Thursday, October 15, 2009

Minhas memórias dos professores

Não foram muitas na educação formal, tenho que admitir. Lembro pouco do primário, mas acho que as "tias" na escola municipal Shakespeare no Jardim Botânico eram gente boa. O que mais me marcou ali foi um corte que tive no mindinho esquerdo ao tentar escalar um muro cheio de cacos de vidro. Fiquei impressionado com a quantidade de sangue que saiu dali. Jatos vermelhos. A cantina e o arroz com peixe também marcaram, além do cheiro de álcool que saía daquela copiadora paleozóica, como é mesmo o nome... Depois lembro. De voltar na garupa da moto do meu pai e passar - a partir da terceira série - a ir sozinho de ônibus com a minha irmã um ano mais nova. Das aulas em si? Quase nada. Aí fui pro Pedro II no Humaitá - do lado de casa - e logo senti o desconforto de usar aquele vulcabrás maldito, puta merda. De ter que me levantar a cada vez que os professores entravam na sala. Alguns nem ligavam, mas outros faziam questão de inspecionar cheios de orgulho aquela maluquice. Ah, os diversos hinos que a gente tinha que decorar pra louvar a pátria, a independência, a bandeira e o sesquicentenário do colégio, entre outros ufanismos musicais. Depois de uns 5 deles, vinha o grito de guerra do Pedro II: "3 vezes 9, 27, 3 vezes 7, 21, menos 12 ficam 9, menos 8 fica 1, zum zum zum paratimbum, PEDRO SEGUNDO!" Era uma festa. Aí a gente ia pras aulas aprender a diferença entre seno e cosseno. Como eu comia bala naquela época... A droga da criançada, né? E era o campeão de anotações na caderneta, que maravilha. Querendo me colocar na linha, me colocaram num curso preparatório pras escolas militares no Centro da cidade, o Tamandaré. Foi bom pra eu me familiarizar com aquela área, distante pra alguém criado a leite de soja integral com pêra. Marcou também a porradaria selvagem que aconteceu entre dois moleques logo no primeiro dia. Não gosto de presenciar essas coisas, dão bem a medida do fracasso da razão. Era interessante estudar ali porque tomei contato com pessoas que moravam longe da Zona Sul e acabei conhecendo uma quantidade razoável de vascaínos, coisa que praticamente não existia no Humaitá. O professor que me lembro era um negro magro e alto que ensinava História. Devia ser comunista (como a maioria), mas eu não tinha como julgar na época. Só sei que ele foi um dos únicos que parecia ensinar aquilo com verdadeira paixão, não tava ali apenas cumprindo tabela e isso me impressionou. Não entrei em nenhuma escola militar (nem tentei) e voltei ao Pedro II - turno da noite - nessa altura mais desligado que nunca. Ficava ouvindo música e jogando totó. Jogando muito bem, aliás. Resultado: jubilado ao faltar a prova de recuperação de Geografia. Lembro mais de umas meninas que dos professores. Ambos, aliás, não me davam muita bola. Passei então por um daqueles colégios "pagou, passou": o Pinheiro Guimarães de Ipanema, logo ao lado do Bob's. Muitos milk shakes de ovomaltine depois, fui pra FACHA "estudar" Jornalismo. Na verdade, passava mais tempo na Biblioteca escarafunchando por conta própria os assuntos que me interessavam. Os professores se dividiam em incompreensíveis desconstrucionistas e petistas comunistas e - já naquela altura - a minha paciência com essas coisas era limitada. Quando tentava questionar o que os doutores tentavam enfiar na minha goela abaixo, tomava rosca nas ventas. E às vezes de maneira agressiva: "Quem você pensa que é, moleque?!" Alguns deles, os mais populares, estão até hoje por aí abastecendo os vermelhos.org com lixo marxista. Como eu já estava até o pescoço envolvido no mundinho rock, não me foi nenhum sacrifício abandonar os estudos formais. Tenho agora os melhores professores ao alcance de um click do mouse e a tendência com a disseminação da internet é essa, a descentralização da educação longe das mãos do governo e do MEC.

11 comments:

Anonymous said...

http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://1.bp.blogspot.com/_DRpY1yGfPww/SodSOUDml2I/AAAAAAAAEGM/yY4UbTVNfb0/s320/MIMIOGRAFO.jpg&imgrefurl=http://www.andreiasantana.com/2009/08/voce-esta-ficando-velhoa.html&usg=__NQWruoi0F_SalKUNExl6DkNSeng=&h=160&w=250&sz=6&hl=pt-BR&start=56&um=1&tbnid=L9VbJJNxq69NLM:&tbnh=71&tbnw=111&prev=/images%3Fq%3Dpapel%2Bestenceis%26ndsp%3D20%26hl%3Dpt-BR%26client%3Dfirefox-a%26rls%3Dorg.mozilla:pt-BR:official%26hs%3DtSG%26sa%3DN%26start%3D40%26um%3D1


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Se tiver coragem clica, Sol.
Ah, eu também lembro do cheiro de Álcool... azul?

Sophia said...

Adoro ler seus posts, mas confesso que uma grande parcela deles eu não entendo. Seja algumas palavras (vulcabras?? uqe que isso, senhor??? k k k, mais uma estatal?), seja a ideia central deles (tudo!!!).
Mas, tudo bem.
É sempre bom repensar o que leio, ouço, penso. Mas, as vezes, essE liberalismo que tanto fala me amedronta. Parece que voltaremos a "lei do mais forte". Acho que o Estado é um mal necessário. Agora, cabe a nós impor limites a ele, e ele tb a nós. Coerção sim, mas limitada.
Os "cidadãos" se mobilizam para gritar Brasil, mas não para discutir um projeto de lei.
Sophia

GAbiRu said...

lembrei até do cheiro das provas. eram mimeografadas, nao?

sol-moras-segabinaze said...

Mimeógrafo, isso mesmo.

Sophia, o estado é um mal necessário, não discordamos tanto assim.

E vulcabrás é um sapato preto que a gente era obrigado a usar. Hoje em dia a galera já pode ir de tênis.

rodrigo.feijao said...

eu usava mimeógrafo para editar meu zine no colégio. uma ´hustler´ com desenho de mulheres ao invés de fotos + textinho sacanas hehehe

: P

nada como uma educação construtivista : )

Anonymous said...

"3 vezes 9, 27, 3 vezes 7, 21, menos 12 ficam 9, menos 8 fica 1, zum zum zum paratimbum, PEDRO SEGUNDO!" Estupefei-me e boquiabri-me e até agora estou perplequicho com o grito de guerra. Gritos de guerra não fazem o menor sentido. Teria sido Manoel Bandeira quem criou esta coisa? Deu aula por lá.
O Brasil não é lá muito bom em qualquercoisaoficialenvolvendocanto
As que prestam não eram inicialmente letras ou música encomendadas, mas perdi o pé do post, afoguei-me em tergiversações
e não disse a aque vim. Logo, vou.

Anonymous said...

Estudei da facha, não peguei meu diploma, mudemos de assunto. Aprendi em anos de estudos uma frase de Dobhansky que estou muito cansado pra repetir. Joguei futebol de salão como goleiro e não
tenho filhos. Causa e efeito. Era muito chato lá. Comi no botequim da esquisa um chokito or something
que estava cheio de vermes brancos.
Aqueles vermes são as memórias mais vivas de toda a minha vida escolar.

sol-moras-segabinaze said...

hehehehe

sol-moras-segabinaze said...

http://www.youtube.com/watch?v=FYI_ghmjxIQ

Hino do Pedro II e depois a famigerada tabuada.

João said...

Também tenho umas lembranças nefastas de professores. Mas então tu estudou na Facha? Teve aula com aquele imbecil gilson caroni?

sol-moras-segabinaze said...

Tive, duas vezes. Ele literalmente babava nas aulas. Mas tinha um séquito de admiradores, porque - apesar da baba - tinha uma retórica que envolvia a galera.

Falava da vida pessoal e o pessoal dava muitas risadas enquanto ele oferecia aquela ração marxista.