Tuesday, February 02, 2010

O sucesso, o amor e os outros

Se você quer ganhar dinheiro, você precisa agradar os outros. A Cláudia Leitte não é admirada à força, as pessoas querem mesmo ouvir uma música agitada com coreografia cantada por uma loirinha gostosa, por que não? "Gostosa, pffui..." Tudo bem, ela não é o seu modelo estético, você aprecia mais uma beleza indie, tipo uma Zooey Deschanel, por exemplo. Há espaço pras duas, mas a Cláudia Leitte vai ganhar mais dinheiro, porque é a favorita do povão e a Zooey é, digamos, cult. Reside aí, aliás, uma das implicâncias da intelligentsia com o capitalismo: a massificação que leva bens de consumo às camadas mais pobres da população. Dizem que eu sou elitista, há um fundo de verdade nisso, mas o que pode ser mais elitista que uma comissão escolhendo - em nome do povo - qual filme o povo deve assistir? Que tal o próprio povo escolher em nome do povo? E daí se o povo prefere ver o filme da Xuxa ao milionésimo filme nacional denunciando a pobreza? Denunciar a pobreza é mole, quero ver proporem soluções pra solucionar a pobreza. Há realmente um ruído entre aquele artista que diz fazer as coisas apenas pra si mesmo e o desejo dos outros. As minhas experimentações musicais podem me dar grande prazer, mas poucas pessoas estão dispostas a gastar tempo e dinheiro com aquilo. Se não há gente o suficiente consumindo, a coisa fica inviável comercialmente. Sei disso, não me excluo do que digo aqui. Deve ser um dos motivos que fazem algumas pessoas falarem tanto em "educação", querem educar os outros a gostarem daquilo que elas acham correto e de bom gosto. Não ficam falando o tempo todo nos pobres? Dêem então poder de escolha aos pobres, deixem os pobres curtirem o funk, a Xuxa e a Cláudia Leitte em paz. Óbvio, sucesso não é só dinheiro, mas - mesmo o deixando de lado - agradar o outro também é importante pra se alcançar uma vida minimamente satisfatória. Quer dizer, se você quiser viver como uma eremita na floresta, talvez agradar os outros não seja uma condição tão importante assim, mas se você quer que mesmo a sua família goste de você, alguma coisa você tem que dar em troca. Amar é valorizar e até uma mãe zelosa pode deixar de valorizar um filho depois da centésima pisada de bola seguida dele. E vice-versa. Amor destituído de valor não é amor, é neurose. O valor é subjetivo, eu sei, mas se você quer que os outros te respeitem, você também precisa saber respeitar. É uma mão dupla, o dar e receber materializado nas trocas voluntárias que não se resumem ao dinheiro. Se as trocas entre um casal estão desiguais, se uma pessoa sente que está dando muito mais do que está recebendo, vai haver cobrança e stress. Um chantagista emocional vai dizer que isso é "egoísmo" da parte de quem cobra, que o "amor" basta por si só. Mas o amor acaba, porque se a pessoa já valorizou alguém, ela - por uma questão de sobrevivência - valoriza ainda mais a si própria. Já me afastei do ponto inicial do texto, mas tudo bem. Os românticos dizem que o "amor" resolve todos os problemas, por isso são românticos. Amar independentemente do valor e das virtudes do outro é passar um cheque em branco, é colocar no mesmo saco o justo e o injusto, o racional e o irracional, o pacífico e o violento, o honesto e o mentiroso. Quem ganha com essa banalização do amor?

7 comments:

Anonymous said...

Saber o que o povão quer ouvir é a chave do Lula. Quanto mais a classe média sacaneia a “ignorância” presidencial, mais o povão
vê nessa linguagem alguém igual a ele. Cláudia Leite, Lula,
dupla caipira, Ford Ecosport, tudo é o marketing dirigindo a vida
de quem acha mais simples receber as coisas prontas. Alguém acabou
de dizer que houve um arrastão na Barra da Tijuca, bairro nobre do
Rio de Janeiro. Alguém comentou que os caras estavam trabalhando
neste calor. Havia um pouco de admiração na ironia tão carioca.

sol-moras-segabinaze said...

Aí é o seguinte: o povão é sábio quando vota no Lula, mas não sabe o que quer quando vai num show de axé.

Anonymous said...

Seu texto seguiu à matroca, isto é,
de bubuia, isto é, à deriva. Acabou em amor. Tudo acaba nisso.
Algumas coisas começam também. Perdurar é que é duro. Sem duplo sentido, naturalmente. Que é um
maneirismo de linguagem. Que já foi melhor neste nosso país, mas a língua é do povão e cada um fala do jeito que quer. Por isso a gente somos uma bagunça. Quem entende o que FHC quer dizer? O povão? A culpa é de quem? Do povão?
O povão entende lula. Chinelo velho, pé cansado. Nós somos uma deplorável excrecência neste país, Sol. O país é deles, e nos toleram.
Cada vez menos.

Anonymous said...

Sabe exatamente o que quer: axé. Rebolar sem intelectualismo.

Anonymous said...

Tese minha: a TV matou o PSDB. A TV acabou com a aura que havia de respeitabilidade nas imagens dos políticos. Tornou corriqueira.
O povão percebeu que aqueles caras não eram deuses, e mais: que seja
lá quem forem aqueles caras, eles são diferentes deles, povão.
Nesse momento do caminho surgiu o Lulinha Paz e Amor. Atacando
aqueles sujeitos que não eram mais deuses – e portanto não era um
sacrilégio - e falando igual ao povo, sem marxismos ideologizantes que ninguém entendia, nem o Lula. O resto é história.

João said...

Prefiro a Emanuelle Beart

http://images.google.com.br/images?hl=pt-BR&source=hp&q=Emmanuelle+Beart&gbv=2&aq=f&oq=

sol-moras-segabinaze said...

Boa.