos no mercado e aumentar os juros. Se o cinema X não der lucro, vai fechar e virar outra Igreja Universal. Aliás, aproveitando o gancho dos Leonardos, eis aí outro efeito colateral de leis estúpidas: o incentivo à desonestidade. "Barbárie capitalista"? Muito pelo contrário, vivemos numa era de estatismo galopante, onde nada anda sem o carimbo de algum político ou burocrata. Quem vai definir qual é o "lucro saudável"? Vamos reviver a Gosplan em terras tupiniquins? Falsificação é a conseqüência natural de uma lei demagógica que tenta agradar a um grupo de interesse específico (UNE - PC do B). Não cabe a mim, a você ou ao governo dizer como um empresário deve conduzir o seu negócio, isso é uma mentalidade típica de países socialistas, aquelas maravilhas, sabe? Mais uns anos de PT no poder e talvez esse tipo de coisa aconteça. Vamos torcer. No meu caso, contra. Sobre os ingressos mais baratos nos CCBBs da vida, isso acontece por um motivo simples: tais lugares são subsidiados, de uma maneira ou de outra, pelo estado. Sei, então a solução é criar uma reserva de mercado pro cinema na mesma linha da reserva de mercado pra informática de uns anos atrás? Aquilo deu super certo, como todos sabem. As pessoas, atenção porque isso pode surpreender a alguns, realmente preferem, na média, filmes americanos aos brasileiros. Quem pode culpá-las? Mas não é paternalizando o cinema brasileiro que ele vai se desenvolver. Muito menos cobrando mais caro porque os estudantes têm o "direito" a pagar meia e os cineastas têm o "direito" de serem patrocinados a fundo perdido. Isso sai do imposto que o pobre paga no feijão, sabia? Pode usar o nome de comunista, socialista, petista, bolivariano, não importa, você quer o estado determinando os caminhos da economia e o que as pessoas podem ou não podem fazer. Isso é autoritário. Sobre a crise mundial, acabei de escrever um textinho tentando mostrar que a culpa não é do "capitalismo" (mero sistema de trocas), mas da intervenção do GOVERNO americano, principalmente através da manipulação da taxa de juros pelo FED. Sobre a "falta de opção" com a quantidade de filmes de Hollywood em cartaz, isso é tratar o outro como um mentecapto sem condições de fazer escolhas por si mesmo sobre o destino do seu rico e suado dinheirinho. É o autoritarismo "do bem". Aliás, qual tirania não tinha lindas intenções por trás tentando justificá-la?

Dogmas e fatos econômicos

Lei de oferta e procura não é dogma, é fato. Imprimir dinheiro sem lastro e criar inflação não é dogma, é fato. Garantir hipotecas subprime através de leis e semi-estatais e, com isso, gerar moral hazard não é dogma, é fato. Juros abaixo do nível de mercado que estimulam investimentos que não seriam feitos não é dogma, é fato. Causas provocarem conseqüências não é dogma, é fato. Dogma é achar que o governo pode fazer todas essas coisas e não gerar nenhum efeito indesejável. Dogma é achar, como o Nobel Krugman, que o governo deve sair de bolhas criadas por ele mesmo com a criação de outras bolhas. Nada disso que está acontecendo é obra do Espírito Santo, é resultado de políticas de governo implantadas com objetivos demagógicos e eleitoreiros. Fazem a cagada e depois colocam a culpa no mercado que não tem como se defender. A imprensa e a intelectualidade dependentes das verbas estatais então endossam a propaganda, "temos que regular ainda mais o mercado dando mais poder aos governos!", e as pessoas entram na conversa, legitimando pela ignorância a próxima crise.

Wednesday, July 08, 2009

O "povo" não existe

"Políticos gostam de falar sobre "o povo". Mas o povo não existe. Em 2007, o sociólogo brasileiro Alberto Almeida publicou um livro muito útil com o título "A Cabeça do Brasileiro" que contém os resultados de muitas pesquisas sobre as atitudes e opiniões dos brasileiros. As pesquisas tocam uma grande variedade de temas políticos, econômicos e sociais. Os resultados mostram: não existe nenhum tema em que predomine unanimidade entre as pessoas consultadas. Em todos os casos existe uma maioria e uma minoria ou até várias minorias que não compartilham da opinião da maioria. O tamanho da minoria pode oscilar. Pode ser uma minoria pequena, de dez por cento, ou uma minoria bastante grande, de 45%, mas sempre existem pessoas que não estão de acordo com a posição da maioria. Em uma democracia isso não surpreende, posto que todos vivem em situações diferentes, que influenciam as suas opiniões. Todos têm outras biografias e outras experiências. Todos têm interesses, desejos, medos e aspirações individuais. As pesquisas refletem a riqueza de uma sociedade aberta, que é a conseqüência da convivência de indivíduos livres. Assim, quando um político fala que "o povo" gosta das demandas e das posições dele, ele quer enganar o público. Quer blefar. O máximo que ele é capaz de alcançar é que o seu ponto de vista, a sua proposta, seja majoritária. Mas, ainda que um político tenha a maioria ao seu lado: por que uma maioria deve ter razão? Na sociedade moderna, onde todos estão expostos à propaganda "social-democrata" dia e noite, onde a ignorância sobre a interação entre política e economia é imensa, onde reina a apatia política em grandes setores da população, onde a ignorância é racional para os eleitores onde o sistema de educação ainda se baseia nas ideologias marxistas e esquerdistas antiquadas, talvez possa ser interessante e relevante conhecer a opinião da maioria. Contudo, como fonte de sabedoria, não serve para um liberal." Rainer Erkens (http://ffn-brasil.org.br/novo/PDF-ex/Publicacoes/Por_que_e_tao_dificil_ser_um_politico_liberal.pdf).

As favelas 2

(…) Acho que a salvação do Rio é a especulação imobiliária. As encostas são os lugares mais caros para se viver em qualquer lugar do mundo. Quem vive em favelas deveria ser bem indenizado pelo terreno para mudar para outro lugar. Claro que a maioria das pessoas que mora lá é honesta. Mas é um esconderijo para o mundo do crime e das drogas.(…)Felipe Camargo, ator, em entrevista para a Revista IstoÉ de 08/07/2009 (http://oburricodebalaao.wordpress.com/2009/07/07/especulacao-imobiliaria-ou-politica-social/). Por vias que não subscrevo, o homem falou algo sensato. Claro que a simples menção da "especulação imobiliária" faz gelar as espinhas anticapitalistas, mas essa é a conseqüência lógica da instituição da propriedade privada como ordenadora da ocupação da cidade. Lugares valorizados são mesmo mais caros, assim como os melhores assentos num avião são também mais caros. Ok, o valor é subjetivo e alguém pode preferir a vista de um outro prédio ao invés do horizonte da praia, mas essa não é uma tendência. Isso não deve ser imposto, basta dar títulos de propriedade - com seus direitos e deveres - aos moradores que a coisa naturalmente se desenvolve. Até hoje alguns lamentam que não existam mais casas na Vieira Souto ou na Atlântica, mas as pessoas que moravam ali preferiram vender suas propriedades às construtoras. Estabeleça gabaritos e regras razoáveis pra ocupação urbana que o mercado racionaliza o uso dos recursos escassos. Sobre "o mundo do crime e das drogas", bastaria legalizá-las. Ou alguém já ouviu falar nos assassinatos da "Guerra contra a cachaça"? Legalize já as favelas e as drogas.

As favelas

Claro que esse "resto" no final do texto anterior não inclui as liberdades e propriedades dos outros. Ninguém tem o "direito" ao reconhecimento, assim como ninguém tem o "direito" ao financiamento da sua arte. O único direito que temos é o de não sofrer coerção de outros indivíduos. Direito este, aliás, que deveria ser garantido pelo estado e não é. Hoje no O Globo rolou uma entrevista com um repórter americano que prepara um livro sobre o tráfico no Rio de Janeiro. Horrorizado com a situação, o homem dizia que não há vítimas ou culpados, que todos estão juntos porque há uma cumplicidade e um silêncio que legitimam esse estado de coisas. O Brasil foi o último país a abolir a escravidão. A manutenção dos privilégios vem lá de trás. Com uma quantidade enorme de ex-escravos sem terra e sem trabalho, foram se formando as primeiras favelas. Sem títulos de propriedade garantidos pelo estado, as favelas são então dominadas por grupos que desafiam a autoridade estatal. Cresce a demanda por drogas, aumentando o poder econômico desses grupos. Políticos populistas (Brizola e seus herdeiros) não acham que a favela seja um problema, ao contrário, ela é a solução. Então elas continuam crescendo sem o direito de propriedade e - onde não há garantia de propriedade - impera a força, a barbárie. A coisa sai do controle e o "asfalto" pede providências. Vão lá então os policiais a tentar enxugar o gelo. Como a procura por drogas não diminui por decreto, a corrupção domina. Quando esse equilíbrio tênue entre policiais e traficantes é quebrado, pessoas são mortas nos tais "acertos de contas". Com a diversificação das atividades econômicas além das drogas, os traficantes passam a enfrentar concorrentes, os milicianos que vendem gatonet, gatolight e gatogás, entre outros serviços. A máfia dominante, o estado, começa a perceber que a sua relutância em enfrentar o problema pode ter feito a coisa ir longe demais. Se não se pode lutar contra eles, junte-se a eles. Nasce o Favela-Bairro e o PAC.