Monday, June 22, 2009

A mão invisível e o futebol

A mão invisível não faz sentido pro Robinson Crusoé. É justamente num jogo coletivo que a metáfora do Adam Smith se aplica. É do interesse de cada jogador ter a melhor atuação possível pra beneficiar o seu time. Claro que a "melhor atuação possível" está condicionada às limitações de cada um. Você não espera que o volante de contenção resolva a partida num lance de habilidade. Isso pode até acontecer, mas não é o que se espera normalmente dele. Tanto é verdade que, provavelmente, ele não tem o maior salário da equipe, reservado àquele camarada como o Maradona, capaz de sair driblando os adversários até fazer o gol, como aquele que fez saindo do meio de campo contra a Inglaterra na Copa de 86. Um técnico socialista (haha!) veria o argentino driblando e fazendo lances de efeito e castraria as suas habilidades: "Você está sendo muito individualista, fominha, Mirandinha, toque a bola pro lado." E o time não sairia do lugar. Um técnico capitalista (hoho!) enxergaria o potencial do Pibe de Oro e o estimularia, sabendo que isso beneficiaria o seu time. No outro lance famoso desse jogo, o Maradona fez um gol usando a mão. O governo do jogo, o árbitro, não enxergou a irregularidade e validou a jogada. A injustiça não foi cometida pela mão invisível, foi resultado da falha da mão visível.

35 comments:

Anonymous said...

Pela densidade, é pirita.

sol-moras-segabinaze said...

Ok, volte sempre, senhor Anônimo.

Bianchini said...

Pô, Sol, o lance de aproveitar ao máximo as habilidades de cada um tá previsto no modo de produção socialista. Aliás, tá no cerne dele. Sabe qual a única coisa que me deixa puto no teu blog? É que quem vê meus comentários acaba me tirando pra comuna. Logo eu, sempre com o logo da Coca-Cola no meu peito. Maledeto.

sol-moras-segabinaze said...

hehehe

Enjoy capitalism, Bianchini.

Sobre o "de cada um, conforme sua capacidade, para cada um, conforme sua necessidade" tem um texto muito forte da Ayn Rand que acho que vale a pena transcrever aqui:

Segue abaixo um trecho memorável de uma obra em que Ayn Rand mostra, de forma extremamente convincente, a inviabilidade de uma sociedade baseada no princípio marxista "De cada um, conforme sua capacidade, para cada um, conforme sua necessidade".

O trecho é longo -- é parte de Atlas Shrugged (1957; em Português: Quem é John Galt? [Editora Expressão e Cultura, 1987]), romance em que Ayn Rand conta, entre outras coisas, como uma fábrica de ponta e extremamente produtiva é destruída por idéias igualitárias. A transcrição é segundo o texto da tradução (pp. 510-517).

A maior parte do trecho é uma explicação, por parte de um ex-empregado, e dada a uma mulher que o entrevistava, de porque a fábrica faliu. Ironicamente, a fábrica se chamava Motores Século Vinte (Twentieth-Century Motors).

Trata-se de uma obra de ficção - ma non troppo. . . O livro foi recentemente votado pelos leitores, na Internet, a obra de ficção mais importante do século XX.

sol-moras-segabinaze said...

[p.510] Bem, foi uma coisa que aconteceu na fábrica onde eu trabalhei durante vinte anos. Foi quando o velho morreu e os herdeiros tomaram conta. Eles eram três, dois filhos e uma filha, e inventaram um novo plano para administrar a fábrica. Deixaram a gente votar, também, para aceitar ou não o plano, e todo mundo, quase todo mundo, votou a favor. A gente não sabia, pensava que fosse bom. Não, também não é bem isso, não. A gente pensavam que queriam que a gente achasse que era bom. O plano era o seguinte: cada um trabalhava conforme sua capacidade, e recebia conforme sua necessidade. . . .

Aprovamos o tal plano numa grande assembléia: nós éramos seis mil, todo mundo que trabalhava na fábrica. Os herdeiros do velho Starnes fizeram uns discursos compridos, e ninguém entendeu muito bem, mas ninguém fez nenhuma pergunta. Ninguém sabia como plano ia funcionar, mas cada um achava que o outro sabia. E quem tinha dúvida se sentia culpado e não dizia nada, porque do jeito como os herdeiros falavam, quem fosse contra era desumano e assassino de criancinha. Disseram que esse plano ia concretizar um nobre ideal. Como é que a gente podia saber? Não era isso que a gente ouvia a vida inteira dos pais, professores e pastores, em todos os jornais, filmes e discursos políticos? Não diziam sempre que isso é que era certo e justo? Bem, pode ser que a gente tenha alguma desculpa para o que fez naquela assembléia. O fato é que votamos a favor do plano, e o que aconteceu conosco depois foi merecido.

A senhora sabe, nós que trabalhamos lá na Século Vinte durante aqueles quatro anos, somos homens marcados. O que é que dizem que o inferno é? O mal, o mal puro, nu, absoluto, não é? Pois foi isso que a gente viu e ajudou a fazer, e acho que todos nós estamos malditos, e talvez nunca mais vamos ter perdão. . .

A senhora quer saber como funcionou o tal plano, e o que aconteceu com as pessoas? É como derramar água dentro de um tanque onde tem um cano no fundo puxando mais água do que entra, e cada balde que a senhora derrama lá dentro o cano alarga mais um bocado, e quanto mais a senhor trabalha, mais exigem da senhora, e no final a senhora está despejando balde quarenta horas por semana, depois quarenta e oito, depois cinqüenta e seis, para o jantar do vizinho, para a operação da mulher dele, para o sarampo do filho dele, para a cadeira de rodas da mãe dele, para a camisa do tio dele, para a escola do sobrinho dele, para o bebê do vizinho, para o bebê que ainda vai nascer, para todo mundo à sua volta, tudo é para eles, desde as fraldas até as dentaduras, e só o trabalho é seu, trabalhar da hora em que o sol nasce até escurecer, mês após mês, ano após ano, ganhando só suor, o prazer só deles, durante toda a sua vida, sem descansar, sem esperança, sem fim. . . .

De cada um, conforme sua capacidade, para cada um, conforme sua necessidade. . . .

Nós somos uma grande família, todo mundo, é o que nos diziam, estamos todos [p.511] no mesmo barco. Mas não é todo mundo que passa dez horas com um maçarico na mão, nem todo mundo que fica com dor de barriga ao mesmo tempo. Capacidade de quem? Necessidade de quem, quem tem prioridade? Quando é tudo uma coisa só, ninguém pode dizer quais são as suas necessidades, não é? Senão qualquer um pode dizer que necessita de um iate, e se só o que conta são os sentimentos dele, ele acaba até provando que tem razão. Por que não? Se eu só tenho o direito de ter carro depois que eu trabalhei tanto que fui parar no hospital, depois de garantir um carro para todo vagabundo e todo selvagem nu do mundo, por que ele não pode exigir de mim um iate também, se eu ainda tenho capacidade de trabalhar? Não pode? Então ele não pode exigir que eu tome meu café sem leite até ele conseguir pintar a sala de visitas dele?

sol-moras-segabinaze said...

Pois é. . . . Mas aí decidiram que ninguém tinha direito de julgar suas próprias capacidades e necessidades. Tudo era resolvido na base da votação. Sim, senhora, tudo era votado em assembléia duas vezes por ano. Não tinha outro jeito, não é? E a senhora imagina o que acontecia nessas assembléias? Bastou a primeira para a gente descobrir que todo mundo tinha virado mendigo -- mendigos, esfarrapados, humilhados, todos nós, porque nenhum homem podia dizer que fazia jus a seu salário, não tinha direitos nem fazia jus a nada, não era dono de seu trabalho, o trabalho pertencia à 'família', e ele não lhe devia nada em troca, a única coisa que cada um tinha era a sua 'necessidade', e aí tinha que pedir em público que atendessem às suas necessidades, como qualquer parasita, enumerando todos os seus problemas, até os remendos na calça e os resfriados da esposa, na esperança de que a 'família' lhe jogasse uma esmola. O jeito era chorar miséria, porque era a sua miséria, e não o seu trabalho, que agora era a moeda corrente de lá.

Assim, a coisa virou um concurso de misérias disputado por seis mil pedintes, cada um chorando mais miséria que o outro. Não tinha outro jeito, não é? A senhora imagina o que aconteceu, que tipo de homem ficava calado, com vergonha, e que tipo de homem levava a melhor?

Mas tem mais. Mais uma coisa que a gente descobriu na mesma assembléia. A produção da fábrica tinha caído quarenta por cento naquele primeiro semestre, e aí concluiu-se que alguém não tinha usado toda a sua 'capacidade'. Quem? Como descobrir? A 'família' decidia isso no voto, também. Escolhiam no voto quais eram os melhores trabalhadores, e esses eram condenados a trabalhar mais, fazer hora extra todas as noites durante os próximos seis meses. E sem ganhar nada mais, porque a gente ganhava não por tempo nem por trabalho, e sim conforme a necessidade.

Será necessário explicar o que aconteceu depois disso? Explicar que tipo de criaturas nós fomos virando, nós que antes éramos seres humanos? Começamos a esconder toda a nossa capacidade, trabalhar mais devagar, ficar de olho para ter certeza de que a gente não trabalhava mais depressa nem melhor do que o colega ao nosso lado. Tinha que ser assim, pois a gente sabia que quem desse o melhor de si para a 'família' não ganhava elogio nem recompensa, mas castigo. Sabíamos que para cada imbecil que estragasse um motor e desse um prejuízo para a fábrica -- ou por desleixo, porque ele não tinha nenhum motivo para caprichar, ou por pura incompetência -- quem ia ter que pagar era a gente, trabalhando de noite e no domingo. Assim, a gente se esforçava o máximo para ser o pior possível.

Havia um garoto que começou todo empolgado com o nobre ideal, um garoto muito vivo, sem instrução, mas um crânio. No primeiro ano ele inventou um processo que economizava milhares de homens-hora. Deu de mão beijada a descoberta dele para a 'família', não pediu nada em troca, nem podia, mas não se incomodava com isso. Era tudo pelo ideal, dizia ele. Mas quando foi eleito um dos mais capazes e condenado a trabalhar de noite, ele fechou a boca e o cérebro. No ano seguinte, é claro, não teve nenhuma idéia brilhante.

A vida inteira nos ensinaram que os lucros e a competição tinham um efeito nefasto, que era terrível um competir com o outro para ver quem era melhor, não é? Nefasto? Pois deviam ver o que acontecia quando um competia com o outro para ver quem era o pior.

sol-moras-segabinaze said...

Não há maneira melhor de destruir um homem do que obrigá-lo a tentar NÃO fazer o melhor de que é capaz, a se esforçar por fazer o pior possível, dia após dia. Isso mata mais [p.512] depressa do que a bebida, a vadiagem, a vida de crime. Mas para nós a única saída era fingir incompetência. A única acusação que temíamos era a de que tínhamos capacidade. A capacidade era como uma hipoteca que não se termina de pagar.

E trabalhar para quê? A gente sabia que o mínimo para a sobrevivência era dado a todo mundo, quer trabalhasse quer não, a chamada 'ajuda de custo para moradia e alimentação', e mais do que isso não se tinha como ganhar, por mais que se esforçasse. Não se podia ter certeza de que seria possível comprar uma muda de roupas no ano seguinte -- a senhora podia ou não ganhar uma 'ajuda de custo para vestimentas', dependendo de quantas pessoas quebrassem a perna, precisassem ser operadas, ou tivessem mais filhos. E se não havia dinheiro para todo mundo comprar roupas, então a senhora também ficava sem roupa nova.

Havia um homem que tinha passado a vida toda trabalhando até não poder mais, porque queria que seu filho fizesse faculdade. Pois bem, o garoto terminou o secundário no segundo ano de vigência do plano, mas a 'família' não quis dar ao homem uma 'ajuda de custo' para pagar a faculdade do filho. Disseram que o filho só ia poder entrar para a faculdade quando houvesse dinheiro para os filhos de todos entrarem para a faculdade -- e, para isso, era preciso primeiro pagar a escola secundária dos filhos de todos, e não havia dinheiro nem para isso. O homem morreu no ano seguinte, numa briga de faca num bar, uma briga sem motivo; brigas desse tipo estavam se tornando cada vez mais comum entre nós.

Havia um sujeito mais velho, um viúvo sem família, que tinha um hobby: colecionar discos. Acho que era a única coisa de que ele gostava na vida. Antigamente, ele costumava ficar sem almoçar para ter dinheiro para comprar mais um disco clássico. Pois não lhe deram nenhuma 'ajuda de custo' para comprar discos -- disseram que aquilo era 'luxo pessoal'. Mas, naquela mesma assembléia, votaram a favor de dar para uma tal de Millie Bush, filha de alguém, uma garotinha de oito anos, feia e má, um aparelho de ouro para corrigir seus dentes -- isto era uma 'necessidade médica', porque o psicólogo da empresa disse que a coitadinha ia ficar com complexo de inferioridade se seus dentes não fossem endireitados. O velho que gostava de música passou a beber. Chegou a um ponto em que nunca mais era visto sóbrio. Mas parece que uma coisa ele nunca esqueceu. Uma noite, ele vinha cambaleando pela rua quando viu a tal da Millie Bush: deu-lhe um soco que lhe quebrou todos os dentes. Todos.

A bebida, naturalmente, era a solução para a qual todos nós apelávamos, uns mais, outros menos. Não me pergunte onde é que achávamos dinheiro para isso. Quando todos os prazeres decentes são proibidos, sempre se dá um jeito de gozar os prazeres que não prestam. Ninguém arromba mercearias à noite nem rouba o colega para comprar discos clássicos nem caniços de pesca, mas se é para tomar um porre e esquecer, faz-se de tudo. Caniços de pesca? Armas para caçar? Máquinas fotográficas? Hobbies? Não havia 'ajuda de custo de entretenimento' para ninguém. O 'entretenimento' foi a primeira coisa que eles cortaram. Pois a gente não deve ter vergonha de reclamar quando alguém pede para abrirmos mão de uma coisa que nos dá prazer? Até mesmo a nossa 'ajuda de custo de fumo' foi racionada a ponto de só recebermos dois maços de cigarro por mês -- e isso, diziam eles, porque o dinheiro estava indo para o fundo do leite dos bebês.

Os bebês eram o único produto que havia em quantidades cada vez maiores -- porque as pessoas não tinham outra coisa para fazer, imagino, e porque não tinham que se preocupar com os gastos da criação dos bebês, já que eram uma responsabilidade da 'família'. Aliás, a melhor maneira de conseguir um aumento e poder ficar mais folgado por uns tempos era ganhar uma 'ajuda de custo para bebês' -- ou isso ou arranjar uma doença séria.

sol-moras-segabinaze said...

Não demorou muito para a gente entender como a coisa funcionava. Todo aquele que resolvia fazer tudo certinho tinha que se abster de tudo. Tinha que perder toda a vontade de gozar qualquer prazer, não gostar de fumar um cigarro nem mascar um chiclete, porque alguém podia ter uma necessidade maior do dinheiro gasto naquele cigarro ou chiclete. Sentia vergonha cada vez que engolia uma garfada de comida, pensando em quem tinha tido que trabalhar de noite para [p.513] pagar aquela garfada, sabendo que a comida que comia não era sua por direito, sentindo a vontade infame de ser trapaceado ao invés de trapacear, ser um pato e não um sanguessuga. Não podia ajudar os pais, para não colocar um fardo mais pesado sobre os ombros da 'família'. Além disso, se ele tivesse um mínimo de senso de responsabilidade, não podia nem casar nem ter filhos, pois não podia planejar nada, prometer nada, contar com nada.

Mas os indolentes e irresponsáveis se deram bem. Arranjaram filhos, seduziram moças, trouxeram todos os parentes imprestáveis que tinham, todas as irmãs solteiras grávidas, para receber uma 'ajuda de custo de doença', inventaram todas as doenças possíveis, sem que os médicos pudessem provar a fraude, estragaram suas roupas, seus móveis, suas casas -- pois não era a 'família' que estava pagando? Descobriram muito mais 'necessidades' do que os outros -- desenvolveram um talento especial para isso, a única capacidade que demonstraram.

Deus me livre! A senhora entende? Compreendemos que nos tinham dado uma lei, uma lei MORAL, segundo eles, que punia aqueles que a observavam -- pelo fato de a observarem. Quanto mais a senhora tentava seguir essa lei, mais a senhora sofria; quanto mais a senhora a violava, mais lucrava. A sua honestidade era como um instrumento nas mãos da desonestidade do próximo. Os honestos pagavam, e os desonestos lucravam. Os honestos perdiam, os desonestos, ganhavam. Com esse tipo de padrão do que é certo e errado, por quanto tempo os homens poderiam permanecer honestos? No começo éramos pessoas bem honestas, e só havia uns poucos aproveitadores. Éramos competentes, orgulhávamo-nos do nosso trabalho, e éramos empregados da melhor fábrica do país, para a qual o velho Starnes só contratava a nata dos trabalhadores. Um ano depois da implantação do plano não havia mais um homem honesto entre nós. Era ISSO o mal, o horror infernal que os pregadores usavam para assustar os fiéis, mas que a gente nunca imaginava ver em vida.

sol-moras-segabinaze said...

A questão não foi que o plano estimulasse uns poucos corruptos, e sim que ele corrompia pessoas honestas, e o efeito não podia ser outro -- e era isso que chamavam de idéia moral!

Queriam que trabalhássemos em nome de quê? Do amor pelos nossos irmãos? Que irmãos? Os parasitas, os sanguessugas que víamos ao redor? E se eles eram desonestos ou se eram incompetentes, se não tinham vontade ou não tinham capacidade de trabalhar -- que diferença fazia para nós? Se estávamos presos para o resto da vida àquele nível de incompetência, fosse verdadeiro ou fingido, por quanto tempo nos daríamos o trabalho de seguir em frente? Não tínhamos como saber qual era a verdadeira capacidade deles, não tínhamos como controlar suas necessidades -- só sabíamos que éramos burros de carga lutando às cegas num lugar que era meio hospital, meio curral -- um lugar onde só incentivavam a incompetência, as catástrofes, as doenças - burros de carga que só serviam às necessidades que os outros afirmavam ter.

Amor fraternal? Foi aí que aprendemos, pela primeira vez na vida, a odiar nossos irmãos. Começamos a odiá-los por cada refeição que faziam, cada pequeno prazer que gozavam, a camisa nova de um, o chapéu da esposa do outro, o passeio que um dava com a família, a reforma que o outro fazia na sua casa -- tudo aquilo era tirado de nós, era pago pelas nossas privações, nossa renúncias, nossa fome.

Um começou a espionar o outro, cada um tentando flagrar o outro em alguma mentira sobre as suas necessidades, para cortar sua 'ajuda de custo' na próxima assembléia. começaram a surgir delatores, que descobriam que alguém tinha comprado clandestinamente um peru para a família num domingo qualquer, provavelmente com o dinheiro que ganhara no jogo. Começamos a nos meter um na vida do outro. Provocávamos brigas de família, para conseguir que os parentes de alguns saíssem da lista de beneficiados. Toda vez que víamos algum homem começando namorar uma moça, tornávamos a vida dele um inferno. Fizemos muitos noivados se romperem. Não queríamos que ninguém se casasse: não queríamos mais dependentes para alimentar.

Antigamente, comemorávamos quando alguém tinha filho, todo mundo contribuía para ajudar a pagar a conta do hospital, quando os pais estavam sem dinheiro no momento. Agora, quando nascia uma criança, ficávamos sem falar com os pais. Para nós, os bebês eram [p.514] agora o que os gafanhotos são para os fazendeiros.

Antigamente, ajudávamos quem tinha um doente na família. Agora . . . Vou contar só um caso para a senhora. Era a mãe de um homem que estava trabalhando conosco há quinze anos. Era uma senhora simpática, alegre e sábia, conhecia todos nós pelo primeiro nome, todos nós gostávamos dela, antes. Um dia ela escorregou na escada do porão, caiu e quebrou a bacia. Nós sabíamos o que isso representava para uma pessoa daquela idade. O médico disse que ela teria que ser hospitalizada, para fazer um tratamento caro e demorado. A velha morreu na véspera do dia em que ia ser removida para o hospital. Ninguém nunca explicou a causa da morte dela. Não, não sei se foi assassinada. Ninguém disse isso. Ninguém comentava nada sobre o assunto. A única coisa que eu sei -- e disso nunca vou me esquecer -- é que eu, também, quando dei por mim estava rezando para que ela morresse. Que Deus nos perdoe! Era essa a fraternidade, a segurança, a abundância que nos haviam prometido com a adoção do plano.

sol-moras-segabinaze said...

[p.515] E quando a gente via isso, entendia qual era a motivação verdadeira de todo mundo que já pregou o princípio "de cada um conforme sua capacidade, a cada um conforme sua necessidade". Era esse o segredo da coisa. De início, eu não entendia como é que os homens instruídos, cultos e famosos do mundo poderiam fazer um erro como esse e pregar que esse tipo de abominação era direita -- quando bastavam cinco minutos de reflexão para eles verem o que aconteceria quando alguém tentasse pôr em prática essa idéia. Agora eu sei que eles não defendiam isso por erro. Ninguém faz um erro desse tamanho inocentemente. Quando os homens defendem alguma loucura malévola, quando não têm como fazer essa idéia funcionar na prática e não têm um motivo que possa explicar essa sua escolha, então é porque não querem revelar o verdadeiro motivo.

E nós também não éramos tão inocentes assim, quando votamos a favor daquele plano na primeira assembléia. Não fizemos isso só porque acreditávamos naquelas besteiradas que eles vomitavam. Nós tínhamos outro motivo, mas as besteiradas nos ajudavam a escondê-lo dos outros e de nós mesmos, nos davam uma oportunidade de dar a impressão de que era virtude algo que tínhamos vergonha de assumir. Cada um que aprovou o plano achava que, num sistema assim, conseguiria faturar em cima dos lucros dos homens mais capazes. Cada um, por mais rico e inteligente que fosse, achava que havia alguém mais rico e mais inteligente, e que esse plano lhe daria acesso a uma fatia da riqueza e da inteligência daqueles que eram melhores que ele. Mas enquanto ele pensava que ia ganhar aquilo que ele não merecia e que cabia aos que lhe eram superiores, ele esquecia os homens que lhe eram inferiores e que iam querer roubá-lo tanto quanto ele queria roubar seus superiores. O trabalhador que gostava de pensar que suas necessidades lhe davam o direito de ter uma limusine igual à do patrão se esquecia de que todo vagabundo e mendigo do mundo viria gritando que as necessidades deles lhes davam o direito de ter uma geladeira igual à do trabalhador. Era ESSE o nosso motivo para aprovar o plano, na verdade, mas não gostávamos de pensar nisso: e então, quanto mais a idéia nos desagradava, mais alto gritávamos que éramos a favor do bem comum.

Bem, tivemos o que merecíamos. Quando vimos o que havíamos pedido, era tarde demais. Tínhamos caído numa armadilha, e não tínhamos para onde ir. Os melhores de nós saíram da fábrica na primeira semana de vigência do plano. Perdemos nossos melhores engenheiros, superintendentes, chefes, os trabalhadores mais [p.516] qualificados. Quem tem amor-próprio não se deixa transformar em vaca leiteira para ser ordenhada pelos outros. Alguns sujeitos capacitados tentaram seguir em frente, mas não conseguiram agüentar muito tempo. A gente estava sempre perdendo os melhores, que viviam fugindo da fábrica como o diabo da cruz, até que só restavam os homens necessitados, sem mais nenhum dos capacitados. E os poucos que ainda valiam alguma coisa eram aqueles que já estavam lá havia muito tempo.

Antigamente, ninguém pedia demissão da Século Vinte, e a gente não conseguia se convencer de que a Século Vinte não existia mais. Depois de algum tempo, não podíamos mais pedir demissão porque nenhum outro empregador nos aceitaria, aliás com razão. Ninguém queria ter qualquer tipo de relacionamento conosco, nenhuma pessoa nem firma respeitável. Todas as pequenas lojas com que negociávamos começaram a sair de Starnesville depressa, e no final só restavam bares, cassinos e salafrários que nos vendiam porcarias a preços exorbitantes. As esmolas que recebíamos eram cada vez menores, mas o custo de vida subia. A lista dos necessitados da fábrica não parava de aumentar, mas a lista de fregueses diminuía. Havia cada vez menos renda para dividir entre cada vez mais pessoas.

sol-moras-segabinaze said...

Antigamente, dizia-se que a marca da Século Vinte era tão confiável quanto a marca de quilates num lingote de ouro. Não sei o que pensavam os herdeiros do velho Starnes, se é que eles pensavam alguma coisa, mas imagino que, como todos os planejadores sociais e selvagens, eles achavam que essa marca era um selo mágico que tinha um poder sobrenatural que os manteria ricos, tal como havia enriquecido seu pai. Mas quando nossos fregueses começaram a perceber que nunca conseguíamos entregar uma encomenda dentro do prazo, nem produzir um motor que não tivesse algum defeito, o selo mágico passou a ter o valor oposto: as pessoas não queriam um motor nem dado, se ele ostentasse o selo da Século Vinte.

E no final nossos fregueses eram todos do tipo que nunca pagam o que devem, e nunca têm mesmo intenção de pagar. Mas Gerald Starnes, dopado por sua própria publicidade, ficava todo empertigado, com ar de superioridade moral, exigindo que os empresários comprassem nossos motores, não porque eles fossem bons, mas porque tínhamos muita NECESSIDADE de encomendas.

Àquela altura qualquer imbecil já podia ver o que gerações de professores não haviam conseguido enxergar. De que adiantaria nossa necessidade, para uma usina, quando os geradores paravam porque nossos motores não funcionavam direito? De que ela adiantaria para um paciente sendo operado, quando faltasse luz no hospital? De que ela adiantaria para os passageiros de um avião, quando os motores pifassem em pleno vôo? E se eles comprassem nossos produtos não por causa do seu valor, mas por causa de nossa necessidade, isso seria correto, bom, moralmente certo para o dono daquela usina, o cirurgião daquele hospital, o fabricante daquele avião?

Pois era esta a lei moral que os professores e líderes e pensadores queriam estabelecer por todo o mundo. Se era este o resultado quando ela era aplicada numa única cidadezinha onde todo mundo se conhecia, a senhora pode imaginar o que aconteceria em escala mundial? A senhora pode imaginar o que aconteceria se a senhora tivesse de viver e trabalhar afetada por todos os desastres e toda a malandragem do mundo? Trabalhar -- e quando alguém cometesse um erro em algum lugar, a senhora é que teria de pagar. Trabalhar -- sem jamais ter perspectivas de melhorar de vida, sendo que suas refeições, suas roupas, sua casa e seu prazer estariam à mercê de qualquer trapaça, de qualquer problema de fome ou de peste em qualquer parte do mundo. Trabalhar -- sem nenhuma perspectiva de ganhar uma ração extra enquanto os cambojanos não tivessem sido alimentados e os patagônios não tivessem todos feito faculdade. Trabalhar -- tendo cada criatura no mundo um cheque em branco na mão, gente que a senhora nunca vai conhecer, cujas necessidades a senhora jamais vai conhecer, cuja capacidade e preguiça e desleixo e desonestidade são coisas que a senhora jamais vai saber nem tem direito de questionar -- enquanto as Ivys e os Geralds da vida resolvem quem vai consumir o esforço, os sonhos e os dias de sua vida. E é ESTA lei moral que se deve aceitar? ISTO é um ideal moral?

Olhe, nós tentamos -- e aprendemos. Nossa agonia durou quatro anos, da nossa primeira assembléia à última, e acabou da única [p.517] maneira que podia acabar: com a falência. Na nossa última assembléia foi Ivy Starnes que tentou manter as aparências. Fez um discurso curto, vil e insolente, dizendo que o plano havia fracassado porque o resto do país não o havia aceitado, que uma única comunidade não poderia ter sucesso no meio de um mundo egoísta e ganancioso, e que o plano era um ideal nobre, mas que a natureza humana não era suficientemente boa para que ele desse certo.

Um rapaz -- o mesmo que fora punido por dar uma boa idéia no primeiro ano -- levantou-se, enquanto todos os outros permaneciam calados, e andou até Ivy Starnes no tablado. Não disse nada. Cuspiu na cara dela. Foi assim que acabaram o nobre plano e a Século Vinte.

Sebastian Volta said...

Um técnico adversário realista, aproveitaria a incoência do técnico capitalista ter montado toda a estrutura de seu time baseado no talento de um único jogador e ordenaria que um zagueiro detonasse o "pibe de ouro" na primeira oportunidade, tirando ele de jogo e deixando o time capitalista perdidinho, perdidinho.

ps: mas os técnicos capitalistas sabem disse, pq eles também são realistas. o liberalismo nunca existiu e não é sinônimo de capitalismo, só o mercantilismo existiu, tanto na forma do capitalismo privado -- dito "liberalismo" -- como do capitalismo estatal -- dito "socialista soviético".

pps: a revolução russa foi a maior revolução capitalista da história. com um golpe, uma empresa -- a URSS -- eliminou toda a concorrência em um dado território -- o maior do mundo, controlado por um só CEO/governo -- e transformou toda população em proletários/escravos. haha!

sol-moras-segabinaze said...

Sebastian, nem a Argentina de 86 se apoiava totalmente no Maradona. Tinha lá o Burruchaga, o Valdano e outros caras bons. Em 1962, o Brasil perdeu o Pelé, mas tinha o Garrincha, o Didi, o Amarildo e foi campeão.

Agora, esses são jogadores que fazem a diferença.

Hoje um Messi e um Cristiano Ronaldo fazem a diferença. Mas não resolvem sozinhos, obviamente.

O liberalismo nunca existiu de maneira pura, sem dúvida, mas os países que mais se aproximaram dele prosperaram. É uma questão de gradação.

O mercantilismo é uma praga, pau nele então. E esse modo equivocado de enxergar o comércio com os outros países não vai mudar se as pessoas, como você, ficarem desqualificando as opções que existem.

As idéias importam.

Anonymous said...

Olha que eu nem católica sou, mais vendo o tamanho deste post a única coisa que me veio em mente foi: "Jesus, Maria, José!!!!" KkKkK Sophia

sol-moras-segabinaze said...

hehe

Apareça Sophia.

Sebastian Volta said...

Ideologicamente, considero-me liberal (e anarquista), mas só acredito que isto seja possível quando não existir mais Estados e fronteiras.
Enquanto houver Estados, só haverá o mercantilismo. O pseudoliberalismo inglês do século XIX foi um pós-mercantilismo que o nome mais adequado é imperialismo, pq não vejo nada de liberal abrir portos à base de canhões (como no Japão) e partilhar continentes e áreas ditas não civilizadas (como na China e na Índia). Esse imperialismo é a pior faceta do capitalismo, o capitalismo militarizado e, tirando a iniciativa privada (mas outorgada pelo Rei, na forma de trusts e corporações), que lhe dá um caráter mais difuso, não é muito diferente do imperialismo soviético. Só é mais eficiente, porque, pela competição interna, permite progredir, enquanto na burocracia, o modus operandi tende a "empacar".
Por ter saído na frente, pela revolução industrial, a Inglaterra pregava um "liberalismo", de modo que causasse um lock in nos países periféricos e os condenasse a produzir apenas matéria prima -- pois seria onde eles seriam mais eficientes. Ao meu ver, não há nada de liberalismo nisso, exceto pela inciativa privada, mas com a chancela do rei, o que na verdade é concessão de privilégios.
Já os EUA, nem se fala... nunca foram liberais. A doutrina econômica de Hamilton é altamente mercantilista e protecionista, com controle tarifário e concessão de subsídios. E foi o que prevaleceu sempre. Estados são atores racionais que tendem a perseguir seus interesses, só que quando há a possibilidade de perseguir esses interesses com um aparato militar, o desfecho é trágico e o mundo transforma-se em uma briga de gangues.

sol-moras-segabinaze said...

Pois é, fica cada país protegendo a indústria nacional e os interesses dos grupos de pressão mais influentes e ricos e as pessoas ficam pagando mais caro pelos produtos.

Não é necessária a abolição das fronteiras pra se defender o liberalismo/anarquismo. Aliás, se não for feita essa defesa de modo consistente hoje, aí é que as fronteiras não serão abolidas mesmo.

Antonio said...

E como é que se defende o liberalismo/anarquismo de modo consistente, Sol?

Tenho curiosidade em saber.

Anonymous said...

Ô da pirita, faz um blog para a gente comentar tuas ideias.

sol-moras-segabinaze said...

Tendo conhecimento mínimo das relações de causa e efeito que movem as coisas, Antônio. Informando aos leigos noções de história e economia que são suprimidas pelos instrumentos de manutenção do status quo.

Demonstrando a contraproducência da atuação do estado em várias, senão todas, áreas.

Colocando, como já te disse, a liberdade individual como a prioridade na divulgação de idéias.

E por aí vai. O liberalismo está representado hoje não apenas em blogs como o meu como em vários institutos. Os links tão aí do lado direito da tela de quem vê.

Antonio said...

Vc não respondeu minha pergunta. Ou melhor, respondeu apenas uma parte dela.

A parte que vc respondeu diz respeito ao liberalismo. E mesmo assim há problemas graves no modo como vc coloca as coisas.

Vc escreve como se história e economia fossem disciplinas exatas, mais ou menos como a física. Como se um argumento de um historiador ou economista pudesse ser "demonstrado" -- da mesma forma que se pode demonstrar que duas moléculas de hidrôgeneo + uma de oxigêneo *sempre* forma a água.

Vc escreve como se o desacordo entre historiadores e economistas de tradições diferentes fosse uma questão de mera manipulação, de "encobrimento" da Verdade, de seu soterramento sob os interesses sinistros -- e não aquilo que realmente é, um conflito natural de opiniões, de interpretações.

Vc escreve como se esta Verdade revelada fosse evidente por si mesma -- bastaria apresentá-la aos leigos sem os encobrimentos e enrolações que todos diriam automaticamente "oooohhhh, eis A Verdade!".


Vc escreve como se os leigos, tendo sido apresentados à Verdade e dito "ooooohhhhhh", fossem todos dar as mãos e cobrar do Estado a sua implementação (a implementação da Verdade), que nada mais seria do que a redução ao maximo do próprio Estado.

Cara, eu tenho uma má notícia para vc: o Ocidente moderno é secular. De um modo geral, as pessoas simplesmente não caem mais nesse papo de Verdade Revelada.

[Há algum exagero na minha ironia, claro -- do contrário, não seria ironia. Mas há um fundo de verdade nela tb.]

Mas e quanto ao anarquismo? Era sobre isto que eu estava mais curioso.

abs,

sol-moras-segabinaze said...

Antônio, a economia, por estar atrelada à política, não é mesmo uma ciência exata. Mas, a intervenção política e estatal não abole a oferta e demanda. Pode distorcer esse mecanismo, mas ele faz parte da realidade tanto quanto a lei da gravidade.

As pessoas podem interpretar o quanto quiserem, mas se elas se jogarem de um precipício, vão se espatifar no chão, mesmo que tenha alguém dizendo que isso "é apenas uma questão de interpretação".

Se o governo proíbe uma substância que as pessoas consomem, vai haver um mercado negro. Se implanta controle de preços, vai haver escassez, e assim por diante.

Causas geram conseqüências, independente da opinião desse ou daquele.

Não há nenhuma Verdade Revelada no sentido de fé, que é fé sem evidência. Há evidências mais do que suficientes que demonstram que quanto maior a liberdade econômica de um país, maior a sua prosperidade.

sol-moras-segabinaze said...

Sobre o anarquismo, é um termo que abriga as mais diversas correntes, sendo as mais populares aquelas dissidentes do comunismo.

Então esses camaradas que defendem o anarquismo na base da "propriedade coletiva" estão caindo simplesmente em contradição. Nem indo tão longe, aquele partido PSOL é também uma contradição ambulante, ao juntar socialismo e liberdade numa frase.

O anarquismo, hum, capitalista seria aquele onde todos os bens escassos seriam privados, inclusive a justiça.

Seria a aplicação prática até as últimas consequências do princípio de não agressão.

Recomendo Lysander Spooner e Murray Rothbard pra se tentar entender melhor o conceito.

sol-moras-segabinaze said...

Corrijo: fé não é, obviamente, fé sem evidência. É crença sem evidência.

Antonio said...

Sol

É claro que há alguma objetividade na economia, assim como há na sociologia, antropologia etc. Não apenas objetividade, mas conhecimento especializado, distante portanto do senso comum.

Mas a economia, ao fim e ao cabo, não é uma ciência exata, como a física. E não é exata não pq esteja atrelada à política, mas porque o seu objeto de estudo não são os fatos brutos na natureza, absolutamente independentes da observação humana.

A lei da gravidade independe da ação humana; ela ja vigorava muito antes de haver pessoas andando sobre a face da terra. A lei da oferta e da demanda, não: ela é produto de uma configuração específica de mercado inventada pelo engenho humano. Se ela foi inventada, pode ser abolida, ou modificada de alguma forma. A lei da gravidade, obviamente, não pode.

Economistas não divergem apenas porque possuem ideologias diferentes, pq estão ligados a partidos políticos diferentes. Divergem sobretudo porque acreditam sinceramente que suas interpretações e teorias são mais apropriadas para se resolver os problemas e alcançar a prosperidade do que as interpretações e teorias concorrentes. Pensar diferente disso equivale a negar a própria objetividade no interior da ciência econômica.

E é claro que a história está cheia de exemplos de que liberdade econômica e prosperidade caminham juntas. O que não significa que isto seja uma "lei", como vc parece afirmar.

Uma "lei", por definição, não admite excessão. Se nós jogássemos uma maçã para o alto e, vez ou outra, ela não caísse de volta, então não poderíamos falar em "lei da gravidade".

Daí já se vê o caráter problemático de entender a afirmação "liberalismo = prosperidade" como uma espécie de lei da economia. Claro, sabemos que as evidências apontam neste sentido. Mas...

Será que vale para todos os países, em todas as épocas históricas?

Será que a receita funciona tão bem para países emergentes quanto funcionou para os que fizeram sua revolução industrial antes dos outros, e saquearam as riquezas alheias o quanto puderam?

Será que um mercado absolutamente integrado através da tecnologia da informação e do fluxo de capitais não pode apresentar uma realidade econômica distinta, que altere um pouco a elasticidade, a aplicação e portanto a validade desta "lei"?

Será que os países liberais são realmente tão liberais quanto eles recomendam os outros que sejam? Se não são, o que os impede? Será que não acreditam muito na teoria que eles mesmos professam como a melhor alternativa?

Não precisa responder estas questões, claro. Elas estão aqui apenas como um lembrete de quão maleável a realidade econômica é.

Por isso minha provocação a respeito da fé: porque vc parece tomar por lei geral universal (de validade eterna, para todo o sempre, em todos os casos) o que não passa de apenas algumas evidencias localizadas, particulares.

Suspeito que, se fosse auto-evidente que o máximo de liberdade economica fosse tudo o que precisássemos, em todos os cenários, então os economistas mais brilhantes já haveriam chegado a um consenso quanto a isso -- afinal, uma verdade deve necessariamente ser objetiva, portanto facilmente reconhecível por aqueles que têm um mínimo de bom senso e instrução. (Como o é o fato de que uma mça sempre cai de volta.) Se as cabeças mais brilhantes da economia não chegaram a um consenso, é porque não existe tal verdade, não existe tal "lei".

O que existe são teorias, interpretações, hipóteses. Com alguma objetividade, é claro, mas ainda assim teorias, intepretações e hipóteses.

Antonio said...

Sol, obrigado pelas dicas de leitura, mas eu honestamente não vou ler. Falta tempo.

(Já imaginou se, em vez de eu te explicar a diferença entre o falibilismo e o relativismo, eu dissesse apenas "leia o Michael Williams, o Peirce, o Burnyeat"?)

Então perdoe a pentelhação, mas como eu sou um cara intelectualmente curioso (e se estou debatendo aqui com vc, é pq tenho interesse em ouvir o que vc diz), vou insistir.

O que vc quer dizer quando coloca que "o anarquismo capitalista seria aquele onde todos os bens escassos seriam privados, inclusive a justiça"?

Como se privatiza a justiça? Até aonde iria a privatização dos serviços públicos? Porque o uso do termo "anarquismo", que remete à rejeição a uma autoridade central estabelecida?

Valeu.

abs

sol-moras-segabinaze said...

"A lei da oferta e da demanda, não: ela é produto de uma configuração específica de mercado inventada pelo engenho humano. Se ela foi inventada, pode ser abolida, ou modificada de alguma forma."

A lei da oferta e procura não foi "inventada", ela é uma realidade inerente à ação humana. Aliás, o livro mais famoso de Mises se chama justamente "Ação Humana".

"Será que a receita funciona tão bem para países emergentes quanto funcionou para os que fizeram sua revolução industrial antes dos outros, e saquearam as riquezas alheias o quanto puderam?"

Vou te dar um exemplo de como a sua interpretação é furada: o Japão é pobre em recursos naturais e é um país rico. O Brasil é rico em recursos naturais e é um país pobre. O seu cacoete esquerdista se mostrou com toda a força nessa pergunta. Quais foram, aliás, os países "saqueados" pelos escandinavos?

Sim, há uma verdade universal em relação à economia: os homens agem querendo passar de um estado menos satisfatório pra um mais satisfatório.

sol-moras-segabinaze said...

Sobre o anarquismo, bens não escassos como o ar, por exemplo, não podem ser privatizados. Mas ruas, polícia e segurança podem. Não estou inteiramente convencido da viabilidade disso nas próximas décadas, mas, em todo caso, é uma teoria com coerência interna que me interessa por se apoiar no princípio da não agressão.

Se houver interesse, esse texto do Robert Murphy pode te ajudar a entender o que estou falando:

http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=93

Antonio said...

Ué, estranho... Se a lei da oferta é mesmo uma "realidade inerente à ação humana" como vc diz, então porque ela não existe em sociedades tribais, indígenas etc?

Sol, vc está naturalizando ("tornando natural") algo que foi inventado pelo homem. A lei da oferta e da demanda só existe numa economia de mercado -- que, pasme, é uma criação humana! A economia de mercado, assim como a lei da oferta e da demanda, não estavam "dadas" na natureza, no mundo. Elas não existiam na época dos dinossauros. Elas são um produto da intervenção humana sobre a realidade, resultado de uma maneira específica de organizar a atividade produtiva de bens e serviços.

Isso é de uma obviedade tão grande que eu fico até meio sem jeito de ter que repetir...

E, olhe, as perguntas que eu coloquei não representam a "minha interpretação" -- portanto, vc não precisa perder seu tempo tentando refutá-las, dando exemplos asiáticos e escandinavos.

Acho que vc é suficientemente inteligente para ter percebido que meu objetivo foi mostrar que a suposta "objetividade" de sua visão da economia não é tão objetiva assim, que existe uma miríade de possibilidades que afetam diretamente esta relação de causa e efeito (liberdade economica = prosperidade) que vc toma por "lei".

Eu ainda adverti: "Não precisa responder estas questões, claro. Elas estão aqui apenas como um lembrete de quão maleável a realidade econômica é."

E o que vc faz? Responde as questões... Como se o conteúdo factual delas estivesse em jogo em nosso debate, e não o fato que tais questões são colocadas justamente porque não existe um consenso sobre a realidade econômica.

Na boa, cansei.

sol-moras-segabinaze said...

Claro que a oferta e demanda se aplica às tribos, Antônio. Veja, se a oferta de animais para abate diminui na área dos índios, vai aumentar a demanda por índios capazes de abater esses animais tão escassos. O pajé vai então mobilizar ou ordenar mais guerreiros pra essa tarefa. Ou então vão se mudar pra um lugar onde a caça seja mais abundante. Diminui-se a oferta de alimento e aumenta-se a demanda por ele.

Caso contrário, a tribo se extingue.

A oferta e demanda não foi "inventada" e nem foi imposta de cima pra baixo, meu caro, é um processo, oh céus!, natural da ação humana.

sol-moras-segabinaze said...

Se essa lei fica mais clara nas sociedades mais civilizadas, é justamente por causa da complexidade dessas sociedades, que tiveram que encontrar um meio de troca comum, a moeda.

O escambo, aliás, é o início das transações comerciais e, pelo que sei, até os índios mais aculturados a praticam.

Antonio said...

Então estávamos a falar de coisas diferentes, Sol.

Eu estava concebendo o conceito puramente no sentido econômico -- se há pouco ouro e muita gente querendo comprar, ele se torna caro.

Vc estava se referindo a um mecanismo de ajuste ou compensação que não é apenas econômico -- se faltam animais numa região onde vive uma tribo, novos caçadores podem ser solicitados, novos instrumentos de caça podem ser craidos, ou a tribo pode acabar migrando etc.

Entendo o que vc quer dizer agora.

Ainda assim, não vejo como isso possa provar a objetividade absoluta desta suposta "lei" econômica que iguala liberalismo a prosperidade.

sol-moras-segabinaze said...

Mas a economia se aplica aos índios também, Antônio. Veja o seu exemplo:

"Eu estava concebendo o conceito puramente no sentido econômico -- se há pouco ouro e muita gente querendo comprar, ele se torna caro."

Eu podia então colocar: se há pouca caça e muitos índios querendo comer, ela (a caça) se torna cara.

Cara, ou seja, valorizada.

Antonio said...

Não -- aí eu discordo.

Uma coisa pode ser "valorizada" sem ser "cara". Preceitos morais são um ótimo exemplo. Valorizamos ("atribuímos valor") à idéia de fidelidade conjugam, mas isso não a torna cara.

Quando se fala que algo é "caro", estamos nos referindo que o seu valor de mercado é elevado. Este é um conceito inexistente entre índios.

Se há pouca caça e muitos índios querendo comer, a caça se torna mais urgente, problemática -- e não "cara".

sol-moras-segabinaze said...

A coisa não precisa ser medida em unidades monetárias pra confirmar a oferta e demanda, Antônio.

O meu exemplo demonstra isso muito bem, mas entendo você não querer dar o braço a torcer.

É humano, assim como a oferta e demanda. haha