Wednesday, August 12, 2009

Panfleto Libertário 2

"Volto à reunião de intelectuais. Estava lá um comunista que merecia dos presentes uma escandalosa e diria mesmo abjeta admiração. Era talvez a maior figura das esquerdas. Comunista de partido, tinha sobre os outros uma ascendência profunda. Em torno dele, os demais assanhavam-se como cadelinhas amestradas. Um ou outro é que preservara uma sofrível compostura. E então o mesmo que me interpelara quis saber o que o grande homem achava da censura. Ele repetiu: — 'O que é que eu acho da censura?'. Apanhou um salgadinho e disse: — 'Tenho que ser contra uma censura que escraviza a inteligência'. As pessoas se entreolhavam, maravilhadas. Quase o aplaudiram, e de pé, como na ópera. Um arriscou: — 'Quer dizer que'. O velho comunista apanhou outro salgadinho: — 'Um homem como eu jamais poderia admitir a censura'. Foi aí que dei o meu palpite. Disse eu. Que foi mesmo que eu disse? Disse-lhe que um comunista como ele, membro do partido ainda em vida de Stalin, não podia sussurrar contra nenhuma censura. Devia querer que o nosso governo fizesse aqui o Terror stalinista. Devia querer o assassinato de milhões de brasileiros. Não era assim que Lênin e Stalin faziam com os russos? E ele, ali presente, devia querer a interdição de intelectuais nos hospícios, como se doidos fossem. A Inteligência que pedisse liberalização tinha que ser tratada como uma cachorra hidrófoba. Mao Tse-tung vive de Terror. Vive o Terror. Mao Tse-tung é Stalin. Lênin era Stalin. Stalin era Stalin. Quem é a favor do mundo socialista, da Rússia, ou da China, ou de Cuba, é também a favor do Estado assassino. Fiz-lhes a pergunta final: — 'Vocês são a favor da matança do embaixador alemão?'. Há um silêncio. Por fim, falou o comunista: — 'Era inevitável'. E eu: — 'Se você acha inevitável o assassinato de um inocente, também é um assassino'. E era. Assassino sem a coragem física de puxar o gatilho. Parei, porque a conversa já exalava a febre amarela, a peste bubônica, o tifo e a malária. Aquelas pessoas estavam apodrecendo e não sabiam." - Nelson Rodrigues.

2 comments:

Anonymous said...

Sol, isso é trecho do livro do Nelson por ele mesmo? fred

sol-moras-segabinaze said...

O Reacionário.