Friday, June 26, 2009

A lógica da vida 2

"Por isso, tanto no caso das decisões de natureza econômica quanto no caso de decisões de natureza afetiva, política ou de qualquer outra natureza, para que o número de acertos e o aumento de satisfação sejam cada vez maiores, é indispensável, convém repetir, que prevaleça a liberdade individual e que os indivíduos sofram ou usufruam as conseqüências de suas escolhas. O Estado, que detém o monopólio da coerção, tem como função precípua garantir esse direito à liberdade individual não só nos seus aspectos políticos, mas também nos seus aspectos econômicos. Se assim o for, prevalecerá na sociedade uma economia de mercado. A economia de mercado é um fenômeno natural, como o leito de um rio no seu caminho para o mar. O Estado não tem como implementá-la; pode apenas obstruí-la. Os indivíduos, desde que lhes seja garantida a liberdade, empregarão o melhor do seu esforço e do seu talento para trocar 9 por 10, numa troca voluntária em que sempre ambas as partes ganham, e a comunidade progride. E assim farão existir uma economia de mercado sem que tenha sido esse o seu desígnio explícito. Foi para descrever esse fenômeno que Adam Smith cunhou a tão famosa expressão “mão invisível”, no célebre e notável trecho de seu livro A Riqueza das Nações: “o indivíduo, ao visar apenas alcançar um aumento de sua satisfação, é como que conduzido por uma mão invisível a promover um objetivo que não fazia parte de sua intenção”. A humanidade em geral e as elites intelectuais e políticas em particular ainda não se deram conta da importância de conhecer e respeitar as regularidades da ação humana. Parecem crer, como bem assinalou Ayn Rand, “que a ciência só é aplicável quando lidamos com objetos inanimados; quando se trata de seres humanos o conhecimento deixa de ser necessário, os princípios passam a ser irrelevantes, a causalidade não produz efeitos, as conseqüências não podem ser previstas, e para que possa existir uma sociedade livre e próspera bastam líderes com boas intenções e bastante poder”." Donald Stewart Jr..

1 comment:

Antonio said...

Mais um trecho de Stewart Jr:

1. "Os indivíduos, desde que lhes seja garantida a liberdade, empregarão o melhor do seu esforço e do seu talento para trocar 9 por 10, numa troca voluntária em que sempre ambas as partes ganham, e a comunidade progride. E assim farão existir uma economia de mercado sem que tenha sido esse o seu desígnio explícito."

Se entendi corretamente, Stewart Jr está descrevendo aquilo que os economistas clássicos chamaram de "homo economicus" -- o homem que tem a propensão natural a agir sempre no sentido de maximizar seus interesses, e reduzir seu grau de sofrimento ou incerteza.

O homo economicus, que se toma por base do liberalismo (ou um de seus pressupostos), é na verdade um de seus produtos ou efeitos.

Cito Karl Polanyi: "Na realidade, as sugestões de Adam Smith sobre a psicologia economica do homem primitivo eram tão falsas como as de Rousseau sobre a picologia política do selvagem".

No mesmo livro ("A Grande transformação" -- recomendo a leitura), Polanyi analisa diversas pesquisas históricas e antropológicas e conclui que, em regra, a economia do homem primitivo sempre esteve submersa em suas relações sociais. Isto é, nas sociedades simples, o homem age para salvaguardar sua posição social, e o sistema econômico é dirigido por motivações não-econômicas, não-utilitárias.

Na nossa civilização, nascida na esteira da Revolução Industrial, a relação se inverte: ao invés da economia ser parte integrante das relações sociais, são as relações sociais que passam a ficar subsumidas na economia.

Todas as sociedades, assinala Polanyi, são em alguma medida condicionadas ou limitadas por fatores econômicos. Mas somente a civilização moderna que emerge no Ocidente passou a justificar toda a sua orientação através da busca pelo lucro, pela maximização de interesses individuais.

O homo economicus é hoje uma realidade. Mas ele não tem nada de "natural", como dizia Adam Smith.

Ainda sobre o assunto, recomendo a leitura de "As paixões e os interesses - argumentos políticos a favor do capitalismo antes do seu triunfo", de Albert Hirschman. Hirschman mostra que a ascensão do ethos burguês e do capitalismo foi também um resultado da tentativa de evitar a ruína da sociedade, e ilustra o seu argumento examinando a relação entre a necessidade de refrear as paixões destrutivas do homem e a idéia de interesse. Aos poucos, afirma Hirschman, o vocábulo “interesse” foi ganhando uma conotação positiva, associada à racionalidade e ao modo esclarecido de conduzir negócios, o que teria contribuído para que uma conduta socialmente reprovada na Idade Média – a ambição, o desejo de ganhar dinheiro – se transformasse numa virtude a ser ativamente cultivada.

E sempre vale a pena o clássico "A ética protestante e o espírito do capitalismo", de Weber.

abs,