Thursday, September 13, 2012

Szasz e as drogas

Desde cedo, tive a impressão de que a guerra contra as drogas era uma insensatez, uma afronta à noção de que a pessoa é livre - desde que respeite as demais - pra fazer o que quiser com a própria vida. Acompanhava as guerras nos morros pelo controle do tráfico, a corrupção escancarada da polícia e as prisões lotadas, mas não via muita gente questionando a lei que dava margem a toda essa maluquice trágica ao criminalizar o consumo e a comercialização de certas substâncias. Tem algo de muito errado aí, e foi assim que comecei a me aprofundar na filosofia da liberdade, pra entender as bases que fazem uma sociedade realmente livre. Nesta semana, morreu um dos grandes defensores da autonomia individual frente à tutela governamental, o psiquiatra húngaro Thomas Szasz, este texto é inspirado numa palestra dele. (http://youtu.be/1LoSgdpHnUkNinguém é culpado até que se prove o contrário. Não se pode punir alguém sem que essa pessoa tenha - de fato - agredido alguém. Pessoas pacíficas que se envolvem apenas em relações voluntárias têm de ser deixadas em paz. A questão não é sobre o abuso de drogas, é sobre a responsabilidade individual. Quanto maior o controle de fora sobre uma pessoa, menor o controle que ela vai ter sobre si mesma. A aliança entre a classe médica e o governo. Nem todas as drogas são criminalizadas, algumas são *permitidas* desde que prescritas por médicos aprovados pelo governo. Então, de alguma maneira, não são apenas a maconha, a heroína e a cocaína que são ilegais, todas as drogas são ilegais. Se você precisa de permissão governamental pra tomar uma substância, essa substância não é livre. Essas exigências dão aos médicos que passam pelas triagens do governo o monopólio de decidir se a pessoa *precisa* ou não de uma droga, imposição que infantiliza o indivíduo, tratando-o como incapaz. Eu não posso decidir usar drogas por motivos religiosos, espirituais, estéticos, recreativos, psicológicos, experimentais, paranormais ou o que seja, outros decidem por mim. Se o governo tem alguma função (tenho dúvidas), é a de proteger as pessoas de perigos externos, ele não tem o direito de me proteger de mim mesmo. Existe um exército se outros países quiserem invadir e uma polícia se outras pessoas quiserem roubar ou matar. Se eu quiser me invadir ou evadir, isso não é da conta do governo. 

37 comments:

notas said...

1 - as drogas, em especial maconha e cocaína, têm gerado um exército de zumbis moribundos insensíveis que falam & se deprimem em código e que, em última instância, prejudicam o andamento do mundo a seu redor. qdo estão dentro do mundo, contribuem para decadência externa a eles e para pequenos estados de caos e degeneração desencadeados por euforia/ depressão/ desconexão alucinatória, ou pelo simples vício.

2 - qdo uma pessoa compra (comprava) antibióticos por conta própria, ela propicia a resistência maior e de mais bactérias, que irão matar em poucas décadas todos nós ou obrigarão os laboratórios a criar antibióticos mais potentes e mais danosos ao corpo do que os que jah existem.

a única função do governo é punir e reprimir agentes que estão contra a liberdade & sanidade das pessoas. as drogas são esses agentes.

notas said...

* sanidade das pessoas ao redor, claro. a mesma sanidade impossível, apesar do mal, apesar da expressão constante de satã, perseguida em, por exemplo, mad max, mas que, mesmo impossível, é papel do governo.

sol-moras-segabinaze said...

O texto não é uma apologia ao uso de drogas e os seus efeitos, é uma apologia ao direito da pessoa usar o próprio corpo da maneira que achar melhor, desde que não inicie agressão contra os demais.

sol-moras-segabinaze said...

Sobre Satã, há - no mínimo - controvérsias a respeito da sua existência e do seu contrário.

sol-moras-segabinaze said...

Agora, se "Satã" é uma metáfora do mal, então tem jogo, discutir o certo ou errado não só é possível como desejável.

notas said...

não, entendi perfeitamente o ponto. e até concordo com o geral. só foram ressalvas que vieram quando li.

Vitor Dornelles said...

Não sei que exército de zumbis é esse criado pela maconha e a cocaína. A maioria das pessoas que conheço que consomem alguma dessas drogas levam vidas absolutamente normais. No Brasil, a única droga zumbificante parece ser o crack. Que provavelmente sequer existiria se não houvesse esta guerra a (algumas) drogas em primeiro lugar.

notas said...

"Que provavelmente sequer existiria se não houvesse esta guerra a (algumas) drogas em primeiro lugar."

isso é subestimar demais a vocação humana para fuder-se e fuder a ordem à sua volta.

posso concordar que existam pessoas normais que consomem maconha. e que a maconha é apenas um sintoma de um tipo de nova relação adulterada (a de USUÁRIO utilitário) que existe no mundo inteiro e entre as pessoas; posso dizer isso, mas posso dizer que conheço muitos zumbis igualitários (no sentido de serem iguais em paralisia emocional).

agora, quanto à cocaína, não vou nem comentar seu poder destrutivo do que é exterior ao usuário. pra começar do sistema de saúde (que a meu ver deveria ser público tanto quanto a luta contra satã), e pra finalizar da civilização. a cocaína está ligada à produção em massa de alucinados egoístas (que podem se entender entre si, mas que se entendam então numa ilha nova que encontrem, se bem que depois de crusoé está difícil).

sol-moras-segabinaze said...

Notas, considere o seguinte: se a saúde vai ser pública (já é), isso dá margem pro governo controlar tudo aquilo que as pessoas consomem e fazem.

Açúcar engorda e causa diabetes, vamos então proibi-lo. Falta de exercício também sobrecarrega o sistema de saúde pública, vamos obrigar as pessoas a se exercitarem todas as manhãs e por aí vai.

A cocaína é um droga terrível, mas se a pessoa não tá agredindo ninguém além dela mesma, por que enjaulá-la?

Liberdade só faz sentido com a respectiva responsabilidade, essa é que é a dificuldade.

notas said...

é, mas o diabetes é uma doença orgânica digamos assim "consagrada" e há uma hierarquia da inocência do envenenamento e da consciência do envenenamento, assim como há hierarquia de tudo. quem se envenena com gordura e açúcar é criança (mesmo adultos-criança). em relação à cocaína, há uma inspiração mais sórdida e consciente (pressupõe-se: mais [ir]responsável, passível portanto de resposta mais a caráter).

esse nazi-saudabilismo é horrível, não tem que proibir nada: gordura, gordos, nada. o que é consagrado pela história e pela mente infantil do ser humano, há de ser tolerado. a cocaína é outro lance.

não deve ser tratado como criança quem a usa, embora mereça consideração e tratamento também - se assim a pessoa quiser.

ela só precisa ser proibida e combatida militarmente nem que vc se divirta com garotas que usem (eu me divirto), pois é uma questão do princípio de convivência sã e portanto liberdade do próximo (democracia-digna). a erosão que ela causa é a da faculdade das pessoas se relacionarem de maneira sã, alucinados egoístas prejudicam - como um ladrão - o próximo. aprovaria que um grupo de usuários achasse uma ilha e ficasse lá entre eles, livres, mas no convívio social, a erosão e o prejuízo são exponenciais e insidiosos.

notas said...

mas eu em resumo volto a dizer: governo só precisa lutar contra satã, deixando o terreno minimamente tranquilo pras pessoas inventarem e se relacionarem. nem que a luta seja só fingir que luta, pois no final satã sempre será vencido pelo destino. coloquei coisas demais na minha outra fala.

sol-moras-segabinaze said...

O abuso de uns não deveria tolher o uso de todos. Já que a pinimba maior é com a cocaína, pense num caso clássico, o de Freud, que a consumia avidamente e teve uma vida longa e produtiva (morreu de tanto fumar charuto).

"mas eu em resumo volto a dizer: governo só precisa lutar contra satã, deixando o terreno minimamente tranquilo pras pessoas inventarem e se relacionarem."

Eu já tenho minhas dúvidas se o governo não é ele mesmo uma manifestação de satã, impedindo (ou, no mínimo, dificultando) as pessoas de se relacionarem e se inventarem.

notas said...

infelizmente, nem todas as pessoas são tão inventivas e brilhantes como freud - que, aliás, sendo um alucinado egoísta, se relacionava muito mal em geral com as pessoas. imagina os burros, que são a maioria, que estrago e prejuízo não geram em sua alucinação arrogante e assoberbada ajudada pela droga. mas meu papo não é de tolhimento, é de diferenciação (discriminação, palavra bela e "discriminada"): se querem o uso, governem sua própria lógica & sociedade onde o uso é livre; se não querem ou não tem como formar sua própria sociedade, aguentem a escassez da droga na minha, pois no meu governo o exército a queimará por julga-la arma de satã contra a liberdade.

Vitor Dornelles said...

Pela sua lógica imagino que você defenda que a Lei Seca deveria ainda estar em vigor, uma vez que o álcool é um dos principais aliados de, ahn, "satã". Uma das maiores razões para eu ser contra a proibição não é só o fato de que ela não serve pra nada, nem mesmo para combater "satã" - como a Lei Seca deixou provado -, mas especialmente por ter criado um tabu tão grande em torno das drogas que a maioria das pessoas não pode nem ouvir a palavra "cocaína" sem por as mão nos ouvidos e fingir que não está escutando. Isso nos impediu de estudar melhor essas drogas "malditas" e talvez até mesmo aperfeiçoá-las para chegarmos a níveis mais seguros de consumo. Existe um motivo pelo qual as drogas não desapareceram até hoje - a natureza humana, claro - e não há exército ou proibição que conseguirá mudar isso.

notas said...

vc está certo e/ou mto bem-intencionado em muitos pontos aí. sobretudo quando fala da natureza humana. mas já está provado que ela (a droga, a natureza, claro, idem) é ruína.
e, como talvez não tenha ficado claro, minha visão de governo não se refere à ação em si, mas à interpretação da ação. à sensação de ação. a natureza sempre vencerá, mas o bem (sanidade possível, liberdade total dentro dos parâmetros de civilização) tem que ser "oficial".

de resto, adoro minas que cheiram.

notas said...

em tempo: a lei seca não funcionou por causa da corrupção, e tão somente por causa da corrupção (incluindo um sistema legal corrupto). as punições eram em teoria tão ameaçadoras que venciam até da natureza humana, uma vitória épica.

sem dúvida deveria ter dado certo na prática, na esfera do trânsito. beber em casa é vício consagrado pela civilização, pra mim tá de boa.

sol-moras-segabinaze said...

"de resto, adoro minas que cheiram."

hahaha

JV said...

estaria tudo bem se tivessem uma tatuagem onde se lê: " proibido de entrar em hospitais públicos (em qualquer caso) ". Na medida que se encostam na previdencia social drogados estão sim sob tutela estatal.

JV said...

Espera aí, comparar psicotrópicos com açúcares é completa falta de noção deproporção (como fazem os eco-terroristas)

sol-moras-segabinaze said...

O açúcar é uma substância bem pesada sim, mas isso não é argumento pra proibi-lo: http://www.youtube.com/watch?v=k5-4FLA6rkw

E a saúde não devia ser socializada (pública), os serviços seriam mais eficientes e baratos se o estado não se metesse.

João said...

A natureza humana é que fez a civilização. Logo, ela não pode ser "ruína" e a civilização, o bem. Uma coisa exclui a outra.

A Lei Seca não deu certo porque beber é bom e as pessoas querem sentir sensações boas. A corrupção que valeu para ela valerá para toda proibição. O estado existe para proibir Huguinho de matar (ou roubar, ou espancar etc.) Zezinho, mas não pode probir Luizinho de se matar nem de fazer o que quiser consigo mesmo.

Quem não acha são conviver com bêbados, crackudos ou chincheiros que não conviva com eles (eu, pessoalmente, acho gente cheirada um saco). O estado não tem nada a ver com isso.

notas said...

"A natureza humana é que fez a civilização. Logo, ela não pode ser "ruína" e a civilização, o bem. Uma coisa exclui a outra."

a natureza humana cria o chão e o abismo, é assim desde sempre.

o resto que você escreveu está equivocado, joão.

primeiro porque 1- em sociedades elevadas e sérias a lei vale porque existe uma coisa chamada ética vigente, que inclusive ameaça quem não a segue. isso mesmo em paraísos libertários como o velho-oeste. humildemente deixo registrado que é algo que não se elabora com o tempo, creio que infelizmente está na semente de certas culturas & agrupamentos.

2 - depois porque quem bebe no trânsito (e a lei trata disso) e cheira antes do trampo vai ser um puta de um huguinho, sim, joão, que o estado tem o dever de coibir.

João said...

Errado.

Não defendi que se beba antes de dirigir, mas, sempre na carona, já tive a vida salva por um motorista cheio de álcool na cabeça às 5 da manhã, que fez um manobra salvadora e quase a perdi por um totalmente sóbrio. A embriaguez varia de pessoa a pessoa e não cabe ao estado punir uma possibilidade, mas o fato. Fez besteira? Cana dura. Não fez nada? Sem problema, então.

Quanto a quem cheira antes do trampo. o estado não tem dever nem direito de coibir. Essa é uma questão entre o empregado e o empregador, que pode demiti-lo, por justa causa, assim como com quem vai trabalhar bêbado.

Aliás, podia, porque o estado, junto com a igreja universal – por meio de um senador do partido desta última – acaba de se meter onde tem legitimidade e proibir.
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2012/9/17/alcoolismo-deixa-de-ser-motivo-para-justa-causa

Sociedades elevadas e sérias, que são o contrário de "chão e abismo", são criadas pelo ser humano, em sua natureza, não por robôs ou por marcianos. Leis são criadas por pessoas, não por Deus ou coisa do tipo.

notas said...

não, você não compreendeu o que eu disse acima:
o estado tem papel coercitivo, preventivo e de manutenção da ordem - mesmo com base em mentiras (exemplo: "mudar" a natureza humana que cria o belo e o feio). isso não quer dizer prender huguinho antes que cometa o mal ou porque vai bicudo fuder o próximo no trabalho. isso quer dizer apenas, além de prende-lo se matar alguém no trânsito por estar chapado, proibir e queimar uma droga não consagrada na história maior da civilização.

notas said...

(a droga sempre vai existir e renascer, mas é atribuição dramatúrgica e pedagógica de um estado fingir que acredita no contrário)

João said...

Entendi sim.

O estado não tem direito nenhum de prender alguém por aplicar a si mesmo qualquer droga – esteja ou não ela "consagrada na história maior da civilização".

Se (e apenas se) causar mal a alguém, sim, e, se for por influência estar chapado, é agravante.

notas said...

"O estado não tem direito nenhum de prender alguém por aplicar a si mesmo qualquer droga – esteja ou não ela "consagrada na história maior da civilização"."

pois é, concordo.

como claro antes.

João said...

Nem de proibir ninguém por aplicar a si mesmo o que quer que seja.

JV said...

E a saúde não devia ser socializada (pública), os serviços seriam mais eficientes e baratos se o estado não se metesse.

JV- aqui você sem querer dá o argumento dfinitivo para a proibição: a saúde é pública no mundo real.

João, a civilização é feita apesar da natureza humana. Muitos grupos humanos nunca se civilizaram ( e nem se civilizarão) por não conter a própria natureza selvagem.

sol-moras-segabinaze said...

Eu disse "pública" no sentido de governamental, ou seja, baseada em controles e impostos, diferente do livre mercado.

João said...

Não. A civilização é feita por seres humanos, logo, pela natureza humana. Nenhum fator extra-humano fez civilização nenhuma, só o ser humano, com todos os seus defeitos.

Não existe nenhum argumento real, muito menos definitivo, para o estado proibir um indivíduo adulto de consumir o que quiser e bem entender por sua própria conta e risco.

JV said...

RSRS, tá bom João, vamos definir "civilização". Eu falo da alta civilização. Comer com garfo e faca, agua corrente, luz elétrica, não mastigar de boca aberta, essas coisas da "natureza humana".

Tambem falei de saúde pública como sinônimo de estatal. Assim como tem a saude privada, particular, (mas aberta ao público, porque não).

João said...

Fazem sim. O aprendizado dessas coisas, como inventar a luz elétrica, faz parte da natureza humana. E só existe no ser humano.

João said...

O ser humano aprende a comer com garfo e faca, a inventar a luz, a construir sistemas de águas e esgotos porque a habilidade e a capacidade intelectual para isso fazem parte de sua natureza – ao passo que não fazem do macaco, da zebra ou do dromedário.

Anonymous said...

I really appreciate this post. I?

sol-moras-segabinaze said...

I can't say, bot.

Anonymous said...

Caras, digam o nome das paradas que vcs ingeriram, please!