Wednesday, June 23, 2010

O homem e a natureza

Muito do ruído que rola em discussões acontece por causa da falta de uma definição clara dos conceitos usados, o cara usa uma palavra querendo dizer uma coisa e quem lê entende outra, tornando improvável a compreensão e o diálogo objetivo. Uma amiga me mandou um texto que pode servir como exemplo disso. O autor estabelece que "a vida pode ser examinada segundo 4 categorias: o jogo, os interesses, o grau de organização e o valor da vida." A coisa é arbitrária mesmo, mas ele avisa que "elas estão relacionadas". Seguem alguns parágrafos que me deixaram um tanto confuso, talvez pela arbitrariedade das definições e talvez pelo background filosófico do autor. O que deu pra entender, eu acho, é o estabelecimento de uma certa dicotomia entre o mundo da infância ("interesse pessoal motivado pelo entusiasmo") e o da vida adulta ("interesse pessoal e social motivado pela coerção"), passando por esse fenômeno moderno, a adolescência ("interesse social motivado pelo entusiasmo"). Pra resumir, a criança é inocente, o adolescente quer ser aceito e o adulto tem que trabalhar. O que vem a seguir é uma certa idealização da infância em contraposição a "não menos que monstruosa" dimensão da vida adulta. "O interesse, portanto, passa a ser meramente coercivo na idade adulta." Aqui rola um conflito de conceitos, porque a necessidade estabelecida pela própria estrutura da realidade não é coercitiva como um ladrão com uma arma apontada pra sua cabeça. A natureza "exige" algumas ações pra que você sobreviva, mas ela não é boa ou ruim, não há juízo de valor possível em relação à natureza, ela é o que é e só podemos julgar moralmente aquilo que nós, humanos, fazemos com ela. Não que o ser humano seja algo à parte da natureza ("parte da ininteligibilidade advém do paradoxo da inumanidade do jogo vis-à-vis humanidade dos jogadores"), mas ele possui uma consciência que o torna capaz de especular sobre essa condição. (http://disfuntorerectil.blogspot.com/2010/05/evidenciando-um-mecanismo-fechado.html)

6 comments:

Daniel Liberalino said...

O pedra de toque para o texto que postei, e o qual você referencia no post acima, é que não deve ser visto booleanamente, quer como um engajamento sincero numa comunidade de discussões - o que você chamou de objetividade -, quer como um hermetismo. Seria uma teoria rigorosa, uma pilhéria, ou poesia? Isso deveria estar (para alguns) insinuado no título auto-irônico, bem como na paródia do estilo axiomático; de resto, dificuldades do gênero estão presumidas. Mas gostaria de engajar por um momento com você no approach discussão-comunitária, e replicar à sua interpretação da minha suposta e ambígua teoria quaternária, adotando sua terminologia quando útil: (i) a ignorância da "natureza" na criança, que você chamou inocência, é só um proêmio motivacional para a parte mais importante da teoria - a relação entre estética e natureza. Tal fica claro posteriormente, quando é obtida como corolário a prioridade conceitual da estética sobre a motivação. Portanto, não é bem que o adulto tem que trabalhar - veja bem, o trabalho é ainda estética, inverossímil mas nem tanto coercitiva, já que apela ao afã primitivo da bricolagem -, porém algo mais extensivo, que o texto prefere obscurecer. (ii) o julgamento moral - a natureza como "não menos que monstruosa" - é metalinguístico, não parte da teoria objeto. A suposta teoria aponta a natureza como paradoxalmente a-estética, não imoral. (iii) Finalmente, a teoria no texto discorda da teoria de que é simplesmente a consciência, ou autoconsciência, que separa o homem da natureza, mencionada no seu último comentário, no sentido seguinte: é um paradoxo estético (ou estético-correspondencial, se me permite o jargão tarskiano) que separa o homem adulto da natureza, que poderia asserido na forma "a estética é verossímil enquanto é inverossímil"; na criança e no adolescente, a estética não é paradoxal, apenas verossímil. o que fica claro na última nota: "Há um senso geral de frustração, induzido pela heterogeneidade entre o mundo coletivo irreal e a realidade das necessidades humanas individuais (i.e. pessoais ou sociais); pela obrigação de viver a maturidade num mundo irreal".

sol-moras-segabinaze said...

Daniel, legal o comentário, mas como eu disse no texto, não rola um common ground entre a sua linguagem e a minha pra que um debate objetivo aconteça.

Ab

sol-moras-segabinaze said...

Aliás, tive uma idéia: vou escrever um texto pra tentar desvendar o que você quis dizer agora.

Raphael Vasconcellos said...

Afã primitivo da bricolagem?

Ânsia primeva pelo trabalho manual caseiro?

Gosto instintivo pela reforma arquitetônica?

Daniel Liberalino said...

O texto em questão (não a teoria) é realmente impróprio à discussão objetiva, no sentido de "desambígua" estabelecido no seu texto, já que tal era - em parte - o efeito estilístico pretendido. Mas a definição de objetividade como "desambiguidade das definições" me parece restritiva, ao excluir a matemática do escopo das teorias objetivas. De fato, seria trágico se alguém conseguisse definir "conjunto", "número" etc. com suficiente unicidade, porque alguns filósofos da matemática têm famílias a sustentar. Embora isso careça de evidência. Estou com Wittgenstein, num dos seus poucos momentos de lucidez, quando diz que precisamente a desambiguidade é a causa do "bewitchment" da linguagem, ao apagar as conexões sutis da mesma, originando confusões e paradoxos. Um exemplo canônico do próprio pimpolhão Witt é o termo "jogo", cuja definição precisa acarreta que alguns jogos são jogos e não são jogos; o conjunto universal - na teoria axiomática de conj. de Cantor - seria outro caso. Ou a tentativa do seu leitor ali acima, de reduzir o uso metonímico do termo "bricolagem" - um recurso argumentativo típico, também na matemática, nas provas que usam instanciação como universais - ao uso particular. De fato, a desambiguidade é a única fonte de paradoxos, que surgem apenas em certas linguagens artificiais - a linguagem coloquial, por exemplo, os desconhece. Melhor critério de objetividade faria talvez o "rigor à verdade", pelo que entendo verdade humana. Mas isso requer, digamos assim, opacificar as partes cegas por excesso de luz.

sol-moras-segabinaze said...

Daniel, você acha que a gente pode se aproximar da verdade através do diálogo objetivo?

Eu fico fascinado com a sua linguagem, mas não consigo entender exatamente o que você quer dizer.

A objetividade realmente é "restritiva", porque ela impede de alguma maneira as viagens linguísticas, mas ao mesmo tempo ela dá um sentido à discussão, que é o que eu busco aqui.

Acho que quando a gente encara a filosofia como um jogo de retórica entre autores e discursos, ela vira uma coisa mais "artística", de desconstrução, do que seria a sua função de tentar compreender o que acontece no mundo real.