Monday, March 16, 2009

Extra! Extra!

Ainda leio jornal. Ele chega de manhã e não resisto. É como uma oração matinal laica, um choque de realidade depois de sonhar com tartaruguinhas e outras simbologias mais óbvias de um heterossexual. Muitas coisas me espantam no noticiário do O Globo. A parte de economia é especialmente irritante, porque não se tenta entender os motivos dos fenômenos, ao invés disso, discute-se os sintomas ad nauseam com os "especialistas" abusando do economês pra coisa continuar numa névoa eterna, como se os efeitos não se originassem de causas perfeitamente identificáveis. A recessão então vira uma obra do Espírito Santo, e o governo, o principal causador da crise, é encarado como a solução do problema. A parte, digamos, geopolítica também é de amargar. Numa mesma página estão o casal K querendo amordaçar a imprensa oposicionista, o Chávez militarizando os portos e aeroportos - "estamos radicalizando a revolução" - e os seus amiguinhos bolivarianos limitando a liberdade de expressão em seus respectivos feudos. Uma imprensa preocupada com a verdade ligaria as peças desse quebra-cabeça autoritário e contextualizaria pro leitor: "Olha aqui gente, esses presidentes esquerdistas são todos aliados, seu modelo ideal é a tirania cubana, não aceitam a discordância e os seus países vão empobrecer caso insistam nesta merda. Controle de preços, expropriações e estatizações nunca funcionaram em lugar algum e as suas conseqüências nefastas estão todas previstas pela ciência econômica. Não deixamos isso claro porque a redação está cheia de ignorantes militantes que ainda acham o socialismo uma idéia lindinha e perfeitamente defensável. Obrigado e volte sempre".

11 comments:

João said...

Mais ou menos...

Na maioria dos casos -palavra de quem conhece por dentro e por coleg(uinh)as-, sinto que se trata de um processo inconsciente de "objetivismo" otal obrigatório que, no entanto, se perde quando está se falando de Bush ou de Israel - só para citar dois exemplos.

Dentro disso, muitos ainda se acham irremediavelmente imersos em um zeitgeist corporativo a serviço do "grande capital" e que, por isso, não conseguem a verdade da justiça social que desejariam.

Por verdade, entenda a reforma agrária (que ninguém sabe explicar o quê nem como seria, mas é um mantra salvador de todos os problemas do Brasil), o "combate às desigualdades" (tem editor que defende isso, mas não divide o salário com os editados hehe) e a "não-criminalização aos movimentos sociais" (leia-se, não-aplicação da lei quando se tratar de gente com grife de ONG ou "movimento").

Sempre que algum vem a mim se queixando dessas "impossibilidades", pergunto por que não mudam de profissão. Nunca me respondem de fato.

Há boas exceções, como o cara abaixo, Luiz Felipe Pondé:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1603200918.htm

sol-moras-segabinaze said...

É, existem alguns articulistas que fogem desse padrão, colocaria também aí o Sardenberg, o Paulo Guedes, Nelson Arscher e alguns outros que, a bem da verdade, nem são assim uns liberais radicais. O que eu falo é, principalmente, da parte não assinada, do tom que se dá às notícias. Acho enviesado, claro, não existe imparcialidade jornalística, mas enviesado pra uma visão de mundo que considero incorreta e que coloca em risco a própria liberdade de expressão.

Löis Lancaster said...

Sol, você é a favor do estado mínimo?

sol-moras-segabinaze said...

Sem dúvida. O estado deve se separar da economia assim como se separou da igreja séculos atrás. É o novo ilumismo. Que se concentre em proteger a vida, liberdade e propriedade e suas externalidades. Que cuide das ruas e áreas comuns de maneira mais descentralizada possível, longe da ilha de privilégios que é Brasília. Um síndico que não tenha o poder de manipular a moeda e nem de decidir quem vai ganhar subsídios e protecionismos. Um estado que deixe a economia funcionar e garanta o cumprimento dos contratos. Voluntarismo nas relações, sem cotas, vitimismos e coitadismos. Sem CLT, sem MEC e sem BNDES. O estado não deve ser empresário. Essa é a minha visão.

E aquela música do Zico, saiu? Ab

sol-moras-segabinaze said...

Qual é a sua visão, Lois?

Assumindo que vc voltou aqui pra ver a minha resposta... hehe

Löis Lancaster said...

Agora voltei!

Cara, o Gol do Zico ainda vai ficar pras prorrogações... embarquei aqui num lance de musicar falas de outras línguas que meio que me raptou a inspiração. :P

Quanto à minha visão, eu diria que sou keynesiano. Acho que a cupidez do ser humano deve ser 'peitada' em algum nível. Se a ambição é natural, a luta contra ela é tão antiga quanto. Deus, o Estado, a Corporação, a Padaria da Esquina, a Família, o Sujeito são ficções necessárias para o controle do mundo, mas nada têm a ver com o CONHECIMENTO do mundo. E o capitalismo é todo baseado na fixação e no controle absoluto.

Eis porque acho que os comerciantes deveriam ser mal vistos. Deveriam ser alvo de preconceito e lapidação; afinal, é tão óbvio que o comerciante não se importa com você, só com o seu dinheiro! A loja diz que põe as mercadirias em "promoção" e marcam no preço "9,99". Se o seu amigo pega seu carro emprestado, espicaça com ele e diz que deu uma "batidinha", você pode confiar nessa pessoa?

Você pode retrucar que não vivemos sem comerciantes. Também não vivemos sem prostitutas, e olha como elas são tratadas. Como os comerciantes deveriam ser. Já dizia JC: "tem de vir o escândalo, mais ai daquele por intermédio de quem vier o escândalo".

O capitalista quer o meu dinheiro, não quer ser afetado pela minha alma criadora e ctítica. Se não quer minha alma, quer a minha morte. E eu quero a morte de quem quer a minha morte.

E outra: acho que você está sendo ingênuo por achar que a livre iniciativa não comanda a política: sempre comandou, mesmo nas ditaduras de direita ou esquerda. Querer que esse esquema funcione às claras é não compreendê-lo em seu cerne. Corruptos e empresários liberais pertencem ao mesmo time.

Por outro lado, concordo com você sobre as questões de coitadinhos com cotas. Um regime de exceção não se anula com mais exceções. Também concordo que todo mundo deveria ser mais adulto.

É isso, companheiro. Acho que devíamos criar o "Underground Connection" aqui na web, hehehe

Abraço!

sol-moras-segabinaze said...

"...são ficções necessárias para o controle do mundo, mas nada têm a ver com o CONHECIMENTO do mundo."

É justamente o poder de controle do governo em atividades privadas e voluntárias que eu combato.

"E o capitalismo é todo baseado na fixação e no controle absoluto."

Muito pelo contrário. O capitalismo, não o corporativismo vigente, é uma ordem espontânea, natural. É o que acontece quando as pessoas são livres pra perseguir os seus próprios objetivos, arcando com as conseqüências dos seus atos. Liberdade e responsabilidade.

"Eis porque acho que os comerciantes deveriam ser mal vistos. Deveriam ser alvo de preconceito e lapidação;..."

Mas Lois, o comerciante, se quiser prosperar e permanecer no negócio, vai ter todo o interesse em agradar o seu cliente. Você volta pra uma loja onde é mal atendido? Volta a comer num restaurante que te deu uma indigestão? A competição faz os serviços melhorarem naturalmente pros consumidores.

"Você pode retrucar que não vivemos sem comerciantes. Também não vivemos sem prostitutas, e olha como elas são tratadas. Como os comerciantes deveriam ser."

Eu não trato mal prostitutas e nem acho que comerciantes e prostitutas são diferentes, na medida em que ambos oferecem um serviço demandado pelas pessoas. Você tem raiva do cara que te vende um, sei lá, baixo? Você queria um baixo, ele queria vender um baixo e os dois entraram num acordo de forma voluntária, sem nenhuma coerção. Qual o problema com esse processo?

"O capitalista quer o meu dinheiro, não quer ser afetado pela minha alma criadora e ctítica. Se não quer minha alma, quer a minha morte. E eu quero a morte de quem quer a minha morte."

Como é que o vendedor da Show Point quer a sua alma e a sua morte? Ele só quer que você compre o baixo que você mesmo quer comprar. Os interesses se encontram e as duas partes ficam satisfeitas. Se não ficassem, por que fariam a troca? O liberalismo deixa as pessoas livres pra se expressarem da maneira que quiserem, contanto que não invadam o espaço do outro. Eu e você somos livres pra exercer a nossa criatividade (não exercemos?), só não podemos impô-la à força e nem temos garantia de que vamos conseguir viver disso. Isso depende do valor que os outros dão pro nosso trabalho. Qual seria a alternativa? Um planejamento central no estilo soviético?

"E outra: acho que você está sendo ingênuo por achar que a livre iniciativa não comanda a política: sempre comandou, mesmo nas ditaduras de direita ou esquerda. Querer que esse esquema funcione às claras é não compreendê-lo em seu cerne. Corruptos e empresários liberais pertencem ao mesmo time."

Mas Lois, meu discurso é todo nesse sentido, de acabar com o conluio entre governo e empresas. Mas como é que se vai acabar com isso com as pessoas pedindo pro governo controlar tudo? Só vai aumentar essa simbiose até o sistema entrar em crise como entrou agora, porque a realidade, cedo ou tarde, se impõe. "Empresários liberais" são uma raridade. Eles querem o estado protegendo os seus negócios da concorrência. O sistema é um joint venture entre os políticos e os seus bróders do setor privado. Como eu disse, o estado tem que se separar da economia, como se separou da religião, só assim isso acaba.

"É isso, companheiro. Acho que devíamos criar o "Underground Connection" aqui na web, hehehe""

Adoraria. Anos atrás, escrevi um texto falando de um projeto pra um programa de TV: "DINÂMICA UNDERGROUND". O Lariú daria um ótimo Lucas Mendes. Vou tentar achar esse texto e botar pilha num cara que eu conheço que trabalha no Canal Brasil.

Honrado com a sua presença. Ab

João said...

Sol, depois que você respondeu fui ler a matéria mais atentamente. Está uma realmente uma merda. Eles omitem, por exemplo, que o Chávez ameaçou com prisão os governadores que deixarem de cumprir a lei, que, por sua vez, baseia a transferência dos portos e aeroportos para o controle federal – ou seja, dele – no “interesse nacional” – ou seja, qualquer coisa que ele decida que é de “interesse nacional”.

O que quis dizer e acho que não passei tão bem foi que se eles dissessem que “Não deixamos isso claro porque a redação está cheia de ignorantes militantes que ainda acham o socialismo uma idéia lindinha e perfeitamente defensável”, ainda que com a licença do exagero irônico, não estariam dizendo a verdade não, até porque pelo Chávez – novamente, palavra de quem as conhece por dentro – há pouca, aliás, pouquíssima simpatia.

Essa matéria, em particular, me pareceu coisa de gente de saco cheio em plantão de fim de semana. O que acontece geralmente é que, na maioria dos casos, os repórteres e redatores dos grandes jornais brasileiros de fato levam a objetividade a cabo – mas não tanto quando se trata de “direitistas”, o que a meu ver acontece mais por uma naturalização inconsciente dos valores esquerdistas do que por uma omissão consciente – a não ser que eu não tenha captado alguma ironia (hehe).

sol-moras-segabinaze said...

"O que acontece geralmente é que, na maioria dos casos, os repórteres e redatores dos grandes jornais brasileiros de fato levam a objetividade a cabo – mas não tanto quando se trata de “direitistas”, o que a meu ver acontece mais por uma naturalização inconsciente dos valores esquerdistas do que por uma omissão consciente – a não ser que eu não tenha captado alguma ironia (hehe)."

Sim João, concordo com você. E é justamente sobre essa "naturalização inconsciente dos valores esquerdistas" que falo tanto. Valores socialistas se transformaram no próprio senso comum sem que as pessoas percebam isso. Não acho que exista má-fé dos jornalistas, mas sim um, digamos, "espírito do tempo" que embota a interpretação dos acontecimentos. Então mesmo que o camarada, lá no fundo, não vá com a cara do Chávez, essa antipatia vai só até um certo ponto, de onde não passa sob o risco da pessoa ser confundida por seus pares com um "direitista", o supremo xingamento no politicamente correto.

João Pequeno said...

"essa antipatia vai só até um certo ponto, de onde não passa sob o risco da pessoa ser confundida por seus pares com um "direitista", o supremo xingamento no politicamente correto."

É isso, Sol. Você chegou ao ponto que eu mesmo queria. Isso é um claro sinal desses tempos, cujo melhor (ou pior) exemplo vi nesse artigo do luis fernando veríssimo, segundo o qual "A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece".

A apologia da covardia, infelizmente, pegou.

http://heliopaz.wordpress.com/2007/07/22/verissimo-defende-lula-em-zero-hora

Abs

sol-moras-segabinaze said...

Ou seja, pro Veríssimo, a crítica ao Lula só tem validade se vier de "progressistas" como ele, se vier embalada pela esquerdofrenia que não admite oposição, se vier do PSOL ou do PSTU. O próprio culto em torno do Veríssimo dá uma pista disso, imagine só, contestar essa figura maravilhosa?! No entanto, fala merda atrás de merda quando se aventura a discorrer sobre política e economia.

Bom ter comentários de um insider no mundo do jornalismo, João. Obrigado pelas contribuições. Ab