Wednesday, January 27, 2010

A nova receita do Domingos de Oliveira

Fiquei tentado a colocar essa "nova receita" entre aspas, mas estou firme na minha disposição de combater o uso indiscriminado de aspas. Por que as aspas? Porque essa "nova receita", publicada hoje no Segundo Caderno do "O Globo", não é muito diferente da receita atual. Primeiro ele diz que "nos países ricos, particularmente Estados Unidos, Índia e Japão, o cinema é uma indústria". Mas a Índia, como o Brasil, está longe de ser um "país rico" e consegue ter uma indústria de cinema. Não sei se rolam subsídios pra Bollywood (a economia indiana ainda é bem estatizada), mas o fato é que os filmes de lá levam os indianos aos cinemas. Depois o Domingos fala que raros filmes brasileiros dão lucro, com as "exceções que em geral não contribuem muito para a cultura do país e seu renome". Ou seja, o cinema que o povão quer ver não serve pro Domingos de Oliveira ou pro "renome do país", mas ele não quer discutir o motivo dos filmes brasileiros não conseguirem competir com os estrangeiros, porque isso "é assunto para homens de negócios, e não para artistas". Claro, a arte está acima dessas discussões comezinhas, não é verdade? "Não é necessário fazer filmes no Brasil. É necessário fazer bons filmes no Brasil." "Bons filmes" pra quem? Quem decide o que é um "bom filme"? "Refiro-me ao filme de arte". Ah bom, agora mesmo que a falta de definições do artigo do Domingos atingiu o estado de arte, olha ela aí de novo. "Ser brasileiro é ser artista". Ô... Depois de dizer que "o povo pobre não sabe o que quer", ele diz que é necessária a criação "urgente" do Ministério da Arte pro povo passar a saber o que quer. Se eu disser que esse é o modus operandi mental de todo autoritário, o Domingos e os seus fãs vão ficar chateados, dizendo que ele, na verdade, é um "libertário". Tá bom então. Com a criação de mais um ministério (deve ser o quadragésimo), a "nova receita" do Domingos de Oliveira é reunir "uma comissão competente" que vai decidir o que vai ser produzido. Qual é a diferença disso pro modelo atual? Ele se antecipa ao que eu disse aqui e vê "o sorriso zombeteiro do burocrata que só pensa nele e nas leis. Mas como vamos saber o que é um filme de arte? A coisa é muito subjetiva, etc. Que comissão julgaria os filmes de arte? " O Domingos faz as perguntas (retóricas) certas, mas se recusa a respondê-las, limitando-se a falar que "qualquer criança, qualquer homem de bem, qualquer pessoa séria, sabe imediatamente distinguir o que é arte e o que não é". Uh lá lá, jogue séculos de discussões morais e estéticas no lixo porque agora está tudo esclarecido. Se "qualquer criança" sabe distinguir o que seria um "filme de arte", que tal dar a uma o comando da tal comissão? Tenho certeza de que ela faria um trabalho melhor do que fazem os burocratas atuais. Ele reconhece que as atuais comissões decidem "buscando a vantagem política e financeira", mas a comissão do Ministério da Arte do Domingos de Oliveira certamente não padeceria desse mal. Por que não? Não se explica, a gente vai ter que confiar na palavra dele. "Não quero perder tempo na explicitação de como seria regulamentada uma política desse tipo, porém quero afirmar que isso é facílimo". Ah sim, um artista não pode perder tempo com esses detalhes, o wishful thinking de um artista parece bastar. "Apesar da imensa simpatia que nutro pela figura vital e máscula do nosso atual ministro, ele luta em uma linha que a prática demonstrou ser fracassada, já que nenhum filme brasileiro realmente se paga". Não sei se a menção ao "nosso ministro" foi irônica, mas o que faz o Domingos pensar que o seu modelo faria o cinema brasileiro se pagar? Quer dizer, as pessoas que fazem o cinema (os atores, produtores, diretores e técnicos) são pagos sim - a fundo perdido - quem não é pago é quem pagou, entendeu? Quem? O povo pobre que não sabe o que quer. Ele encerra dizendo que é "preciso colocar a imaginação no poder, pedir o impossível - já que somos homens razoáveis". Sei que foi um gracejo, mas artistas como o Domingos de Oliveira não parecem ter muito apreço pela lógica, algo que eles devem imaginar ser coisa de "homens de negócios". Mesmo pairando acima dessas considerações terrenas, o homem tem um plano pra salvar o cinema nacional. "Sei que essa colocação escorrerá pela parede da burocracia". Não posso deixar de notar que o tal Ministério da Arte e a sua comissão também seriam burocracias. "Não me importa. Estou certo." Yeah, right.

32 comments:

Anonymous said...

Artista é muito chato. E ainda que D.O. (engraçado, as mesmas iniciais de Diario Oficial, por coincidência o orgão que publica aprovações de pedido de financiamento inclusive da indústria cinematográfica nacional, essa mesma que não existe)fosse artista - ele é um sujeito que faz filme - ele continuaria sendo chato. Dizer coisa com coisa é algo que não se pode exigir de todo mundo não. Fred

Anonymous said...

Hummm, frases de efeito - "sei que essa colocação escorrerá pela parede da burocracia" - e quer saber? Ele filma assim também. Abs, Abigail.

Anonymous said...

É um papo meio gil caricaturado pelo pessoal do pânico. Nada tem sentido. Mas o que tem, num país como esse? Elisiário

Anonymous said...

Não sei se artista é chato, mas o D.O. (bom o apelido) é. Os caras vão se virando, não é, vende um projetinho aqui, seduz uma platéia ali, ganha um financiamentozinho acolá, e assim o tempo vai passando. Tenho nada contra isso não, mas não precisava ficar escrevendo coisa boba. Demétrio.

Anonymous said...

Permita-me discordar. É preciso mesmo colocar a imaginação no poder. Assim a imaginação imagina um monte de coisas inimagináveis, inclusive mais dindim pra rapaziada velha do cinema novo. É dura a vida de cineasta neste país
de homens razoáveis. Elenice.

Anonymous said...

Peraí, Elisiário, pegaste pesando comparando DO com gil. Só não sei com quem você pegou pesado! Giba

Anonymous said...

Caro Giba, pelo menos o Gil sabe cantar.

Anonymous said...

"Não quero perder tempo na explicitação de como seria regulamentada uma política desse tipo, porém quero afirmar que isso é facílimo". Sol, no meu torrão natal, fosse eu autor de frase semelhante, seria tachado de que?
É uma frase com vários níveis, cada um pior do que o outro, mas não quero perder tempo com essa descrição. Aliás, vi todos os filmes de DO, achos uns não tão ruins quanto os outros, mas não quero perder tempo com essa categorização. Alguém aqui neste ilustre post já disse que cineastas filmam como falam?

Anonymous said...

Poderíamos instituir o Gil de Ouro.
DO, até agora, levaria fácil.

Anonymous said...

sempre achei que domingos fosse um artista de segundas, mas talvez seja injustiça de minha parte.

sol-moras-segabinaze said...

Gil de Ouro.

Boa, vou encampar a ideia.

Anonymous said...

Anônimo, no Gil de Ouro, DO é hors concours, por favor! Elenice.

Anonymous said...

Eles são muito dados a gracejos.
Eles são tão inteligentes. Eles são tão articulados. Por que eles
escrevem tão mal, deus do céu? Elisiario.

Anonymous said...

"Apesar da imensa simpatia que nutro pela figura vital e máscula do nosso atual ministro..." Ironia? Mordacidade? Safadezinha?
Recado? Acusação? Queimação? Podres? Jogar no ventilador? Deixar no ar? Que diabos é isso?
Olha, Sol, sou uma senhora vivida,
mas frase tal e qual nunca vi em minha provecta idade! Epater! Elenice.

Anonymous said...

Solíssimo, acabo de ler no site de O Globo que cientistas descobriram a cor dos dinossauros. Que coincidência, não é? elenice.

Anonymous said...

DO é autor de que filme mesmo?

Anonymous said...

Ele não é péssimo diretor de cinema, como insinuaram alguns anônimos, mas está sempre numa bocada e deitando falação. Isso incomoda um pouco.

Anonymous said...

Trocadilhozinho ruinzinho, domingos X segundas.

Anonymous said...

Por que ele ainda não foi embora?
Porque teme partir e se transformar na alma da festa.

Anonymous said...

Reza a lenda que um dia Groucho Marx estava num hotel, ligou para o
serviço de quarto e pediu um quarto maior. A gente poderia fazer o mesmo em relação a cineastas.

Anonymous said...

Pergunto-me que mal fez Domingos de Oliveira a tanta gente, além de um texto babaca e filmes ruins. Todo mundo tem o direito de escrever mal e de não ser um espetacular diretor de cinema. Vamos deixar o cara em paz, que ele já um monte de coisa pelo cinema brasileiro, e não quero perder tempo na explicitação dessa afirmativa. Sei que essa colocação escorrerá pela parede do blog - sim, Abigail, é uma frase de efeito - mas pelo amor dos meus filhinhos, o cara é um senhor de idade, tem milhares de horas de vôo nas telinhas, vamos deixar o cara em paz, fazendo aqueles filminhos que a gente não vai ver,
e escrevendo os textinhos idiotas.

Anonymous said...

Não sei porque a sanha insana contra este senhor que nada mais fez do que explicitar um ponto de vista. Infeliz, mas ponto de vista.

Anonymous said...

Quando eles ficavam só filmando, eu tinha cá minhas dúvidas a respeito da competência deles. Mas quando eles começam a escrever tenho é certeza. Abigail.

Anonymous said...

Alguém sabe o nome de algum filme de DO? Não é ironia não, deu um branco e não consigo explicitar.

Anonymous said...

O texto é para polemizar. Como eles não conseguem polemizar com os filmes, polemizam com os textos.
Elenice.

Anonymous said...

Como disse o Fred lá no começo do post: artista é muito chato.

Anonymous said...

Não entendi a ironia - era ironia?-
sobre o Groucho Marx em relação a DO.

Anonymous said...

Vocês estão achando ruim o texto de DO porque nunca viram um texto do Neville, mamma mia!

Anonymous said...

Ei, Sol, você trocou a foto desse post pela foto do post abaixo!

Anonymous said...

O texto é bom. As idéias que estão lá é que são tolinhas. Elisiario

sol-moras-segabinaze said...

hehehe

DD said...

Um pulha. Só quer uma teta.