Thursday, June 18, 2009

A busca pelo conforto também é natural

Não é porque o homem consegue racionalizar a realidade que ele é uma entidade separada da natureza. Não, é um animal com instinto de sobrevivência como todos os outros. Desenvolvendo a razão e sendo capaz de produzir além da sua subsistência, foi capaz de se dedicar a outras atividades além da alimentação e procriação. Criou-se então a arte, as diversões, os gadgets e toda sorte de coisas que tornaram a vida mais agradável. Quem não gosta de conforto? Quem não gosta de ficar chapado no sofá assistindo ao programa favorito na TV? Um dos motivos que fazem a pessoa trabalhar é adquirir conforto pra si e pros seus. O trabalho não é um fim, é um meio. Uma amiga diz que essa "busca pelo conforto a qualquer preço virou um câncer que eventualmente vai nos dizimar." Muito pelo contrário, essa busca pelo conforto - que não é artificial, faz parte ela mesma do instinto de sobrevivência - é o que nos move pra, como diria Mises, passar de um estado menos satisfatório pra um mais satisfatório. A vida na selva é dura e dura pouco. E essa busca por conforto não vai exaurir os recursos naturais. A água que consumimos não sai do rio diretamente pra um buraco negro, ela continua no planeta. Diz o George Carlin no vídeo clássico (http://www.youtube.com/watch?v=X_Di4Hh7rK0) que a Terra "is a self correcting system". Claro que, por isso, não devemos sair por aí emporcalhando e destruindo gratuitamente as coisas, mas o uso construtivo daquilo que vem da Terra para o nosso benefício deve ser celebrado ao invés de execrado.

27 comments:

Antonio said...

Sol

A busca pelo conforto não é inerente ao homem, quer dizer, não faz parte da "natureza humana".

[Aliás, não existe isso a que chamamos de "natureza humana", mas isto é conversa pra outra ocasião.]

Conforto, para vc, pode ser um sofá, um bom dvd, um baseado e ar-condicionado, caso estejamos no verão. Para um aborígene australiano, "conforto" pode ser outra coisa absolutamente diferente -- saber que os deuses totêmicos estão a seu lado, por exemplo.


"Ah", vc poderá retrucar, "mas mesmo o aborígene procura fazer uma cabaninha para se abrigar das intempéries, e comer alimentos cozidos".

É claro que ele faz tudo isso. Mas se este "impulso em direção ao conforto" fosse mesmo inerente ao humano, como vc afirma, então inevitavelmente o aborígene iria querer cada vez mais conforto, e de melhor qualidade -- uma cabana melhor, que vazasse menos em dias de chuva etc.

O único jeito de contra-argumentar, nessa altura, seria dizer mais ou menos o seguinte: "mas quem garante que o aborígene já não atingiu o máximo de sua capacidade, de suas habilidades em prover a si próprio uma vida confortável?".

A resposta é: nada nem ninguém garante isso. Mas o que temos de evidência antropológica -- etnografias feitas em diversas tribos, em diferentes lugares -- aponta no sentido contrário.

Para ficar num único exemplo (se não me engano, de Evans Pritchard): o pesquisador deu ao indio instrumentos que agilizariam a producao agricola, enxadas etc. Com elas, os indios poderiam ter um rendimento melhor (não lembro a porcentagem agora: digamos que eles produziriam a mesma quantidade de alimentos com 40% a menos de tempo), o que implicaria num excedente de tempo livre. Ou seja, ao inves de trabalhar 4 horas para plantar, sei la, 4 metros quadrados, eles precisariam trabalhar apenas 2 horas e pouco. O que obviamente significava que eles poderiam aumentar a producao, e estocar alimentos, ou trocar por outros bens com tribos vizinhas etc.

Pois bem. Os indios continuaram a trabalhar apenas as 2 hrs e pouco, suficientes para prover aquilo ao qual estavam acostumados. O resto do tempo, utilizaram para fazer as outras coisas de que gostavam: pescar, tomar banho de rio etc.

Acumulacao, melhora de qualidade de vida e conceitos correlatos era algo simplesmente inexistente na cosmologia deles.

Abs,

judy said...

pelo menos a gente concorda que a Terra em si não vai acabar :)

quantos anos você gostaria de viver idealmente? de uma maneira tranquila, com saúde e lucidez, sem estar todo capenga, claro...

sol-moras-segabinaze said...

Paulinha, quero viver bem até os 150 anos. haha

Mas sei que isso não vai acontecer, não quero abrir mão tão cedo do meu, digamos, estilo de vida.

E você, tem uma data limite? Uma coisa é certa, na média as mulheres vivem mais do que os homens.

sol-moras-segabinaze said...

Antônio, claro que existe uma natureza humana, como não?, que eu poderia resumir como sendo o instinto de sobrevivência. Como diz o Woody Allen, "o sangue escolhe viver".

E existem aborígenes que se, vamos dizer, aculturaram, assim como existem índios brasileiros aculturados. A tendência é que essas pessoas se insiram cada vez mais na civilização, ahn, ocidental. Questão de tempo.

Você, como bom e aplicado esquerdista, me parece ser um multiculturalista, não enxergando hierarquia alguma entre as culturas. Pois eu acho que a nossa cultura é superior sim à cultura dos pigmeus da África. Tem maior respeito pela vida e as pessoas vivem mais e melhor. As idéias fazem diferença.

Antonio said...

Sol

Se vc fala em "natureza humana", está obviamente se referindo a alguma qualidade intrínseca e universal que seja exclusiva à espécie humana.

Em outras palavras: animais também têm instinto de sobrevivência. A darmos crédito ao seu raciocínio, um búfalo ou uma lontra também teriam uma "natureza humana".

O instinto de sobrevivência não pode ser mobilizado como o elemento definidor de uma suposta "natureza humana" porque ele não é exclusividade nossa, não é uma particularidade de seres humanos.

Manjou?

Quanto a um suposto relativismo que seria advogado por "esquerdistas multiculturalistas" como eu, bem, a coisa não é tão simples.

Obviamente que eu considero uma sociedade liberal-democrata melhor do que uma sociedade comunista ou nazista, por razões que já explicitei em outros comentários.

Mas eu tenho alguma dificuldade com a noção de que a minha cultura seja "superior" à uma cultura qualquer indígena, por exemplo. Este é um assunto loooongo, e eu confesso alguma preguiça em mobilizar todos os argumentos que deveria para sustentar minha opinião de modo plausível e coerente.

Então digamos simplesmente que não esteja tão claro que nossa cultura tenha "maior respeito pela vida" e que viva "melhor" do que uma cultura de uma tribo amazônica ou aborígene australiana. Isto, em minha opinião, não pode ser afirmado de forma categórica e absoluta -- mas apenas relativa a certos aspectos.

[E não se trata aqui de reeditar o mito rousseauniano do bom selvagem... Isso seria apenas ingenuidade.]

sol-moras-segabinaze said...

A lotra também tem o instinto de sobrevivência, mas não tem a razão, e isso faz toda diferença.

E esse papo de cultura é mesmo complicado, um dia tento aprofundá-lo aqui.

sol-moras-segabinaze said...

De qualquer forma, te indico esse texto do Constantino:

http://rodrigoconstantino.blogspot.com/2006/09/relativismo-cultural.html

Os comentários também trazem boas reflexões sobre o assunto.

Antonio said...

Então deixa eu ver se entendi: para vc, a natureza humana seria o instinto de sobrevivência + a razão?

Mas o que vc entende por "razão"?

Se "razão" for o pensamento racional, que se desenvolve na Grécia antiga como forma de explicar os fatos do mundo através da lógica, e não do mito, então vc tem um problema em mãos.

Pois vc será obrigado a dizer que todos os povos que viveram antes do surgimento dos filósofos pré-socráticos tem uma "natureza humana" diferente da nossa. Ou que os aborigenes australianos, por exemplo, tb tem uma natureza humana diferente da nossa.

Mas aí vc estará caindo em contradição: pois se estamos falando em "natureza humana", estamos falando em uma qualidade universal e inerente do homem, algo próprio da espécie, que independe portanto de tempo e lugar.

Quer dizer, não pode haver "duas naturezas humanas" distintas. Ou é natureza humana, no singular, ou não é.

E aí?

abs,

ps - li rapidamente o texto do Constantino. Não vou comentá-lo agora em detalhes; basta apenas dizer que o achei bastante tosco.

sol-moras-segabinaze said...

Então a razão foi "inventada" pelos gregos? Não, o desenvolvimento da razão humana é resultado de milênios de evolução. Os gregos apenas a sistematizaram.

Os aborígenes não têm uma natureza diferente da nossa, têm uma cultura diferente.

Não existem uma lógica desse grupo ou daquele, a lógica é universal.

Antonio said...

Sol

Considere o exemplo (verídico) da tribo dos Nuer.

Um antropólogo que a estudava testemunhou quando o teto de um galpão caiu em cima de um dos integrantes da aldeia, machucando-o bastante. Tratava-se de madeira podre, carcomida pelo sol, pela chuva, pelos cupins. Um dia, ruiu.

E no entanto, a única explicação aceita na tribo era a de que alguém havia feito um "trabalho" para a vítima. Magia. Da braba. Não se cogitava outra hipótese, outra explicação: o teto do galpão caiu, todos diziam, pq alguém tinha entrado em conluio com os deuses para machucar aquele sujeito.

Veja, meu caro: é preciso definir "razão" e "lógica" de algum modo. Não podem ser meramente abstratos, maleáveis a ponto de se encaixarem em qualquer modo de pensar. Por isto eu fiz referência aos gregos. Explicar os fatos do mundo através de "mitos" ou "entidades místicas superiores" não é racional no sentido que atribuímos à palavra.

Em outras palavras: se dissermos que os Nuer estavam agindo racional e logicamente no que diz respeito ao entendimento das causas que levaram ao acidente do galpão, o que acontece aos próprios conceitos de razão e lógica? Não ficariam parecidos demais, quase iguais, àquilo que chamamos de "fé"?

Voltando ao ponto: quando vc afirma que instinto de sobrevivência + razão = natureza humana, vc não pode deixar de considerar o quê significa o conceito de razão ao qual se refere. É claro que os aborigenes australianos têm uma cultura diferente da nossa. Mas eles não se apóiam numa concepção racional de mundo.

Portanto, minha pergunta permanece de pé: a mantermos sua definição de natureza humana, os aborigines (e o restante das sociedades ditas simples, em jargão antropológico) teriam uma natureza humana diferente da nossa -- o que significa que ou eles não são humanos, ou nós não somos.

Como estas duas opções são obviamente falsas, resta uma terceira: sua definição de natureza humana está equivocada.

E então?

sol-moras-segabinaze said...

Eles não seriam justamente diferentes por causa da sua cultura mais "simples" do que a nossa? Por virem de culturas ágrafas? Por não terem - muito longe disso, aliás - passado pelo iluminismo ou até pela sistematização da lógica de Aristóteles?

O que eu quero dizer quando falo que a natureza humana é a mesma é no sentido de que se um aborígene desses crescesse numa família, sei lá, sueca, ele teria tanto potencial de desenvolver a razão quanto qualquer um de nós.

Não é nada intrínseco neles que os diferencia de nós, é o ambiente onde ele vive que limita a sua compreensão da realidade.

Antonio said...

Sol

Se bem entendi o que vc quis dizer, seu argumento então é o seguinte: aquilo que chamamos de natureza humana é o instinto de sobrevivência + o nosso "potencial de desenvolver a razão".

Só que esta maneira de definir a natureza humana te leva a outro problema. Vou explicar.

Todos os homens, de todas as sociedades e todas as épocas, têm não apenas o potencial de desenvolver a razão, como também o potencial de desenvolver expressões artísticas, relações com o transcendental, códigos morais, estruturas familiares, classificações naturais do mundo, sistemas básicos de produção e troca de bens... E assim por diante. São muitas e variadas as potencialidades comuns à espécie humana.


E, de fato, os homens desenvolvem este potencial de muitas formas. Basta ver que todas as sociedades (sejam indigenas ou iluministas) apresentam alguma forma de moral, de religião, de estrutura familiar etc.

Mas -- e este é o ponto -- estas formas de construções morais, práticas religiosas e estruturas familiares, para ficarmos nos exemplos dados, são tão diferentes entre si, que só seria possível reuni-las sob um mesmo conceito (de vigência universal) se nós utilizassemos uma generalização tão larga que o próprio conceito perderia rigor científico, porque demasiadamente abstrato.

Complicado, eu sei. Vou destrinchar.

O amor da mãe pelo filho, por exemplo. Para nós, ocidentais, o amor da mãe por um filho é visto como natural. Uma mãe que mata um filho pequeno não é apenas uma criminosa -- é quase uma besta, um animal. E no entanto, há tribos onde não apenas o filho será criado pelo tio (e não pelos pais), como também o segundo filho será imediatamente sacrificado pela mãe -- e sem remorso na consciência. Descartar o segundo filho é super normal, coisa assim corriqueira.

Se o que a gente quer é uma definição de natureza humana, então temos que levar em conta esta e muitas outras diferenças abissais entre os seres humanos. Para fazer isso, ou seja, para propor uma definição de natureza humana que seja capaz de abarcar todas as inúmeras e impressionantes diferenças entre os homens, somos forçosamente obrigados a procurar uma abstração muito larga, muito frouxa...

Aí a contradição: uma *definição* que se pretende ter algum valor científico tem que *definir* -- e não fazer o inverso! Uma definição científica vagamente abstrata é uma contradição em seus próprios termos: ela pode até ser defendida racionalmente, como vc faz, mas não tem valor explicativo nenhum.

Na verdade, a idéia de natureza humana reflete um pré-conceito metafísico: a noção de que aquilo que os homens partilham em comum seja muito mais importante daquilo que eles têm de diferente, de particular. A busca por uma natureza humana é na verdade uma busca metafísica por uma entidade metafísica – o Homem – que desconsidera completamente as entidades empíricas com as quais nos defrontamos diariamente nas ruas, nos jornais, nas etnografias: os homens em sua imensa variedade.

Há ainda um outro motivo pelo qual eu discordo de sua definição de natureza humana, mas vai no próximo comentário, pq este já está enorme.

Antonio said...

Continuando:

Sua afirmação de que o potencial de desenvolver a razão é o que nos distingue enquanto humanos é problemática num outro sentido. Vamos lá:

Isto a que chamamos de razão não existe fora da linguagem: o próprio pensamento não existe fora da linguagem. Isto é, o aprendizado de uma linguagem é uma condição sine qua non para o desenvolvimento da razão.

Conhece "O enigma de Kaspar House?" Pois é, há outros exemplos verídicos semelhantes -- como aquele do menino que foi criado junto aos lobos. Vc já deve estar imaginando aonde quero chegar.

Ainda assim, vc poderia retrucar: "ok, de fato a razão só existe na e pela linguagem; mas meu argumento continua de pé, pois todos nós, seres humanos, temos o *potencial*, natural, de aprender uma linguagem".

[Aliás, creio que este seja o único argumento do qual vc possa lançar mão nesta altura da discussão.]

Ao que eu responderia dizendo: nossa capacidade de aprender uma linguagem não está nos genes, no DNA, nada disso; o que a maioria dos estudos apontam é que o aprendizado de uma linguagem é um processo que se desenvolve através da interação com outros seres humanos.

Não há nenhuma evidência conclusiva de que nós humanos já venhamos ao mundo "programados" com a capacidade de aprender uma linguagem. Não há nenhuma evidência irrefutável de que a espécie humana teria uma propensão natural -- isto é, uma propriedade biológica que levasse inevitavelmente -- à aprendizagem da linguagem.

E aqui vai uma curiosidade. Sabe quem é o maior defensor da idéia de que os seres humanos já nascem aptos a aprenderem uma linguagem? Ninguém menos que o seu muy querido a idolatrado Noam Chomsky. Chomsky construiu sua fama no mundo acadêmico defendendo justamente esta idéia (e ele o fez de forma brilhante, é verdade.)

Seria curioso ver vc, logo vc, que só consegue enxergar as coisas em termos maniqueístas, de mãos dadas com Chomsky...

sol-moras-segabinaze said...

O que você está dizendo, Antônio?

Que existem pessoas - tirando os casos de deficiência mental, claro - que não têm a capacidade de aprender uma linguagem?

Aliás, os casos de infanticídio são um argumento forte de que existem culturas mais evoluídas que outras. Ou você acha que não?

Antonio said...

Eu não estou dizendo que "existem pessoas que não têm a capacidade de aprender uma linguagem".

O que eu estou dizendo é que todos temos a capacidade de aprender uma linguagem (da mesma forma que todos temos uma capacidade de nos relacionar com o transcendental etc.), mas esta capacidade não está inscrita na nossa configuração biológica -- na nossa "natureza". Ela não está "dada" nos nossos genes, ou nas interações neuronais do cérebro.

Esta capacidade só vem a ser desenvolvida no processo de interação com outros seres falantes de uma linguagem qualquer. Em outras palavras, é uma capacidade que se efetua no interior de uma cultura.

Como eu falei, vc pode discordar disso... Se quiser embasar o ponto de vista contrário, sua melhor opção é Chomsky.

Então? Qual a sua opinião a respeito, levando em consideração os argumentos expostos nos 2 últimos comentários?

ps - Quanto à questão do relativismo, não, vc não vai me pegar nessa... Considero a cultura do Ocidente superior à islâmica, por exemplo, quanto mais não seja porque nós conseguimos conviver melhor com a diferença e ser mais tolerantes do que eles. O problema, meu caro, não é esse. O problema é o que fazer em termos políticos -- aí é bem provável que nossas opiniões divirgam. Talvez vc considere que "ocidentalizar" o mundo todo seja uma boa opção. Eu já tenho minhas dúvidas. Mas isto já seria outra discussão, que fugiria completamente ao nosso debate aqui sobre a natureza humana.

sol-moras-segabinaze said...

Ué, como é que isso não tem nada a ver com a nossa natureza biológica se, pra ela se desenvolver, só precisamos entrar em contato com alguma cultura?

Então fica sendo só uma questão de se entrar ou não em contato com alguma cultura. A coisa está ali, só esperando isso pra ser ativada.

Eu não quero "ocidentalizar" o mundo na marra, a tendência é essa independente da minha opinião e militância. O Irã, por exemplo, vai e quer caminhar nessa direção, não tenha dúvida.

E é justamente isso que deixa os dementes fundamentalistas loucos da vida.

Antonio said...

Não, Sol. É uma diferença sutil.

Não é que a capacidade para aprender uma linguagem esteja dada na natureza, apenas esperando o contato cultural para se desenvolver.

É que tal capacidade se desenvolve durante o processo de interação cultural.

Mas, repito, vc pode discordar disso, e há uma corrente de linguistas que o fazem.

Mas este não é o ponto principal, a meu ver.

O ponto principal é que a noção de natureza humana é tão genérica e abstrata que ela tem poder explicativo muito limitado.

Quando queremos explicar o comportamento dos homens, seja em relação à violência, à sociabilidade, aos afetos, à relação com o transcendental, não adianta recorrer à idéia de natureza humana, pq ela não vai te levar muito longe.

Vc pode continuar usando esta noção, para propósitos retóricos -- aliás, isso é o que o senso comum mais gosta de fazer. Ou seja, pra mesa de bar é uma beleza. Mas num debate que se queira um pouco mais aprofundado, bicho, não adianta: é preciso mobilizar os saberes da antropologia, da psicologia, das ciências cognitivas, da filososfia da mente e da linguagem, da história, da sociologia...

sol-moras-segabinaze said...

Ah, Antônio, faça uso então de todas essas disciplinas pra demonstrar o seu ponto.

Claro que existe uma natureza em comum a todos os homens, o que não é mesmo que dizer que todos sejamos iguais.

E não desqualifique as discussões de bar, te garanto que vários dos insights dos caras que vc mais admira se deram nesses ambientes regados a álcool et caterva. Inclusive fumo, que agora vc quer proibir. haha

Antonio said...

Sol,

Fiz uso da disciplina que eu conheço mais, que é a Antropologia.

Não foi suficiente para vc, então ok, temos pontos de vistas diferentes.

Creio, no entanto, que qualquer pessoa que ler este nosso debate saberá apontar quem é que trouxe argumentos embasados e quem ficou apenas num achômetro típico do senso comum.

[Adorei a piadinha sobre o fumo, ha ha ha.]

sol-moras-segabinaze said...

Ok Antônio, fique à vontade pra considerar que o seu ponto foi o "vencedor".

Já eu acho que, assim como os índios em relação ao mundo ocidental, são apenas visões diferentes, interpretações diferentes e conclusões diferentes, sem nenhuma superioridade de uma em relação à outra. haha

Antonio said...

Obrigado, Sol.

Agora, além da diferença no embasamento dos argumentos, as pessoas que lerem isto aqui poderão ver quem chegou ao final do debate reconhecendo a multiplicidade dos pontos de vista, e quem precisou buscar refúgio no cinismo.

sol-moras-segabinaze said...

Ué, estou apenas usando o mesmo critério que você.

Então a gente não pode julgar a inferioridade ou superioridade da cultura dos índios, mas podemos julgar a superioridade ou inferioridade dos seus argumentos?

Antonio said...

Meu comentario, em outro post, sobre a diferença entre falibilismo e relativismo desfaz este nó que vc supõe existir.

O que não diminui o cinismo: pois vc está lançando mão de um argumento que vc mesmo rejeita.

sol-moras-segabinaze said...

Sim, eu rejeito o relativismo.

E continuo colocando a liberdade individual como O valor a ser defendido, seja aqui ou na tribo Nambiquara.

Antonio said...

Defender, aqui do Rio, a liberdade individual como valor para os Nambiquara é mole.

Vai lá e tenta convencê-los disso...

sol-moras-segabinaze said...

Ué, não quero forçar ninguém a nada, estou falando para pessoas que sabem, ao menos, ler.

Defender a não inferioridade da cultura Nambiquara aqui do Rio também é mole.

Se bem que o meu feed indica que você vem de Arraial do Cabo (pode ser só o servidor). Em todo caso, gosto muito daquela prainha de águas transparentes que tem depois do pontal do Atalaia.

Antonio said...

Deve ser o provedor mesmo, pq moro na Zona Sul do RJ.

E vamos, não se faça de burro, por que isso vc não é. Vc entendeu muito bem minha provocação...

Fico por aqui. Tenho que voltar ao trabalho.

abs