Friday, October 23, 2009

O Serra na Piauí

O Serra deu uma longa entrevista à revista do João Moreira Salles. Tenho às vezes discussões com alguns colegas liberais (sim, eles existem) sobre o que é melhor: anular o voto, não votar, votar em branco, votar no Serra ou na Dilma, no esquema do "quanto pior, melhor". Fico tentado a evitar esse cenário votando no que eu consideraria um mal menor, a aliança PSDB-DEM. Essa entrevista me deixou ainda mais em dúvida, porque a crítica que o Serra faz aos presidentes anteriores se concentra justamente nos fundamentos da economia, a única coisa relativamente sensata desses governos. Daria pra especular que o Serra é alguém que acha que metas de inflação, austeridade fiscal e câmbio flutuante atrapalham "o desenvolvimento e a geração de empregos". Essa falsa dicotomia é reforçada pelo depoimento de um amigo próximo, um professor da UNICAMP chamado João Manuel Cardoso de Mello, um dos formuladores do Plano Cruzado - aquela maluquice - que diz que a obsessão do Serra é "acabar com a pobreza". Nobre objetivo, só falta discutir os meios. Eu imagino quais sejam, mas deixa quieto. Serra se diz "à esquerda" do Lula e o tal de João Manuel fala que ele e a Dilma "têm a mesma visão de mundo", um péssimo sinal. As melhores declarações acabam sendo mesmo dos outros, porque o Serra não abre a guarda e só se manifesta guiado por pesquisas de opinião sobre o que as pessoas querem ou não ouvir. Política, né? Eis um dilema que aflige qualquer liberal: ter um fiapo de esperança que a aliança PSDB-DEM equilibre o pêndulo ideológico ou apostar no "quanto pior, melhor" como a única maneira dos brasileiros repensarem a armadilha estatal. As pessoas podem ficar desqualificando as ideologias como relíquias do passado, mas atrás de todo discurso "pragmático" há uma visão de mundo, um modo de ver as coisas que norteia as ações ao lado das circunstâncias e conveniências políticas. Essa geração que está no poder nos últimos 20 anos foi criada com uma dieta socialista e, por isso, todos os candidatos se dizem "de esquerda". Me parece que a tentação autoritária do PSDB em relação ao PT é um pouco menor (a analogia esquerda "vegetariana" e "carnívora" se aplica), mas a entrevista confunde mais do que esclarece. (http://muitasbocasnotrombone.blogspot.com/2009/10/jose-serra-na-revista-piaui-texto.html)

5 comments:

Anonymous said...

Não confio em careca. É um critério. Não confio em mulher de peruca. É outro critério. Não confio em nordestino. Outro. Não confio em brasileiro que se mete em política. Assim como existe a máxima na indústria automobilística - foi lançado? é obsoleto - existe a máxima que divulgo - é político? é corrupto.
Convenhamos, político é, by definition, um atravessador. Eleito por milhões de reais, tem que devolver o dinheiro. Com juros.
Então tudo faz para que isto se processe presto. Quem empresta, empresta como quem faz investimento. Dou essa grana aqui, recebo essa grana mais X acolá.
Fato velhíssimo, conhecidíssimo.
Neste fato simples, a ideologia serve para falar em nome de uma causa. Só isso. Para angariar a simpatia do maior número possível de pessoas. É como cantor gringo que aparece por aqui e diz no show que é flamengo. E diz que é corintiano em SP. E diz que é colorado no RS. Ideologia é time. É jogar para as arquibancadas. E assim como tem os flamenguistas, tem o seu oposto, os tricolores. PT e PSDB.Suas diferenças são resolvidos nos 90 minutos regulamentares e nos 4 anos regulamentares. Nesse tempo vale tudo, pra um lado e pro outro.
No fim do dia todos tomam seus Romanee Contis. A gente paga. Quem manda ser bundão?

Anonymous said...

O PT vai com sede ao pote de cana. O PSDB vai com sede ao pote de uísque. O conteúdo do pote é a única diferença.

Anonymous said...

O pessoal do MST invadiu propriedade de conhecido meu. Eles tem o kit invasão: ripas, cordas,
e plástico. Em um dia fizeram 130
barracas. Tem a kombi do rango, tem a segurança da tropa, tem ordem e hierarquia. Passaram por cima da plantação de soja com o carro. Plantação de soja, como se sabe, é coisa de elite. Eles vão nas cidades onde há uma propriedade invadível, e recrutam gente. Não sobrou um bêbado, um malandro que vive de jogar sinuca,
um vagabundo desclassificado. Levaram todos. Deram camisa e bonê. Ninguém sabe a diferença entre pé de soja e pé de sorgo. Mas de pé de cana eles entendem.
Este post, sei, é muito chato. O Brasil ficou muito chato, o mundo
mais chato ainda. Eles são muitos e já nos viram.

sol-moras-segabinaze said...

Pode ser.

Renato said...

Nenhum deles está à esquerda. Ambos têm o mesmo projeto, e ambos gostam de beber da mesma forma, das mesmas fontes. Cada um com suas ligações es´púrias diferenciadas. Sem teoria econômica, é só ver um pouco a máquina na prática, de dentro. O time PSDB é mais coeso, mas o Serra é totalitário demais, truculento. Ambos fazem uma democracia capitalista light. O que me desagrada no Serra é a sua forma truculenta de desestatização, sem grande preocupação com o que sobrao. O estado é um mediador e tem funções básicas, tem que ser abolido mas não completamente rechaçado.