Friday, June 26, 2009

A lógica da vida 3

"O sucesso do método experimental das ciências naturais pode ter induzido a que esse mesmo método fosse usado nas ciências humanas. Mas ocorre que as ciências humanas, ou praxeológicas, são axiomático-dedutíveis. Ou seja: a partir de um axioma que não possa ser refutado são dedutíveis as conseqüências das regularidades do comportamento humano. Não adianta fazer experiências; não bastam boas intenções: é preciso refutar o axioma original. E o axioma central da ação humana: toda ação humana visa obter um aumento de satisfação – o que aqui enunciamos como sendo ninguém troca 10 por 9 – está aí para ser refutado por quem for capaz de fazê-lo. Mas, se isso não for possível há que respeitá-lo e compreender que não respeitá-lo produz, inexoravelmente, conseqüências indesejadas. E isso é assim porque a lógica do comportamento humano é a mesma de todo ser vivo, seja ele uma simples célula, uma bactéria ou um ser humano. Todos têm o mesmo propósito: o de prover a sua sobrevivência e a sua descendência. Por isso, um ser vivo não efetua qualquer troca que lhe seja química ou fisicamente possível, mas somente aquelas que lhe propiciem um aumento de coerência e de eficiência para a realização de seu propósito. Por isso o ser vivo não troca 10 por 9. Se assim procedesse estaria contrariando a lógica da vida, e terminaria por deixar de existir. Podemos imaginar um Universo regido por leis físicas completamente diferentes: um Universo em que a gravidade afaste os corpos ou que a luz seja instantânea. Não há nenhuma impossibilidade lógica nisso. Podemos imaginá-lo de qualquer forma, porque o Universo não tem um propósito. Mas não podemos imaginar um ser vivo que troque 10 por 9; porque o ser vivo tem um propósito: preservar a sua própria vida. Do ser humano à forma mais elementar de vida, “o sonho de cada célula é tornar-se duas”, como assinalou o cientista François Jacob, ganhador do prêmio Nobel de Medicina. Trocar 10 por 9 seria negar a própria vida. Seria pretender que a vida pudesse obedecer à lógica da morte." Donald Stewart Jr..

5 comments:

Löis Lancaster said...

O fato é que essa não é a lógica da vida, e sim a lógica dos organismos. A vida se processa no tempo, e no acaso que ele acarreta. O organismo quer eternidade para si, o tempo quer mudança. Mudança que faça o organismo não mais se reconhecer como o mesmo, é encarada por ele como morte. Portanto, a vida obedece, sim, a lógica da morte. E vice-versa.

sol-moras-segabinaze said...

Não há nenhum comportamento capaz de evitar a morte. A lógica da vida é fazer o melhor com o que existe, com o que é possível.

moscaazul said...

Olha, devo discordar do post. Não se pode falar de comportamento humano sem desvios, sem exceções, sem loucura, sem acidentes, sem pontos fora da curva. No mais, não, não é possível analisar a ação humana ignorando as circunstâncias, "deduzindo do axioma todas as regularidades do comportamento humano". Sei que isso tudo foi tirado do Mises, daquela que é considerada sua maior obra, "A Açao Humana". Eu discordo. Mas não dá para refutar tudo na caixa de comentários, claro. De qualquer modo, deixo o registro.

Antonio said...

Stewart Jr: "E o axioma central da ação humana: toda ação humana visa obter um aumento de satisfação – o que aqui enunciamos como sendo ninguém troca 10 por 9 – está aí para ser refutado por quem for capaz de fazê-lo."

Bem, não é preciso muito para refutar esse argumento, como vc já deve ter percebido pelos comentários anteriores e pelo meu comentário no primeiro post dessa série.

As pessoas trocam 10 por 9 sim, Sol, e fazem isso porque, infelizmente (e felizmente, mas isso é outro papo), ninguém é 100% racional. Freud estava equivocado em um bando de coisas, mas acertou em cheio quando sugeriu que boa parte de nossas escolhas são governadas pelo nosso inconsciente.

Mulheres que sofrem na mão de homens cafajestes e piranhões -- e no entanto elas só se apaixonam por sujeitos do tipo, um após o outro.

Homens que arriscam dinheiro no jogo: sabem que provavelmente vão perder, perdem, mas continuam lá, na fissura, na esperança de que "dessa vez vai dar" -- mas não dá, eles juram pra si mesmom que nunca mais vão jogar, mas voltam na semana seguinte...

Se o ser humano fosse tão racional assim a ponto de trocar sempre o 9 por 10, bastaria qualquer livrinho de auto-ajuda para acabar com o sofrimento, a compulsão, o desvio, a infelicidade das pessoas.

Aliás, não haveria sequer a necessidade de livros de auto-ajuda.

Eu adoraria viver neste mundo.

Ricardo Pitanga said...

A intenção realmente pode ser ir do 9 para o 10, mas nem tudo é preto no branco. De fato, concordo com os post acima, da minha maneira, não deve ser descartado a possiblidade de se confundir 10 com 9 e vice-versa.

mas esse tema daria um blog só pra ele, muito bom, talvez eu escreva algo sobre isso ou publique um livro / manifesto etc

hehehehe