Wednesday, January 05, 2011

"Capitalismo: o que é isso?", segundo o Emir Sader

"As duas referências mais importantes para a compreensão do mundo contemporâneo são o capitalismo e o imperialismo." Sei que o Emir Sader é meio lugar-comum pra tentar entender o que rola no mundo brasileiro das idéias, MAS, mesmo que o PT tente ser "pragmático" ao avançar a sua agenda, o que o Sader - um quadro do partido - escreve a seguir é uma descrição aceitável da teoria marxista, socialista e petista do que é o capitalismo. A coisa pode não parecer, mas é séria. "A natureza das sociedades contemporâneas é capitalista. Estão assentadas na separação entre o capital e a força de trabalho, com aquela explorando a esta, para a acumulação de capital." Por que o capital é antagonista ao trabalho? O capital é o resultado - se tudo der certo - do trabalho, o capital não surgiu do éter pra "explorar" os trabalhadores. E por que os "capitalistas" não seriam também trabalhadores? Um dono de uma franquia do Mister Pizza que fica o dia inteiro na loja não trabalha? Sem a demoníaca "acumulação de capital", não haveria desenvolvimento de novas tecnologias, construção de casas, produção de alimentos, fábricas, computadores, you name it. "Isto é, os trabalhadores dispõem apenas de sua capacidade de trabalho, produzir riqueza, sem os meios para poder materializa-la. Tem assim que se submeter a vender sua força de trabalho aos que possuem esses meios – os capitalistas -, que podem viver explorando o trabalho alheio e enriquecendo-se com essa exploração." Tentando ignorar os erros já clássicos de português do Sader, imagine que Fulano chegou ao Rio há pouco do Piauí e foi chamado pelo seu primo pizzaiolo pra ser entregador numa franquia do Mister Pizza. Ele tá duro e precisa pagar as contas, além de enviar algum pra família lá no interior do sertão. Fulano precisa de um emprego e o "capitalista" precisa de um entregador, mas esse acordo não serve pro Sader, o dono da franquia vai "explorar" o Fulano e alguém (governo) tem que tomar uma providência (usar a força pra impedir o acordo). "Para que fosse possível, o capitalismo precisou que os meios de produção –na sua origem, basicamente a terra – e a força de trabalho, pudessem sem compradas e vendidas. Daí a luta inicial pela transformação da terra em mercadoria, livrando-a do tipo de propriedade feudal." Ainda bem que a propriedade privada acabou com o feudalismo, não? Socialistas não gostam mesmo da fluidez do mercado, preferem as coisas bem estáticas, mais fáceis de controlar. "E o fim da escravidão, para que a força de trabalho pudesse ser comprada." Contabilizando aqui: o capitalismo acabou então com o feudalismo e com a escravidão. Continue, por favor. "Foram essas condições iniciais – junto com a exploração das colônias – que constituíram o chamado processo de acumulação originaria do capitalismo, que gerou as condições que tornaram possível sua existência e sua multiplicação a partir do processo de acumulação de capital." Será que o Emir preferia que o Brasil não tivesse sido descoberto e "explorado" pelos portugueses? Era melhor ter deixado os índios sossegados por aqui e nunca ter conhecido os 7 mares? Se houvesse tecnologia pra tanto e o Sader fosse vivo na época, ele poderia clamar pela construção do muro do Oceano Atlântico pra não se correr o risco de ninguém "explorar" ninguém. "O capitalismo busca a produção e a comercialização de riquezas orientada pelo lucro e não pela necessidade das pessoas. Isto é, o capitalista dirige seus investimentos não conforme o que as pessoas precisam, o que falta na sociedade, mas pela busca do que dá mais lucro." As pessoas precisam comer e os "capitalistas" fornecem comida. As pessoas precisam morar e os "capitalistas" constroem casas e edifícios. Só que no mundo de fantasia do Emir Sader, o primeiro é um latifundiário explorador de mão de obra escrava e o segundo um especulador imobiliário, pessoas más, muito más. É óbvio que a produção é orientada pro lucro, com prejuízos seguidos não há produção. "O capitalista remunera o trabalhador pelo que ele precisa para sobreviver – o mínimo indispensável à sobrevivência -, mas retira da sua força de trabalho o que ele consegue, isto é, conforme sua produtividade, que não está relacionada com o salário pago, que atende àquele critério da reprodução simples da força de trabalho, para que o trabalhador continue em condições de produzir riqueza para o capitalista." Essa é boa, o "capitalista" é tão malvado que paga ao trabalhador apenas e tão somente o "mínimo indispensável pra que ele sobreviva" e possa então ser "explorado" ad infinitum. Mas como se calcula esse "mínimo indispensável"? Um Bolsa-Família? 540 reais? 1.000 reais? E as pessoas que, como o Emir, ganham mais do que isso, também recebem apenas o "mínimo indispensável"? Ou isso varia de pessoa pra pessoa? "Vai se acumulando assim um montante de riquezas não remuneradas pelo capitalista ao trabalhador – que Marx chama de mais valia ou mais valor – e que vai permitindo ao capitalista acumular riquezas – sob a forma de dinheiro ou de terras ou de fábricas ou sob outra forma que lhe permite acumular cada vez mais capital -, enquanto o trabalhador – que produz todas as riquezas que existem – apenas sobrevive." O Fulano que entrega as pizzas e o seu primo que prepara as pizzas não produzem "todas as riquezas que existem" na franquia do Mister Pizza. O dono teve antes que trabalhar e economizar (acumular capital) pra abrir a franquia e organizar os fatores de produção, a loja não surgiu do nada. Se o Fulano e o seu primo trabalharem e economizarem, podem depois abrir a sua própria franquia e "explorar" um outro primo que tá querendo vir pra cá. Tá ruim lá no sertão do Piauí, não tem "acumulação de capital" suficiente. "O capitalista acumula riqueza pelo que o trabalhador produz e não é remunerado. Ela vem por tanto do gasto no pagamento de salários, que traz embutida a mais valia." O salário é um preço como outro qualquer, resultado do encontro entre oferta e demanda. Eu sei que esse fato é um choque pro mundo de fantasia marxista, mas paciência. "Mas o capitalista, para produzir riquezas, tem que investir também em outros itens, como fábricas, máquinas, tecnologia entre outros. Este gasto tende a aumentar cada vez mais proporcionalmente ao que ele gasta em salários, pelo peso que as máquinas e tecnologias vão adquirindo cada vez mais, até para poder produzir em escala cada vez mais ampla e diminuir relativamente o custo de cada produto." Sim, aumento de produtividade e diminuição de custos, é assim que se cria riqueza. O problema é que os socialistas não estão preocupados em criar riqueza; Cuba, por exemplo, produz atualmente menos açúcar do que produzia antes de 1959. E olha que lá tem até um Ministério do Açúcar. "Assim, o capitalista ganha na massa de produtos, porque em cada mercadoria produzida há sempre proporcionalmente menos peso da força de trabalho e, por tanto, da mais valia - que é o que lhe permite acumular capital." Esse papo de "mais-valia" é só mais um dos artigos de fé do marxismo, uma espécie de religião secular. "Por isso o capitalista está sempre buscando ampliar sua produção, para ganhar na competição, pela escala de produção e porque ganha na massa de mercadorias produzidas. Dai vem o caráter sempre expansivo do capitalismo, seu dinamismo, mobilizado pela busca incessante de lucros." Verdade, foi assim que as pessoas passaram a viver mais e melhor desde a Revolução Industrial. O que teria de errado, aliás, no "dinamismo, mobilizado pela busca incessante de lucros"? Ou o Emir Sader vive atrás da estagnação, mobilizado pela busca incessante de prejuízos? Essa é uma postura suicida, companheiro Emir. "Mas essa tendência expansiva do capitalismo não é linear, porque o que é produzido precisa ser consumido para que o capitalista receba mais dinheiro e possa reinvestir uma parte, consumir outra, e dar sequencia ao processo de acumulação de capital. Porém, como remunera os trabalhadores pelo mínimo indispensável à sobrevivência, a produção tende a expandir-se mais do que a capacidade de consumo da sociedade – concentrada nas camadas mais ricas, insuficiente para dar conta do ritmo de expansão da produção." Errado, muito errado. O capitalismo se expande justamente ao atender o consumo das massas. Uma televisão era originalmente acessível apenas aos mais ricos e hoje tem o seu uso praticamente universalizado. O Fulano e o seu primo pizzaiolo não consomem música clássica ou atonal, consomem axé e forró, estilos que os "capitalistas" competem entre si pra oferecer às massas que socialistas como o Emir Sader dizem defender. "Por isso o capitalismo tem nas crises – de superprodução ou de subconsumo, como se queira chamá-las – um mecanismo essencial. O desequilíbrio entre a oferta e a procura é a expressão, na superfície, das contradições profundas do capitalismo, da sua incapacidade de gerar demanda correspondente à expansão da oferta." Não existe algo como "incapacidade de gerar demanda", a demanda é infinita. Querer mansões, Ferraris e iates não é difícil, difícil é produzir o equivalente a mansões, Ferraris e iates. As vontades (demandas) são infinitas, os recursos (ofertas) são escassos. "As crises revelam a essência da irracionalidade do capitalismo: porque há excesso de produção ou falta de consumo, se destroem mercadorias e empregos, se fecham empresas, agudizando os problemas." O que agudiza os problemas é a má compreensão dos problemas, como achar que as crises são causadas por "excesso de produção" ou "falta de consumo". "Até que o mercado “se depura”, derrotando os que competiam em piores condições – tanto empresas, como trabalhadores – e se retoma o ciclo expansivo, mesmo se de um patamar mais baixo, até que se reproduzam as contradições e se chegue a uma nova crise." A teoria austríaca dos ciclos econômicos poderia resgatar o Emir dessa ignorância orgulhosa sobre os fenômenos de boom e bust, mas duvido que ele aceite ou mesmo leia a minha sugestão. "Esses mecanismos ajudam a entender o outro fenômeno central de referência no mundo contemporâneo – o imperialismo – que abordaremos em um próximo texto." Mal posso esperar. Como se viu, a teoria marxiana e saderiana sobre o que é o capitalismo não dá uma dentro, sendo refutada com relativa facilidade pelo raciocínio lógico. O lance é que o marxismo não é somente uma teoria econômica falsa, é um processo de conquista de poder. Perceba que a "luta de classes" começou colocando apenas "proletários" contra "burgueses", mas o potencial de conflito a ser explorado (sem aspas) era enorme. Hoje em dia, os marxistas e as suas variações escrevem teses e mais teses colocando "negros" contra "brancos", "índios" contra "brancos", "mulheres" contra "homens", "homossexuais" contra "heterossexuais", "nortistas" contra "sulistas" e assim por diante, dividir pra conquistar. Ou seja, os socialistas primeiro estimulam os conflitos e depois se anunciam como os solucionadores desses conflitos, contanto que sejam investidos de poder, muito poder. (http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=645)

10 comments:

Felipe Flexa said...

O curioso é que quando lemos o "Manifesto do Partido Comunista", Marx elogia a burguesia até cansar. E eu me perguntei: então por que cacetes o infeliz quer acabar com ela?

Sandro P said...

O Emir é muito útil. Quando não se tem idéia sobre o que pensar sobre algum assunto, é só ler o que ele escreve e pensar o contrário.
É batata!

Caio said...

Sobre o repetido argumento de "pagar o minimo necessario pra sobreviver", evoco Henry Frod: "There is one rule for the industrialist and that is: Make the best quality of goods possible at the lowest cost possible, paying the highest wages possible." - Henry Ford"

Chesterton said...

Excelente. Vou copiar. Eu iria mais longe na questão do lucro. O capitalista procura descobrir a "necessidade" do sujeito, e terá lucro se conseguir atendê-la.

sol-moras-segabinaze said...

Bem observado, Chesterton, e eu percebi isso enquanto revisava o texto. Vou explorar (sem aspas) mais esse tema quando ele escrever sobre o imperialismo.

Chesterton said...

É, sem aspas, cada um sabe qual sua necessidade. É imperativo não permitir que outros decidam no atacado.

Anonymous said...

Eu sinceramente não sei o que se passa na cabeça do Emir.

Ele vai dizer o Lula que é preciso acabar com o capitalismo?

"O" Anonimo said...

"Cuba, por exemplo, produz atualmente menos açúcar do que produzia antes de 1959. "

Errado. A produtividade na cultura da cana em Cuba eh mais baixa do que era em 1910. Fidel fez a ilha regredir para o comeco do seculo 20.

Anonymous said...

muito superficial este texto. tanto nas criticcas que faz ao emir sader, quanto na analise subjacente do que seja o marxismo. mas principalmente, nas criticas que faz ao marxismo e nas criticas que faz às "supostas críticas"que os marxistas fazem.
se vc se interessa tanto por estas questoes, deveria estudar autores contemporaneos da sociologia e da filosofia politica, nao dá pra ir tao longe em um texto com argumentos tao rasos.

sol-moras-segabinaze said...

haha

Profundos foram esses seus contra-argumentos, né?