Monday, October 04, 2010

Discutindo Ayn Rand

Rand começa dizendo que a Idade Média foi regida pelo misticismo, numa época em que a filosofia era considerada uma extensão da teologia, relacionando a forte influência de Platão com Santo Agostinho, "um platônico". O renascimento da filosofia de Aristóteles se deu, segundo Rand, via São Tomás de Aquino, "que trouxe de volta a parte principal da filosofia de Aristóteles, a epistemologia (lógica e razão)". [esse descolamento da parte mais platônica da religião coincidiu, não por acaso, com o surgimento do renascimento e o fim da idade média, evidenciando a importância da base filosófica na "vida prática"] O entrevistador então pergunta a opinião de Rand sobre a influência de Kant na filosofia. Ela explica que Kant desenvolveu um esquema falso, que desqualifica a mente humana ao descrever a realidade como uma ilusão criada pela percepção. Para Kant, o homem não seria capaz de "ver as coisas como elas são", um ataque, segundo Rand, ao poder da consciência, "negando a realidade e a validade das nossas percepções". [sem falar naquela divisão entre o mundo numenal e fenomenal, o fenomenal sendo aquele em que vivemos, onde não conseguimos "ver as coisas como elas são", ao contrário do numenal, onde conseguiríamos ver the real deal se essa dimensão fora do nosso alcance realmente existisse. Kant queria assim justificar o misticismo e os seus mundos incognoscíveis através de uma "razão pura"] O entrevistador menciona as duas personificações mais presentes no exercício do poder ao longo da história segundo a própria Rand, os chamados Átilas e os Feiticeiros (witch doctors). Ela diz que a razão é a única forma de se perceber a realidade ao integrar o material fornecido pelos sentidos. A razão, porém, não funciona automaticamente, ela tem um caráter volitivo. A maioria das culturas, ela continua, foi governada pelos chamados witch doctors, que "são guiados não pela razão, mas pelas suas emoções, funcionando com base na fé", uma crença sem evidência que encaram como guia no mundo real. [me desculpem os amigos religiosos, mas a fé é um salto no escuro que, parafraseando Kant, não tem a ver "com as coisas como elas são". claro que existem religiões mais civilizadas e menos irracionais que outras - e a liberdade religiosa é um valor inegociável - mas todas são irracionais. não estou dizendo que todo religioso é irracional, estou dizendo que buscar a verdade a partir da fé é irracional] Como tem que lidar com os outros homens, o witch doctor acaba se juntando ao Átila, "seu aliado natural, o chefe primitivo de uma tribo que age sempre no calor do momento, se recusando a considerar idéias, princípios ou abstrações". Os Átilas, "os gangsters, os ditadores e os chefes militares", lidam com os outros na base da força. "Em qualquer época da história e na maioria dos lugares, o poder foi exercido por uma aliança entre os witch doctors e os Átilas". [veja a nossa eleição, por exemplo, e o esforço feito pelos candidatos pra agradar, ou ao menos não desagradar muito, os líderes religiosos. veja a aliança entre Lula e Edir Macedo, o presidente que usa a força do poder pra impor a sua agenda e o bispo que usa a força da fé pra angariar mais poder] O homem da fé dando a sanção moral pra que o homem da força a imponha. Na sociedade atual se vê o mesmo fenômeno, e ela cita os "leftists, liberals and socialist intellectuals" como sendo os novos-místicos que tentam justificar o uso da força, porque - como Kant - não reconhecem a validade da razão. [os esquerdistas se acham muito sensíveis e humanistas, mas a sua agenda só se realiza com o uso da força. se você quer equalizar a sociedade de cima pra baixo, enfraquecendo uns e fortalecendo outros, você vai ter necessariamente que ter mais força que todos os outros, numa coerção-compassiva (a hipótese otimista)] O entrevistador então pergunta por que os místicos precisariam dos homens da força. Como colocam as emoções em primeiro lugar e negam os fatos, explica Rand, os místicos não conseguem lidar com a realidade e, por isso mesmo, formam uma aliança com os Átilas, que os protegem e impõem os seus dogmas. [uma das conquistas do iluminismo - e uma das consequências do renascimento - foi a separação entre o estado e a igreja. claro que nem todos os lugares chegaram lá, veja o mundo muçulmano] (http://www.youtube.com/watch?v=lrr2wfm4fNY)

7 comments:

rodrigo.feijao said...

por isso que rand não deve ser levada a sério! este positivimos todo faz mal à saúde!

sol-moras-segabinaze said...

Como assim, Feijão? Fale mais a respeito, por gentileza.

rodrigo.feijao said...

a pobre coitada não consegue conceber que toda esta racionalização tem um limite muito claro: justamente os limites da nossa percepção. Tem de ser muito arrogante pra achar que percebemos o som como uma raposa, ou a luz como uma mosca, etc. Isso significa que certamente há toda uma 'dimensão' do não visto.Esta defesa, segundo vc, da racionalidade como unica forma de integrar as informações dos sentidos, além de falsa, é absurda. Assim como é usar um termo absolutamente arquetipico nesta tentativa de generalizar o processo decisório das pessoas. É evidente - e estudando largamente - que usamos tanto emoção quanto razão - e ainda uma terceira 'força', a intuição, que certamente, na lógica da Rand, inclui a 'irracionalidade' dos tais witch doctors. acho toda esta metáfora uma merda, em resumo! : )

coitada, mas tb né, vivendo naquela época... tinha de ficar com medo mesmo dos 'irracionais' heheh

Luiz Mário Brotherhood said...

Eh, feijao. To interessado em saber tambem.
Uma abraco

sol-moras-segabinaze said...

"a pobre coitada não consegue conceber que toda esta racionalização tem um limite muito claro: justamente os limites da nossa percepção. Tem de ser muito arrogante pra achar que percebemos o som como uma raposa, ou a luz como uma mosca, etc."

Ela não fala isso, Feijão. A mosca percebe as coisas de um jeito, a raposa percebe de outro, a diferença entre esses seres e o homem é que o homem possui uma consciência capaz de integrar esse material. Isso não é o mesmo que dizer que o homem tem uma consciência absoluta (onisciência), ninguém tem, a sua capacidade de percepção e integração é limitada pela sua própria natureza.

"Esta defesa, segundo vc, da racionalidade como unica forma de integrar as informações dos sentidos, além de falsa, é absurda. Assim como é usar um termo absolutamente arquetipico nesta tentativa de generalizar o processo decisório das pessoas. É evidente - e estudando largamente - que usamos tanto emoção quanto razão - e ainda uma terceira 'força', a intuição, que certamente, na lógica da Rand, inclui a 'irracionalidade' dos tais witch doctors."

Sobre as emoções: "Just as the pleasure-pain mechanism of man’s body is an automatic indicator of his body’s welfare or injury, a barometer of its basic alternative, life or death—so the emotional mechanism of man’s consciousness is geared to perform the same function, as a barometer that registers the same alternative by means of two basic emotions: joy or suffering. Emotions are the automatic results of man’s value judgments integrated by his subconscious; emotions are estimates of that which furthers man’s values or threatens them, that which is for him or against him—lightning calculators giving him the sum of his profit or loss.

But while the standard of value operating the physical pleasure-pain mechanism of man’s body is automatic and innate, determined by the nature of his body—the standard of value operating his emotional mechanism, is not. Since man has no automatic knowledge, he can have no automatic values; since he has no innate ideas, he can have no innate value judgments.

Man is born with an emotional mechanism, just as he is born with a cognitive mechanism; but, at birth, both are “tabula rasa.” It is man’s cognitive faculty, his mind, that determines the content of both. Man’s emotional mechanism is like an electronic computer, which his mind has to program—and the programming consists of the values his mind chooses.

But since the work of man’s mind is not automatic, his values, like all his premises, are the product either of his thinking or of his evasions: man chooses his values by a conscious process of thought—or accepts them by default, by subconscious associations, on faith, on someone’s authority, by some form of social osmosis or blind imitation. Emotions are produced by man’s premises, held consciously or subconsciously, explicitly or implicitly."

Essa é a visão dela, não estou tão certo quanto ela sobre a tabula rasa, mas ainda assim o livre-arbítrio existe.

"acho toda esta metáfora uma merda, em resumo! : )"

Você acredita em Deus, Feijão?

Abs

Anonymous said...

Eu estava pensando em criar uma loja chamada sandwitch e colocar Ayn Rand de gerente.

sol-moras-segabinaze said...

hehehe