Monday, June 20, 2011

A diferença da discussão política

Se eu sou Flamengo e você Botafogo, tudo bem, cada um com seu cada um. Se eu gosto de chillwave e você de death metal, beleza, good luck with that. Se eu assisto reality shows e você nem liga a TV, vida que segue. Agora, se eu acho que o governo tem que ser assim e assado e você considera que ele tem que ser assim, assado, cozido e grelhado, essa diferença vai ter uma outra natureza, porque vai envolver o uso da força. Não sou obrigado a torcer pelo Flamengo, a ouvir chillwave ou a assistir Keeping Up with the Kardashians, mas sou obrigado a obedecer as regras impostas pela mão visível do governo e pelo documento invisível chamado contrato social, quer eu queira ou não. Nenhum problema se você gosta da banda X, do cineasta Y ou do escritor Z, a coisa muda de figura se você acha que o governo deve patrociná-los. Não que não se possa discutir o mérito desses artistas, mas essa discussão vai ficar no terreno subjetivo e o seu gosto não vai interferir diretamente no meu. Se essa sua preferência, no entanto, vier acompanhada do subsídio do governo, ela vai interferir sim no exercício do meu gosto, porque eu vou ter menos meios de exercê-lo, já que uma parte foi desviada à força pra patrocinar X, Y ou Z. Ou se governa igualmente pra todos ou a política vira uma guerra entre grupos de pressão pelo controle da máquina capaz de tirar de um pra dar pra outro. Então a igualdade de todos perante a lei vira uma ficção substituída pela mobilização de pequenos grupos organizados atrás de privilégios às custas da grande massa desorganizada. Quando a religião andava misturada com o governo, ter uma crença diferente da oficial ou não ter uma religião at all podia te causar muitos problemas com o poder, mas quando a civilização finalmente separou a religião do governo, o camarada passou a poder ser espírita, protestante, macumbeiro ou o que quer que seja, a sua opção espiritual se transformou num assunto pessoal ao invés de ser um assunto estatal. Como as pessoas ainda assumem que é papel do estado (e dos políticos) conduzir a economia (e a cultura em geral), o que seriam diferenças estéticas ou éticas se transformam numa briga de foice e martelo pra ver quem vai (tentar) impor os seus valores aos outros.

12 comments:

Carol said...

Muito bom!

Anonymous said...

Tenho a impressão de que sempre foi assim, Sol,grupos metidos em política puxando a brasa para a sardinha. Vide grupo evangélico, grupo ruralista, grupo verde, vira uma briga onde os grupos disputam os nacos do poder - que geralmente envolve dinheiro. A igualdade de todos perante a lei é uma falácia porque existem imunidades disso e daquilo e a coincidência do negócio é por que tanta gente que deveria estar atrás das grades está com mandato na câmara e senado, sem contar prefeituras, etc. A questão não é nem tentar impor valores com discussão saudável e franca, mas sim impor vontades pela força invencível da maioria parlamentar.No caso de artista, hmmmm, a discussão é longa. No fim do século 19, década de 90, São Paulo fundou o seu Instituto Histórico e Geográfico. O que ele fez? Inventar uma cultura paulista. O resultado? Todo bandeirante aparecia em pinturas com botas reluzentes, roupa maravilhosa, quando na verdade depois se soube pela leitura paciente de livros antigos de câmaras municipais e testamentos velhíssimos, que eles andavam mesmo era descalços, com roupa em farrapos de quem anda no meio do mato. Mas ficou a invenção de uma cultura. O que é grave porque inverídico. É esse tipo de imposição cultural muito interessante.

sol-moras-segabinaze said...

Pode ter sido sempre assim, o que não significa que vai ser sempre assim.

Tem coisas que a gente não pode mudar, como a morte, por exemplo. O modo como o poder é exercido, por outro lado, não está escrito em pedra e pode ser alterado sim. Ou não?

Anonymous said...

O impossível não é um fato, é uma opinião.

sol-moras-segabinaze said...

Well...

Anonymous said...

Tem toda a razão, mas quem quer mudar? Você? Eu? Berê? Thiago? As pessoas se sentem mais motivadas a entrar num blog pela descriminalização da santa do que num blog contra a alta estratosférica de impostos que a gente paga, que é um dos motivos principais da bagaça não dar certo, da corrupção desenfreada, dos piores elementos na política e - voilá - dos grupos de interesse. É triste, Sol.

sol-moras-segabinaze said...

As coisas acabam mudando, querendo as pessoas ou não.

Anonymous said...

Eu to velhinho, Sol, não posso esperar muito não... Te contei de sábado? Apenas duas praias do Rio de Janeiro estavam liberadas para banho, as outras estavam poluídas. Entrei no feicebuque no fim de semana. Todo mundo na praia, felizinho, nadando no coliforme fecal, pegando aquela hepatite bacana. Postei um negócio sobre. Ninguém respondeu. Drummond tinha razão: "há um óleo que eles passam no corpo, e esquecem."Parodiando Caetano Veloso, é essa a juventude que quer viver num país melhor? Feicibuque é um lugar para colocar as causas sociais, ou só as coisas sociais? Tsk.

Anonymous said...

O principal verbo da república: maracutear.

Anonymous said...

Berê vestiu um fato glamuroso, foi lá e mandou ver no verbo, aprovando a campanha com louvor.Ô menina danada!

sol-moras-segabinaze said...

:-)

Anonymous said...

Enquanto isso, em Brasília, urde-se!