Thursday, August 18, 2011

O trabalho "escravo"

"Empregada por uma brasileira, que a concedeu dias de licença maternidade, Julia trabalha 10 horas por dia, e mesmo assim diz que sua vida aqui é melhor do que na Bolívia." Um sinal da decadência intelectual de um país é o modo como os conceitos são deturpados nos debates públicos pra servirem - não à busca honesta da verdade - mas aos objetivos políticos dos seus proponentes. Quem é um escravo? Um escravo é quem não tem o controle sobre o próprio corpo e pertence a uma outra pessoa, é alguém que não tem a propriedade de si mesmo. Um escravo, por definição, não pode pedir demissão, pegar o seu boné (ou o seu poncho) e ir à luta em outra freguesia. Só que a confusão chegou num ponto em que equivaler um assalariado a um escravo e um empregador a um senhor de escravos virou a norma nas discussões e quem questiona isso só pode ser um FDP da TFP. Não que o meu objetivo seja antagonizar, isso não é a causa do que escrevo, é a consequência, se acontecer. Se eu quero tentar me aproximar  o máximo possível da verdade, o mínimo que eu posso fazer é respeitar o significado das palavras e não me engajar em manipulações emocionais pra parecer bonzinho segundo a mentalidade mais influente do momento e assim ganhar pontos na gincana social. Claro que eu prefiro que as pessoas gostem de mim, mas se o que escrevo vai contra o que elas acreditam, paciência. Se alguém concorda em trabalhar nas condições X, é porque as alternativas não eram melhores segundo a sua própria avaliação, não há escravidão. Não obedecer todas as regras impostas pela CLT também não faz do empregador um senhor de escravos, não importa quantas vezes os jornais, as TVs e os demais puxa-sacos do governo repitam isso. Se vê por aí muita indignação contra a ganância dos empresários, seus lucros exorbitantes e as corporações exploradoras - "o governo tem que contratar mais fiscais e endurecer as leis contra esses malditos sem coração." Mas por que será que quase metade da mão-de-obra no Brasil - fora os desempregados - vive na informalidade? Seria por uma falha de caráter do brasileiro, uma tendência irresistível em não seguir as leis simplesmente pelo prazer de burlá-las? Ou isso teria mais a ver com a falta de contato dessas leis com a realidade? Se as pessoas não conseguem cumprir as normas da CLT - uma legislação inspirada na Carta del Lavoro de Mussolini - de quem é a culpa, das pessoas ou da lei? Esses empregos dos bolivianos da Zara nem existiriam caso eles estivessem formalizados, eles não teriam como competir com os preços de lugares sem os custos da CLT, teriam então que fazer outra coisa da vida, tocar flauta na praça (existe algum sindicato dos flautistas filiado à CUT?) ou voltar pro socialismo-indígena-do-século-21 de onde fugiram. (http://operamundi.uol.com.br/noticias_ver.php?idConteudo=4004).

27 comments:

Anonymous said...

Tenho uma certa tendência a pensar cinicamente a este respeito, o mesmo cinismo para refletir sobre Obama: ruim com ele, pior sem ele. Tenho outra coisa a dizer: e o Morales? Espantoso que bolivianos tenham que se sujeitar a isso por falta de opção no país do índio de butique. Sem contar aquele casaqunho brega que ele usa. E ter tomado a Petrobras na mão grande. Mas sempre resta aquela esperança que os faça ir a Cuba em busca de tratamento. Oremos.

Anonymous said...

Bolivia só serve pra atrapalhar a gente com jogos em La Paz (hahahahaha, La Paz, aquela praça de guerra) e pra roubar bens brasileiros. De que serve um boliviano? O que um boliviano acrescentou ao mundo, além de terem dado aquele tiro em Che Guevara, também conhecido como guerrilheiro Rolex? Nada. Só tráfico, Evos e cantoras detestáveis. Amanhã se a civilização boliviana tirar o time de campo, pouco se nos dá. Nem el condor pasa se salva. Sem contar aqueles chapeuzinhos ridículos.

Anonymous said...

Evidentemente nossos irmãos bolivianos estão sendo explorados no exterior, no lugar de serem explorados em casa. Viver é escolher o lugar onde ser explorado. Eles escolheram o Brasil. Azar o deles.
Noção de escravidão é terreno pantanoso onde não coloco minha botina. Falta-me cultura.

Anonymous said...

Por falar em boliviano escravo, e o chinês contrabandista de São Paulo? Sumiu do noticiário.

sol-moras-segabinaze said...

Se é forçado sob a mira de uma arma, é escravidão.

Se é voluntário por não ter uma opção melhor, não é.

Alexandre Mignoni said...

Você é mais do que um sinal da decadência intelectual de um pais. Você é prova viva dela.

sol-moras-segabinaze said...

hahaha Bem argumentado.

Anonymous said...

Em Campos e em centenas de outros lugares nos cantões do Brasil, há trabalhadores em locais isolados que são obrigados a consumir comida da própria vendinha da fazenda, a preços altissimos, ficam devendo e não podem sair do lugar. Não é nem uma coisa nem outra do que você disse, mas eu peguei o ponto.

sol-moras-segabinaze said...

Bom, acho que chamar esse trabalho dos bolivianos ou dos canaviais de "escravo" é uma injustiça com os verdadeiros escravos, aqueles que não tinham a opção de ir à luta em outra freguesia.

João said...

Aí é que tá, não podendo sair do lugar, por estar devendo, eles não têm a opção de ir à luta em outra freguesia...

sol-moras-segabinaze said...

Por que eles tão devendo? Tem que ver isso aí.

sol-moras-segabinaze said...

Tipo, isso foi acordado ou foi imposto?

da redação said...

o q aconteceu segundo uma matéria que li no site do ccsp é que com eles foi acordado uma coisa e qdo eles chegaram aqui aconteceu outra...e não é primeira vez que isso acontece no brasil com bolivianos...entendo as contradições da CLT e blablabla...
mas falar como se eles tivessem qse que agradecer o fato de trabalharem mais de 12 horas por dia pqe isso é melhor do que eles tinham no país deles, desculpe, mas é muito triste...
ao contrário de nós regidos ou burlando a clt, eles não podem pegar seu boné e ir embora pqe os empregadores retêm os documentos deles e os deixam fechados, vivendo no mesmo local onde trabalham e acumulando "dívidas"!.. falar da clt tdo bem, mas não dá pra acreditar que alguém defenda esse tipo de coisa? a próxima vai ser o que? dizer q criança tem que trabalhar pra ajudar em casa????

sol-moras-segabinaze said...

Não estou dizendo que a situação seja uma maravilha, estou apenas fazendo a distinção entre o trabalho, digamos, precário e o trabalho escravo.

Se os empregadores mantêm os empregados trabalhando à força, então é sequestro, aí é escravidão.

E sobre as crianças trabalhando fora, muitas delas ainda fazem isso hoje em dia (nunca parou num sinal?) e a maioria delas trabalhava no início da Revolução Industrial. A acumulação de capital posterior que deu a chance aos pais de deixarem as suas crianças em casa, o sustento da família não dependia mais do trabalho delas.

João said...

Isso geralmente é omitido, o que impõe o cara a ter que comprar na vendinha do patrão, cujos jagunços o impedem, daquela forma educada com o trabuco em riste, de ir tentar a sorte em outra freguesia.

Não é o caso dos bolivianos em SP; era algo muito comum que se fazia no início do Século 20 com imigrantes, essa gente loura de olhos azuis imperialista do nosso Brasil varonil...

João said...

Quanto aos bolivianos de SP, já entrevistei uma descendente de bolivianos de lá (cuja família havia fugido de uma... reforma agrária, imposta nos anos 50 ou 60) e ela me disse que os caras vêm porque ainda é jogo para eles, em relação à Bolívia.

sol-moras-segabinaze said...

Sim, justamente.

Anonymous said...

A gente tem que lembrar uma coisa, Sol, que é o momento em que a escravidão ocorreu. Era normal. Era uma gente de segunda, sem "civilização" e sem "cultura. O brabo é, 120 anos depois da Lei Aurea, ainda continue a existir trabalho escravo camuflado de "dívidas com o empregador."

Anonymous said...

Ah sim, pessoas com esse nível de educação sabem muito bem escolher. É muito fácil falar o que você fala sendo rico. Seus argumentos não são patéticos e são pseudo bem estruturados, mas em todo blog dá pra ver que falta lastro de vida, não de teoria. Mas nesse post você se mostra melhor, já que comete o erro básico de colocar a escolha na mão de pessoas que não sabem ler. Um indivíduo com um mínimo de experiência no mundo real, sabe que os trabalhadores que são explorados dessa maneira são escravos porque foram tirados de seus locais e seduzidos de forma vil. Fora que as ONGs que denunciam esse tipo de coisa chamam de escravidão na falta de um termo melhor. Está errado e tem que acabar, não interessa o termo. Ao atribuir qualquer atitude de militância ao esquerdismo, você cai no mesmo discurso que critica, quando diz que os comunistas chamam tudo de imperialismo, esvaziando 90% do que consegui suportar ler aqui.

sol-moras-segabinaze said...

Bom, não estou dizendo que essas condições de emprego são as ideais, estou tentando explicar que não é com a criação de leis e a tentativa de aplicá-las de cima pra baixo que as coisas vão melhorar.

E as inferências que você faz sobre a minha pessoa não fazem diferença pra discussão.

sol-moras-segabinaze said...

Por exemplo: não adianta a lei "garantir" os diversos "direitos" que ela garante, é apenas tinta no papel se a produtividade (que não depende só do trabalhador, depende de investimentos em capital) não for superior a esses supostos benefícios.

Se essas leis bem intencionadas tivessem os efeitos pretendidos, por que não determinar então um salário mínimo de 10 mil reais e carga horária máxima de 10 horas semanais?

Anonymous said...

As inferências que fiz sobre a sua pessoa fazem toda a diferença, se você não fosse criado com leitinho com pera não faria os posts que faz. Acho bem irrelevante tudo que li aqui, mas nesse assunto especificamente você falta ao respeito com o lado humano da coisa e causa uma certa revolta em quem tem um mínimo de senso. E nem compensa com algo de profundidade analítica. As pessoas envolvidas não conhecem nem se beneficiam da lei de seu próprio país, quanto mais num lugar estranho. Alguns nem português falavam. Analisando e apurando os fatos com profundidade e seriedade, coisa que você não o faz, é fácil perceber (como na maioria dos casos semelhantes) que trata-se de um esquema montado de tráfico ilegal de pessoas, onde os enstrangeiros são coagidos e enganados. São quadrilhas que agem com má intenção desde o princípio e não tem nada a ver com manter a linha de produção. Não é nem de perto o resultado e consequência de leis trabalhistas. Se as leis fossem diferentes e os encargos fossem menores para o patrão, ainda assim essas quadrilhas continuariam servindo empresas que iriam querer ganhar mais dinheiro ainda. Isso existe em países que tem todo tipo de leis trabalhistas.

sol-moras-segabinaze said...

A sua compaixaum eh tamanha com os bolivianos que voce nega a capacidade deles em saber o que eh melhor pra eles mesmos?

Eh essa a sua definissaum de humanitarismo? Tratar alguns como burros indefesos e outros como aproveitadores venais?

Sandro Menezes said...

É, você realmente não sabe muita coisa da vida. Você já entrou num escola pública de um lugar pobre e viu o professor escrevendo erros gramaticais horrendos no quadro negro? Você teve algum contato com alguém que não teve uma educação como a sua? Se você saísse da sua redoma saberia que sem educação de qualidade o cidadão sequer entende que tem certos direitos. Meu sentimento pelos menos beneficiados não passa nem perto de compaixão. É totalmente racional e prático, já que somente igualando a formação de todos os cidadãos poderei viver num mundo melhor. Por isso tomo medidas reais nesse campo, dando aulas reais e escrevendo livros reais. E não chamei os bolivanos de burros. Eles apenas não tiveram a chance de desenvolver seu repertório natural. Burro é quem teve condições de ser educado e mesmo assim continua limitado. Exatamente o seu caso. Aí sim eu tenho compaixão e pena, os únicos sentimentos que me fazem retornar aqui, pois a revolta inicial já passou e só resta a pena em saber que uma pessoa do meu círculo de convivência seja tão alienada.

sol-moras-segabinaze said...

Sandro, se acalme, respire fundo e entenda que eu também quero o bem dos pobres e da humanidade, os nossos meios (não duvido da sua boa fé) pra se atingir esse fim é que divergem.

Todo o meu esforço aqui é pra tentar demonstrar a validade de algumas idéias: o princípio de não agressão, a auto-propriedade (você é dono de si, eu sou dono de mim e o boliviano é dono dele mesmo) e, como consequência, o livre mercado.

Rotulando, é o que chamam de libertarianismo.

É isso o que te deixou tão chocado?

Anonymous said...

Seu ponto de vista não me choca, tem blog muito pior aí, de nazistas, racistas, etc. Somente nesse post acho que você passou do limite do bom gosto, já que se você estudar o caso direito, poderá perceber que essas pessoas foram claramente vítimas de um processo que ocorre em países que não se enquadram no seu questionamento sobre a "falta de contato dessas leis com a realidade". Em que mundo você vive, cara? Como assim você acha que aquela senhora e os menores de idade não foram aprisionados ali, enganados? Somente na sua mente doentia faz algum sentido achar que alguém defende essas pessoas para "ficar bem na gincana social". Nem o mais inescrupuloso empresário deixou de ficar constrangido com aquelas imagens. E você questiona a lei trabalhista? Ousa dizer que a culpa seria da CLT???? Que vegonha, cara. Muito triste esse post seu, deprimente que alguém pense assim e escreva isso de cara lavada.

sol-moras-segabinaze said...

Sandro, a própria boliviana na reportagem disse que está melhor naquele trabalho do que quando ela estava na Bolívia. Não é uma interpretação minha ou sua, é ela quem está textualmente dizendo isso.

Se alguém aprisiona alguém, isso é crime, claro.

Se a minha tentativa de esclarecer a diferença entre um trabalho, digamos, precário e um trabalho escravo feriu a sua sensibilidade, paciência.

E é claro que eu questiono a CLT, ela é o principal motivo de tanta informalidade e desemprego no Brasil. Ou não é?