Wednesday, June 03, 2009

Uma diferença crucial

Tá rolando um debate lá no site do Arnaldo Branco sobre o filme do Simonal e a coisa descambou, naturalmente, pro socialismo X liberalismo. Então os esquerdistas tentam desqualificar os liberais e os liberais tentam desqualificar os esquerdistas. Não, não estou igualando as duas posições, eu tenho um lado e vou usar um exemplo pra tentar explicar porque imagino ter a razão. O Antônio, um esquerdista com argumentos civilizados (coisa rara), começou a meter o malho na VEJA dizendo que ela é "antidemocrática" porque tenta desqualificar o discurso da esquerda. Repliquei lembrando que existem diversas publicações de esquerda (Caros Amigos, Carta Capital e Le Monde Diplomatique) que fazem o mesmo com o discurso liberal e que a imparcialidade jornalística é um mito. A diferença, e isso é crucial, é que no regime comandado pelos Castro (a caricatura favorita do que seja o socialismo pros liberais) a oposição é proibida, enquanto no regime comandado pelos rednecks conservadores estadunidenses (a caricatura favorita do que seja o liberalismo pros socialistas) a oposição é permitida. Ou seja, nos EUA o David Letterman podia esculhambar o Bush todas as noites, enquanto em Cuba qualquer piadinha sobre os feitores pode terminar em jaula. Não, não é a mesma coisa com sinais invertidos, a distância entre as duas posições é oceânica. (http://www.oesquema.com.br/mauhumor/2009/05/20/a-culpa-e-do-jaguar.htm).

13 comments:

Antonio said...

Sol,

Segue abaixo minha resposta ao seu comentário lá do Mau Humor, p/ que os leitores daqui possam conhecer ambas as opiniões envolvidas no debate. Vamos lá:

O fato da Veja querer derrotar o pensamento de esquerda no Brasil é antidemocrático sim — assim como fato da Caros Amigos querer derrotar o de direita também é.

Tanto os radicais de direita quanto os de esquerda acreditam ter o direito – na verdade o dever – de ganhar todas as discussões, de forma incontestável e irrecorrível. Quando questionados, evocam uma espécie de “argumento da Cruzada”: trata-se da luta do bem contra o mal, e tudo se justifica a partir daí. Mas esta maneira de colocar as coisas – “apenas a defesa dos interesses justos” – não esconde a inclinação que está por trás: a vontade de obter o triunfo absoluto, a vitória final, a imposição definitiva de um modo de ser; a anulação radical da diferença e, portanto, a supressão da necessidade futura de negociação.

Veja não faz questão alguma de esconder o projeto de derrotar por completo o pensamento de esquerda no Brasil. Basta reparar no vocabulário: as páginas da revista estão recheadas de termos como “esquerdopata”, “infecção esquerdista”, “petralha” e que tais. Como se a esquerda fosse um tumor maligno a ser extirpado; como se o fato de acreditar que o mercado auto-regulável não seja A Única Solução transformasse automaticamente a pessoa em um doente ou canalha. Creio que o mesmo se poderia dizer, no inverso, em relação a Caros Amigos.

No fundo, o sonho da Veja (e da Caros Amigos) é nunca mais ter que argumentar ou negociar com o espelho de sua diferença, aquilo que lhe é diametralmente oposto. Em outras palavras: para a Veja, o melhor dos mundos é aquele onde não haveria qualquer resquício da mentalidade de esquerda. Mas aí — suprema contradição — já não seria mais o mundo realmente democrático que ela tanto diz defender. Capice?

Vc diz que “Não existe imparcialidade jornalística, isso é um mito”. Tem razão. Mas isto só confirma o meu argumento. Clifford Geertz (que não era jornalista, mas antropólogo), resumiu bem a questão: não é porque um ambiente 100% asséptico é impossível que iremos realizar cirurgias no esgoto. A imparcialidade total é uma impossibilidade? Claro que é. Então devemos mandar às favas os fatos e publicar somente aquilo que gostaríamos que nossos leitores pensassem? Claro que não. Esta é a diferença entre o bom e o mau jornalismo. O bom jornalismo é motivado pela preocupação genuína de entender os fatos e apresentá-los aos leitores com a maior gama de complexidade e honestidade possível. O mau jornalismo, ao contrário, preocupa-se mais em julgar do que em pesquisar, procura o conforto enganador de clichês generalizantes, ao invés de sair à cata de especificidades e surpresas, e está mais interessado em vender uma visão de mundo previamente elaborada do que em apresentar visões de mundo diferentes, conflitantes.

"Veja" pode fazer bem aos seus olhos, Sol, dado que vcs comungam da mesma ideologia. Mas faz uma bosta de jornalismo.

E um adendo: a ordem liberal-democrática é melhor do que o regime socialista não apenas em função da garantia da liberdade de expressão, mas também e sobretudo porque é esta liberdade que permite que o sistema corrija a si próprio.

Daí que, após 8 anos de um governo estúpido e equivocado como o de Bush, os EUA retomam o rumo correto sob a liderança de Obama...

abs,

sol-moras-segabinaze said...

Só um comentário: a VEJA não faz tão bem assim aos meus olhos, Antônio.

Pegam leve demais com o Lula e o PT.

João said...

Ainda esse lance?

Não tem nada de antidemocrático em querer derrotar pensamentos, com base em argumentos.

Antidemocrático é impedir este debate, como fazem as ditaduras apoiadas pela Caros Amigos - da qual o ditador Fidel castro chegou a ser colunista.

Tenho contra a Veja o tom editorializado demais; no entanto ela faz reportagens e bate em governos tucanos, pefelistas etc. do mesmo jeito. Caros Amigos, Chapa capital e quetais maquiam falcatruas petistas e paredóns com proselitismo ideológico.

Pô, e o Arnaldo foi minha fonte primordial na marcha hehehe

sol-moras-segabinaze said...

Opa! haha

Antonio said...

João, quando eu falei "derrotar", foi no sentido absoluto: a derrota final é aquela que erradica, que aniquila. Neste sentido, trata-se de uma ambição antidemocrática sim, pelas razões que estão expostas no meu comentário anterior.

No mais, concordo com as críticas à imprensa radical de esquerda. Mas olha, dois erros não fazem um acerto...

João said...

Não tem nada de antidemocrático em querer derrotar pensamentos, com base em argumentos.

As mentiras dos esquedopatas e petralhas - muito além de esquerdistas "com argumentos civilizados", como citou o Sol e que têm esaço até na capa da Veja - têm mais é que ser aniquiladas mesmo. A mentira como método não merece respeito.

sol-moras-segabinaze said...

Indeed, João.

Antonio said...

João,

Ou vc não leu meu comentário todo, ou leu e não entendeu, ou está de sacanagem.

Pela última vez: é *óbvio* que não há nada de antidemocrático em querer derrotar pensamentos, com base em argumentos.

Mas não é disto que se trata o meu argumento. Perdoe, mas vc me obriga a uma lição básica de teoria política.

Qual a condição de possibilidade da democracia? Ou, em outras palavras, o que é indispensável haver para que tenhamos um regime democrático?

A condição de possibilidade da democracia é a existência de vários atores políticos com semelhante poder de barganha. Por atores políticos, leia-se partidos diferentes, com ideologias diferentes, conflitantes.

Se houver apenas um ator político monopolizando o poder, então não existe realmente democracia.

Pois bem. Meu argumento é o seguinte: a Veja não quer apenas fustigar o PT ou denunciar os podres do governo Lula. Se fosse só isso, teria os meus aplausos. A inspiração que anima Veja é a de erradicar o pensamento de esquerda -- custe o que custar. E isso inclui mentir, manipular.

Se "a mentira como método não merece respeito", então Veja não merece respeito nenhum, meu chapa. E como ja antecipo sua resposta, aqui vai um exemplo:

A edição 2031 de Veja examinou a questão do aquecimento global, dando especial ênfase às vozes dissonantes no interior da comunidade científica. De um lado, a maioria dos pesquisadores, catastróficos em suas previsões, clamando por uma ação global urgente; de outro, alguns poucos cientistas céticos quanto à tais previsões e demandas. Veja enfatiza o fato de que não existe um consenso na comunidade científica sobre o aquecimento global.

Ao final, Veja resumiu os argumentos de ambas as partes, afirmando em seguida “quem está certo”, ponto por ponto. Placar final: Céticos 4 x 2 Catastróficos. Ora, se não há um consenso entre os cientistas sobre o assunto, como é que Veja, que não é uma publicação científica, pode decretar “quem está certo”?

(Mandei uma carta à revista, fazendo esta pergunta. Não foi publicada. Não obtive resposta.)

Vamos lá:

Na mesma reportagem, Veja acusa a esquerda de haver “sequestrado” o discurso ambientalista para colocá-lo a serviço de seu eterno sonho de impor rédeas ao capitalismo – afinal, trata-se de implementar regulamentações que ferem o princípio de livre funcionamento dos mercados. Isto certamente é verdade, e Veja não perdeu a chance de denunciar este oportunismo ideológico da política esquerdista.

Mas Veja fez exatamente a mesma coisa, só que na contramão: seqüestrou o discurso ambientalista cético, e lhe conferiu valor de verdade. E pq ela teria feito uma coisas dessas? Pq ela entende de ciência pra caceta, mais até do que os próprios cientistas? Tenha paciência... Veja afirmou que os céticos estavam majoritariamente CERTOS porque isto se ajusta ao seu projeto ideológico de aniquilar o pensamento de esquerda, que tem no ambientalismo uma de suas maiores bandeiras.

Ora porra, Veja AFIRMOU "quem estava certo" -- quando havia dito claramente não haver um consenso científico sobre a questão!

No excuses: isto, meu caro, é manipular, é enganar.

João said...

Sim, entendi, e não, não estou de sacanagem, nem haveria porque estar, com quem nem conheço - meu comentário inicial dirigiu-se ao Sol, aliás. De qualquer forma, a Veja posicionou-se - o que não tem nada de errado -, e ressaltou que não há consenso - o que não a impede de preferir uma das interpretações e mostra que, não, ela não procurou, de forma nenhuma, aniquilar a versão contrária à dela.
Aniquilar a mentira de que, só para citar um exemplo, dilma roussef lutou por um Brasil livre e democrático, sim, o Reinaldo tenta, e está certo nisso.
Além disso, a Veja não tem um ditador como colunista.

Antonio said...

João,

Uma coisa é a Veja "preferir uma das interpretações".

Outra, completamente diferente, é ela afirmar explicitamente qual das interpretações está correta. Ao fazer isso, Veja conferiu valor de verdade ao que era até então uma interpretação.

O nome disso é mentira, manipulação -- não há como chamar de outra forma.

Se a Caros Amigos tivesse feito a mesma coisa, só que no inverso (conferindo valor de verdade ao discurso ambientalista catastrófico), tenho certeza de que vc estufaria o peito para gritar: "Nojentos, manipuladores, mentirosos!"


Relativismo é uma praga, vou te contar...

João said...

Precisa contar nada não. Só o relativismo leva a pôr como passíveis de comparação nos mesmos termos uma revista que chega a ter um ditador como colunista e outra que passa longe disso.

É mentira dizer que a incidência de doenças como a malária depende menos do clima do que da infraestrutura sanitária? Se fosse, o Rio teria indíces dessa doença semelhantes aos de países africanos.

Em todas as questões - mais ou menos objetivas ou analíticas - a revista exerce seu direito de se posicionar e, em nenhuma, omite o outro lado nem inventa dados falsos para desqualificá-los. A revista não uma nada disso como suposto argumento. Nem adivinhação.

Antonio said...

João,

Vc tem razão.

Eu sou um idiota.

abs,

João said...

Meus comentários referiram ao objeto de discussão, neles é que inexistiu qualquer ilação pessoal.