Thursday, June 04, 2009

Os quadrinhos também têm ideologia

Por causa do Fábio Bianchini, figura querida de Santa Catarina, cheguei neste desenho dos Malvados. Eu já conhecia por alto o trabalho do André Dahmer, mas nunca tinha parado pra analisar realmente o que ia ali. Reconhecia o traço e o tom de crítica social, mas o que vai neste em particular é tão típico que eu não resisto. A coisa começa com a legenda "bem no início, o homem era livre" e um dos malvados dizendo "caçar e transar, o que mais podemos querer?". Se o homem "era" livre, é porque não é mais. Aí um malvado começa a construir ferramentas, até que surge a arma e a legenda diz "com as armas, nasceu a razão". A última cena mostra um malvado com um porrete na mão ordenando ao outro que "trabalhe, não vê que estou com a razão?" Soa familiar? Pois é a mesma leitura que Marx e Engels fazem da Revolução Industrial, a versão socialista do Jardim do Éden. A existência idílica onde o homem tinha apenas que caçar e transar (alguém já parou pra pensar na trabalheira que é matar um animal e comê-lo sem as ferramentas modernas?), até que a mecanização (a maçã do pecado) o tirou desse estado para escravizá-lo. É romântico, mas não bate com a realidade. O homem, desde a Idade da Pedra, tem que produzir ou ser ajudado por alguém que produza se quiser consumir. O trabalho não é um fim em si mesmo, é um meio de se alcançar coisas que valorizamos. Se a abundância fosse o estado natural da humanidade, esse tipo de crítica teria razão de ser, mas, infelizmente, não é. A escassez comanda e é por isso que o capitalismo, tão incompreendido, é o meio mais eficaz de se criar riqueza e dar uma vida mais confortável a todos. Ou alguém aí quer voltar a caçar da mão pra boca?

22 comments:

Löis Lancaster said...

Quero comentar, mas infelizmente meu patrão explorador me alocou numa máquina em que a barra de espaço tem problemas. Vamos ver se decasa eu consigo! Abs

sol-moras-segabinaze said...

hehe

No aguardo então.

Bianchini said...

É, mas depois do "o que mais podemos querer?", o segundo responde: "sem cérebro desenvolvido, sem problemas". A menos que nos aceitemos como não-desenvolvidos, isso significa que o modelo não nos serve.

A referência das armas como o que faz o outro trabalhar não é ao modelo industrial capitalista, é a qualquer opressão. Se tu quiser, pode falar perfeitamente da opressão socialista. E a associação delas, as armas, com a razão, também mostram a crítica ao obscurantismo que foge do livre debate.

E o último comentário poderia perfeitamente ser melhor recebido por um liberal: "só falta ele escrever um livro com o que é permitido ou proibido".

sol-moras-segabinaze said...

Por que ter um cérebro menos desenvolvido é melhor do que ter um mais desenvolvido?

Fábio, é justamente isso: não tem ninguém, pelo menos nos países capitalistas, com uma arma apontada na cabeça do cidadão o obrigando a trabalhar. A necessidade de consumo é algo que vem da nossa própria natureza, não há coerção de outros humanos sobre isso.

E eu te digo o que estaria num livro de leis liberais: é proibido roubar, matar e fraudar. Vc tem a liberdade de fazer o que quiser, contanto que respeite a propriedade alheia.

Não sei se entendi tudo o que vc quis dizer, mas acho que é isso.

Bianchini said...

"Por que ter um cérebro menos desenvolvido é melhor do que ter um mais desenvolvido?" É exatamente esse o ponto. Evidente que não é melhor. Todos temos mais ambições do que a vida descrita no tal Éden. É nessa fala que o Dahmer reconhecer que esse passado não é um paraíso idílico.

E se nos países capitalistas não há ninguém com uma arma na cabeça obrigando o outro a trabalhar, então por que tu afirma que é a estes a crítica do gibi? Escravidão ainda come solta em muito lugar do mundo.

E olha a tua lista de proibições: roubar, matar e fraudar, nessa ordem. É ordem de prioridade também?

sol-moras-segabinaze said...

Você é escorregadio paca, sabia Bianchini? hahaha

Não, esta não é uma lista de prioridades e vc observou bem. Matar, roubar e fraudar.

Aonde que rola escravidão atualmente?
A crítica, afinal, é endereçada a quem ou ao quê?

Bianchini said...

Arte tem disso, não é tão pontual, não precisa ser a algo específico, mas isso eu sei que tu sabe. Pra mim, parece ser crítica à opressão, à submissão de um ser humano por outro com o uso da força.

sol-moras-segabinaze said...

Pode ser, mas deixa eu te dizer a premissa básica do liberalismo: ausência de coerção.

Bianchini said...

Lógico. Nisso nós também concordamos. E é exatamente por isso que não entendi tua leitura como parábola marx-engeliana.

sol-moras-segabinaze said...

Ué, a leitura que ele faz do início dos tempos até a produção de ferramentas é exatamente essa, marxista.

Estávamos bem - éramos livres e felizes - criamos as ferramentas - escravizamos o homem.

Não é isso que está ali?

Bianchini said...

"Estávamos bem - éramos livres e felizes - criamos as ferramentas - escravizamos o homem.

Não é isso que está ali?"

"Livres e felizes" - desde que pro cérebro menos desenvolvido. Ou seja, para nós não serve.

"Criamos as ferramentas". As armas que escravizam. Mas também a arte que liberta. Tá tudo ali.

Se é marx-engeliano, vou te confessar que não sei. Mas certamente não é a favor de opressão nem de totalitarismo, totalmente pelo contrário.

sol-moras-segabinaze said...

Na introdução da obra, o pensador alemão descreve assim os trabalhadores ingleses antes da Revolução Industrial: “ganhavam para suprir suas necessidades e dispunham de tempo para um trabalho sadio no seu jardim ou em seu campo, trabalho que para eles era uma forma de descanso; e podiam, ainda, com seus vizinhos, participar de passatempos e distrações“

http://perspectivabr.wordpress.com/2008/07/26/a-situacao-da-classe-trabalhadora-na-inglaterra-de-friedrich-engels/

Bianchini said...

Tá, mas essa noção de passado paradisíaco não é invenção de Engels, né? Taí a Bíblia, taí o Arcadismo e taí mais um monte de coisa, isso é inconsciente humano ancestral.

sol-moras-segabinaze said...

Então, é justamente disso que estou falando. Uma noção romântica de como era o passado pra condenar o presente.

Bianchini said...

Sim, mas que já é desmentida no mesmo quadro, no balão seguinte.

sol-moras-segabinaze said...

Desculpe, mas qual balão desmente essa noção?

Bianchini said...

Aquele do "sem cérebro desenvolvido, sem problemas". A menos que tu queira dizer que o Dahmer REALMENTE afirma que cérebro desenvolvido é uma desvantagem. E aí eu vou achar que tu tá de extrema má vontade.

sol-moras-segabinaze said...

Você tem um ponto. Mas acho que as conclusões que ele tira disso são equivocadas.

Anita Lucchesi said...

É, Sol,e um outro problema deste tipo de material (ilustradinho, bunitinho, legalzinho...muitas aspas) é que muitas vezes são utilizados em sala de aulapor professores marxistas. A inculcação ideológica e o patrulhamento no Brasil são uma realidade, que crianças e jovens não estão preparadospara enfrentar, pois a maioria ainda não formou um juízo de valor, e infelizmente, quando estiver por formar, terá conhecido somente um lado da moeda.

O Escola Sem Partidos tem uma inicitiva legal para combater isso:
http://www.imil.org.br/blog/escola-sem-partido-prossegue-a-campanha-do-cartaz-antidoutrinacao/

Chega de doutrinação!

Eu mesma me lembro de tirinhas semelhantes nos meus livros do Ensino Funamental.

Aff...

sol-moras-segabinaze said...

Conheço o Escola Sem Partido, Anita.

Fazem um bom trabalho de desintoxicação ideologica.

snakenerd said...

Fala Sol. Eu não concordo com a conclusão do seu raciocínio: "A escassez comanda e é por isso que o capitalismo, tão incompreendido, é o meio mais eficaz de se criar riqueza e dar uma vida mais confortável a todos."

O modo de produção comunista não necessariamente assume fartura. Logo, não há como concluir que o capitalismo é o meio mais eficaz de produzir riqueza (reduzindo a escassez).

Estou perdendo algum contexto nessa discussão?

[]s
-- Fred

sol-moras-segabinaze said...

Fred, o modo comunista de produção pode não assumir fartura, mas certamente não produz abundância. Os incentivos simplesmente estão equivocados e assumem que um comitê central é capaz de planejar toda uma economia que é muito complexa. O próprio Mises, ainda em 1922, demonstrou que a economia socialista era como um barco sem bússula à deriva, porque não contava com um sistema de preços, tornando inviável o cálculo econômico.

Agora, a esquerda "moderna", tipo o PT, acha que o importante é "redistribuir riqueza" como se ela fosse um bolo fixo independente da sua produção. Claro que eles mesmos ficam com a maior parte do bolo, eles e os seus grupos de interesse favoritos.

O resto paga a conta, ou o bolo.

E é óbvio que o capitalismo é o meio mais eficaz de se produzir riqueza. Você tem alguma dúvida disso?