Wednesday, March 18, 2009

Falando com Löis Lancaster 2

"Caro Sol: Em contaposição a isso que você chama de "ordem espontânea e natural", eu acredito no princípio da causa eficiente (em contraposição à causa mecânica e à causa final). Pelo princípio da causa eficiente, tudo que acontece é natural, não aconteceria se não fosse."

Isso me parece razoável.

"Como o capitalismo, o corporativismo é natural, e a resistência ao capitalismo são naturais."

O corporativismo se torna natural quando o estado se mete onde não devia. Claro que ele é um reflexo da vontade da maioria, mas a própria maioria que hoje acha que é função do estado distribuir cartas pode mudar de idéia amanhã.


"Portanto, ser "natural" não é um bom critério para definir uma ética. Mas eu compreendo porque você acredita que é. Você tem fé numa causa final, fé em que há um crivo transcendental para determinar boas e más ações."


Não diria "transcendental", mas existe um fim nessa minha missão sim, a defesa das liberdades individuais.


"Esse crivo seria a racionalidade, na figura do Senso Comum e do Bom Senso. As pessoas seriam livres quando sua responsabilidade as ensinasse a conviver racionalmente com os outros.
Repare que eu digo FÉ. Provavelmente você acha que isso não tem nada a ver com religiosidade, mas tem. Resumindo, você tem fé na consciência. Concordo quando diz que é iluminista. Quanto a mim, não posso acreditar na consciência depois de Marx, Nietzsche e Freud."

Como assim? Você não acredita na consciência individual? A fé não seria a crença sem evidência? Há muitas evidências de que eu existo, raciocino e ajo. Há muitas evidências de que outras pessoas também existam, raciocinam e ajam. Não estamos aqui conversando?

"O pensamento é empurrado, ele não é atributo de uma consciência toda-poderosa que lança mão dele quando bem entende. Essa consciência é um dos finais - e um beco sem saída - de uma longa sequência de relações, das quais ela só capta uma mínima parte. E diz que essa parte somos NÓS. E a consciência não se dá bem com a mudança nem com o acaso, que são a essência do tempo. Por isso cria a ilusão de que há coisas eternas - externas, como as leis da natureza e internas, como a alma imortal."


Eu não acredito em alma, muito menos imortal. Se o pensamento é "empurrado", então aparentemente não temos livre-arbítrio e somos meras peças de um jogo onde não apitamos nada. E as leis da natureza por acaso
são "ilusões"? Se você pular de um precipício, você não vai se espatifar no chão? Todo esse raciocínio me parece tirar do indivíduo o seu poder de ação, num determinismo meio imobilista.

"O conhecimento que a consciência preconiza é baseado nessa ilusão de permanência, e puramente utilitário. Bergson vai mostrar que essa ilusão é necessária ao homem para AGIR sobre o mundo, mas de nada vale para realmente COMPREENDÊ-LO."

Mas Löis, o que a ciência e os filósofos fazem além de tentar compreender o mundo? Claro que nunca o compreenderemos completamente, mas qual seria a alternativa? Jogar a toalha e voltar pras cavernas?

"Aqui eu o convido a ler "O Pensamento e o Movente", que explora profundamente várias provas disso que acabei de citar. Não vou me demorar nesse ponto para não me estender demais. O que se segue disso é que a consciência é baseada na utopia da fixação e do controle absoluto. Ela não consegue lidar bem com a mudança nem com o acaso. E eu entendo o capitalismo como uma decorrência da consciência na sua luta por dominar o mundo para agir sobre ele em proveito próprio. O corporativismo segue pelo mesmo caminho."

Talvez eu não esteja compreendendo bem o seu ponto - por um ruído de comunicação e não por uma impossibilidade de compreensão (hehe) -, mas me parece o contrário, o socialismo que tenta dominar a natureza humana, controlá-la e modificá-la pra criar um "novo homem". É a tal "arrogância fatal" de que falava Hayek.


"Aprofundemos o que você quer dizer com "agradar" o cliente: o comerciante, se quiser prosperar e permanecer no negócio, vai ter interesse em ILUDIR o cliente, gastando o mínimo necessário para que ele ACHE que recebeu o máximo. Isso se chama Gestão: o máximo de clientela com o mínimo de esforço."

Eu não acho que esteja sendo iludido quando peço uma caipirinha no Boteco Salvação. Eu sei que ela vai custar 5 e 50, vai ser feita com Velho Barreiro num copo grande cheio de limão e gelo. Eu compro se eu quiser. O que você chama de "gestão" me parece uma regra universal do comportamento humano: as pessoas querem passar de um estado menos satisfatório pra um mais satisfatório, segundo os seus próprios critérios. Conseguir mais com menos faz parte dessa lógica, algo que se aplica a todos nós. Fazer uma camisa antes da industrialização demandava um esforço enorme. Com a mecanização, se conseguiu fazer muito mais camisas com muito menos esforço. E a não ser que você prefira a escassez à abundância, não há outra saída.

"Prolongando essa equação, temos a situação ideal para o comerciante, qual seja: nem a ilusão se salva, porque o cliente TEM de comprar naquela loja quando não há nenhuma outra."

Aonde que o cliente "TEM" que comprar naquela loja? Por que não haveria outra loja? Monopólios só se sustentam com a interferência e cumplicidade do governo.

"Você tem todos os clientes sem esforço nenhum. Por isso o corporativismo é a consequência lógica do capitalismo. O contrário (prolongando a equação ao extremo oposto) é que seria o paraíso do cliente: a gratuidade - o esforço máximo do comerciante para o cliente receber a mercadoria DE GRAÇA. Em sua casa, ainda por cima.
"

Como é que as coisas seriam "de graça"? Não existe nada de graça, tudo tem um custo. Por que o comerciante se esforçaria se não recebesse nada em troca? Os países comunistas se esqueceram que as pessoas são individualistas, não se sacrificam pelo "bem comum" imposto pelos outros e foi o que se viu: escassez, miséria generalizada e nenhuma liberdade.

"
Nem eu trato mal prostitutas. Nem os comerciantes. (Aí entra uma questão: quem são comerciantes, as prostitutas ou os cafetões?) Apenas os trato como eles me tratam: sabendo que eles não dão a mínima pra mim, não me iludo com essa história de "o cliente tem sempre razão" e coisas do gênero. Trato eles na ponta da faca. E rio quando eles se dão mal, é mais uma fonte de alegria inocente e pura nesse mundo. Adorei ver a "Casa e Video" agonizando como uma barata no DDT. É como assistir ao show de minha banda preferida."

O comerciante não é diferente do, sei lá, jornalista que vende a sua força de trabalho no mercado. Ele oferece um serviço e é pago por isso. Caso as pessoas não valorizem o seu serviço, o camarada vai à falência ou perde o emprego. Se você abrisse uma loja, você trabalharia pra agradar ou iludir os seus clientes?

"Você não comentou meu exemplo do 9,99, mas vou comentar o s
eu da loja de instrumentos."

Não comentei porque, honestamente, não entendi o exemplo.

"Como eu disse anteriormente, a consciência não é a pessoa. É uma parte muito pequena dela. Assim, não vou te dizer que o comerciante é a pessoa, mas um modo de agir. Todo mundo encarna modos de agir - é pai numa situação, amigo na outra, filho em outra, patrão, empregado... então."

Ok.

"Partindo desse pressuposto, há uma parte do comerciante que não é regido pela consciência. Essa parte, emotiva, intuitiva, artística e criadora, não merece meu preconceito.
No calor do momento, fui muito genérico e caricato quando falei do preconceito aos comerciantes. Me corrijo dizendo que o que deve ser mal visto são as práticas comerciantes das pessoas. E há pessoas que não são perfeitas como comerciantes. O sentimento, a emoção e a intuição interferem na inteligência e no utilitarismo, fazendo com que elas não prosperem em sua profissão, criando trustes e cartéis e ficando arquimilionários. Em suma, são seres humanos comuns, regidos pelo senso comum: são tão inteligentes quanto emotivos."

Tudo bem, todos temos limitações, isso não altera o fato de que todos somos, de alguma maneira, comerciantes de nós mesmos. O comércio não é um fim em si mesmo, ele é um meio das pessoas atingirem os seus objetivos. O dinheiro também não é um fim em si mesmo, ele é um meio de adquirir coisas que valorizamos. E, repetindo, trustes e cartéis são práticas garantidas pelos governos. A OPEP é o maior exemplo.

"O seu "de forma voluntária, sem nenhuma coerção" não dá conta desses seres humanos complexos. E a coerção do inconsciente? Da gestalt? Do acaso? Toda vontade parte de forças insondáveis do meio do caos. Há todo um lado da pessoa que não é regido pela consciência, nem afetado pela ânsia de dominar em proveito próprio."

Não temos controle sobre o acaso. A única garantia na vida é que vamos morrer. Não temos onisciência ou onipotência, realmente, mas isso não nos impede de agir no limite das nossas possibilidades.

"Da pessoa enquanto ela não é comerciante - o cara que vende instrumentos geralmente entende de instrumentos, logo deve gostar de música, talvez até toque um instrumento - dessa parte eu não desgosto, e tenho até uma certa simpatia pelo cara estar conseguindo driblar a necessidade de vender algo, lidando com um ramo de que gosta. O problema é essa necessidade."

Eu também gostaria que a vida fosse isenta de necessidades, mas não é.

"Eu queria estar tocando com esse cara, ou falando de música com ele, e sabendo que ele está falando comigo porque gosta da conversa, e não porque quer me vender alguma coisa. São duas visões opostas, percebe?"

Não são não, Löis. Ele está ali na loja vendendo um baixo porque tem gente querendo comprar um baixo. São interesses convergentes. E nada impede que vocês virem amigos. Eu mesmo fiz vários amigos na época em que trabalhava na Spider vendendo CDs.

"O formato "banda" de interação é basicamente anti-comercial: as pessoas se reúnem para tocar, se um não pode pagar o ensaio os outros pagam, o importante é o prazer de estar criando algo em conjunto. Se esse prazer é cooptado pelo prazer individual de virar um popstar, aí já é outro departamento."

As pessoas se reúnem aí de maneira voluntária, nenhum problema com isso.

"Mas o lado de comprar e vender, esse lado quer que eu haja conforme o figurino. Por exemplo, quanto menos eu ficar jogando conversa fora depois de já ter comprado, melhor para o comerciante que existe nessa pessoa. Por isso eu só converso com o vendedor DEPOIS que comprei a mercadoria - aí eu sei se ele é um bom sujeito ou não, se o que está predominante nele naquele momento quer a minha vida ou a minha morte."

Se comprar a mercadoria X ou Y é uma questão de vida ou morte, por que você continua comprando? Não lhe parece um risco muito grande?

"Grande abraço e longa vida às diferenças, Löis."

Abraço forte

1 comment:

Löis Lancaster said...

Sol,

Na verdade esse papo devaria estar rolando ao vivo, porque muitas das coisas que eu coloquei deram margem a interpretações que levaram a conclusões sobre conclusões... não há outro jeito.

E ao vivo, eu poderia te interromper e retificar, e vice-versa. Só vou ser sucinto quanto às principais questões:

1 - Não, eu não acredito na consciência individual ('não acreditar' aí não no sentido de dizer que não existe, mas no de dar crédito, dar fé). Ela é um fantoche que acha que é o titereiro.

E não estou dizendo com isso que há determinismo - como pode haver determinismo se há acaso? - há partes nossas, não conscientes, que junto com o acaso modificam o curso das coisas. E a própria consciência também modifica - mas nunca da maneira que achou que modificaria, porque está imersa no tempo - no acaso.

Há muitas evidências de que outras pessoas também existam, raciocinam e ajam. Mas não há nenhuma evidência de que esse processo seja gerado, mantido e controlado primordialmente pela consciência. É aí que está a sua fé na consciência - você acha que sim.

2 - As leis da natureza são ilusões enquanto são vistas como eternas pela consciência, quando são apenas formulações históricas para fenômenos que podem ser agrupados e interpretados das mais diversas maneiras.

3 - Você não falou da coerção do inconsciente. Queria sua opinião sobre como fica o livre-arbítrio em relação ao inconsciente descoberto pela psicanálise e suas consequências - o ato falho, o sintoma etc.

Abraço do Löis!