Friday, July 30, 2010

O "direito" à cultura

Tento não escrever apenas por escrever, preciso sentir a necessidade de externar alguma coisa pra sentar e concatenar pensamentos. Foi o que aconteceu no momento em que vi a reportagem de capa do Segundo Caderno de hoje. Nem precisei ler a matéria toda, bastou ver a foto de 7 atores com um semblante compungido na frente de uma estilização da bandeira do Brasil com notas de dinheiro e o sub-título: "Apesar da projeção internacional, a Cia dos Atores anuncia falência e o iminente fechamento de sua sede." Mais do que as seções de política e economia, é na parte cultural de um jornal que se entende a mentalidade dominante que aponta pra onde estamos indo, e já faz tempo que a cultura nacional está amplamente estatizada com o apoio irrestrito dos jornalistas e intelectuais. A reportagem não estava meramente anunciando o fechamento de uma companhia de teatro, ela foi escrita com a intenção de sensibillizar as autoridades. A companhia tinha um patrocínio da Petrobras (o sonho dourado, quer dizer, negro dos artistas), mas por algum motivo o perdeu. "Não nos protegeram, não fomos contemplados e ficamos no limbo", reclamou um dos atores. Qual é a premissa desse mimimi? A de que o estado tem a obrigação de "proteger" a arte. Claro que a arte é um conceito muito amplo, não é verdade? "Não queremos nos vitimizar, mas nosso caso serve como exemplo de uma situação crítica. Uma política desfavorável à continuidade de um trabalho de duas décadas que valoriza o pensamento, a reflexão e a arte, em vez do sucesso comercial", lamentou outro ator. Eu também tenho um trabalho experimental que valoriza a reflexão e a arte, cadê o meu patrocínio estatal? "Entra nos editais." Ah tá, então não é toda arte que merece dinheiro público, apenas aquela escolhida pelos políticos, burocratas e repórteres do Segundo Caderno, entendi. Outro dia um diretor de teatro que não sai desse mesmo jornal disse que "as pessoas têm que entender que a cultura é um direito". Não é, e eu explico o motivo. Um "direito" exercido às custas dos demais não é um direito, é um privilégio. O "direito" que a Cia dos Atores tem de ter as suas contas pagas pelo governo corresponde ao dever dos contribuintes em pagar essa conta. Outra coisa que se nota, não por acaso, é a exaltação da arte "experimental" em contraponto à arte "comercial". Ora, o camarada tem todo o direito de fazer as experimentações que ele quiser fazer, não pode é esperar que as pessoas sejam obrigadas a pagar por isso. Quer ser cult e fazer teatro experimental longe das preocupações mundanas e comerciais? Seja então realmente independente e pare de mendigar por tutela estatal, eis um bom começo.

8 comments:

Carol said...

Sem contar que geralmente o que é considerado "arte" pelos burocratas da vida nunca está relacionado nem com bom gosto nem com popularidade.

sol-moras-segabinaze said...

Tá relacionado mais à agenda dos que têm a chave do cofre.

Anonymous said...

Sou uma senhora idosa, 84 anos, e sempre surpreendeu-me o quanto é gasto o apelo do nú. (Sei que suas considerações são de outra ordem). Tenho visto o nú através de décadas e sempre mascaram produções canhestras. Todos acham muito moderninho o nú. Mas vou mudar de assunto. Suas palavras são sapientíssimas, caro Sol. Privilégios de uns e deveres de outros. O dever pagando o privilégio. Quantas vezes já vi isto em minha longa existência! Fazer experimentalismos culturais com dinheiro dos outros eu também quero. Eunicia Carvalho. PS: seu blog é muito simpático!

Anonymous said...

Que estranho!Eles têm mais mídia quando fecham do que quando abrem o espetáculo. Heitor

Anonymous said...

Só a cultura nacional é que tem esta reação de choramingos quando leva um pontapé estatal.
É tudo prebenda, gente. A classe artística ama prebendas. Odeia ser desprebendada. Faz beicinho.

Anonymous said...

Peraí, um trabalho que valoriza o pensamento, a reflexão e a arte na opinião de quem? Da trupe. Entropia da trupe.

Anonymous said...

Quando falam em cultura puxo logo meu talão de cheques. É Millôr?

sol-moras-segabinaze said...

:-)