Friday, January 15, 2010

Auto-interesse e o direito de propriedade

No texto anterior, eu poderia - ao invés de "egoísmo" - ter escrito "auto-interesse", um conceito que ainda não carrega a carga pejorativa de "egoísmo". Uma má fama, como se viu, tão injustificada quanto anti-natural. Claro que - ao falar da natureza, sobrevivência, leoas e gazelas - não quis equiparar os homens aos demais animais. O homem desenvolveu a
razão e por isso se tornou a espécie dominante. Não estou nem dizendo que isso é bom ou ruim, estou apenas constatando um fato. Como é do interesse do homem não só sobreviver como se desenvolver em sociedade, ele tem que criar mecanismos de convivência. Eu não posso atacar o meu vizinho da mesma forma que uma leoa ataca uma gazela, porque esse tipo de ação pode se voltar contra mim. Por que o meu vizinho não me atacaria também? Seria, como diria Hobbes, "uma guerra de todos contra todos". Então se faz necessário o reconhecimento de uma lei - que alguns chamam de "natural" - que norteie a relação entre as pessoas. Mas qual seria o limite da minha ação em relação ao outro? O bom senso diz que "a sua liberdade termina quando começa a do outro". Mas como saber exatamente onde começa e termina a liberdade de alguém? Através do direito de propriedade. E como determinar o que é propriedade de quem? Vejamos, cada pessoa nasce com a sua propriedade primordial, o próprio corpo. De início, essa propriedade é tutelada pelos seus responsáveis, porque o ser humano não é autônomo logo após o nascimento como alguns outros animais. Ele nasce frágil e, aos poucos, vai tomando consciência do que está acontecendo a sua volta. Quando ele vai deixar de ser tutelado pelos pais ou responsáveis varia de caso a caso, mas a lei brasileira atual diz que essa condição vai do nascimento até os 18 anos. Esse limite não está escrito na pedra e a sua mudança dá um bom debate. De qualquer maneira, cedo ou tarde, a pessoa chega num ponto em que passa a ser responsável pelos seus atos, pro bem ou pro mal. Ela então age no mundo que a circunda com a sua propriedade primordial, o próprio corpo, interagindo com o ambiente com o objetivo não só de manutenção como de aprimoramento da sua existência. Só que essa interação tem um limite, que é o respeito à propriedade dos outros. Ou seja, ela não pode matar, roubar ou fraudar. Suas relações devem ser voluntárias, de comum acordo, cada qual atrás de seus próprios objetivos ("egoísmo"): pessoais, subjetivos e intransferíveis. Por exemplo: eu gosto de comer pão francês de manhã e o padeiro quer me vender esse pão. Ele não acordou de madrugada e trabalhou a massa somente pra me agradar, ele fez isso pra beneficiar a si mesmo, a minha satisfação com o pão francês é apenas um efeito da sua ação. Assim como eu não gastei o meu dinheiro na padaria pra agradar o padeiro, isso também é apenas um efeito da minha ação. A troca se realiza e é mutuamente benéfica. Sim, estou falando da metáfora da mão invisível. Como está provado pra qualquer um que não tenha caído no conto de fadas marxista, a divisão do trabalho e o reconhecimento do direito de propriedade elevaram os padrões de vida a níveis nunca antes imaginados, mas esse progresso não é um dado da realidade como as marés e a rotação da terra. Pra que esse progresso prossiga, as pessoas devem reconhecer os postulados que o garantem, e o direito de propriedade é o principal deles. Porque ele garante que ninguém pode matar ninguém, a não ser em legítima defesa. Garante que ninguém pode roubar ninguém. E garante, finalmente, que ninguém pode escravizar ninguém. Você é dono do seu corpo e de tudo o que ele acumulou através de trocas voluntárias e, se existe uma função pro governo, é a de garantir esses direitos. O governo não deve tirar de uns pra dar pra outros, isso é roubo. O governo não deve te obrigar a fazer o que você não quer, isso é escravidão. O governo deve ser controlado pelos indivíduos, e não o contrário.

Thursday, January 14, 2010

O seu amor ou 100 desconhecidos?

O camarada acha que as pessoas devem ser menos "egoístas", mas cobra o máximo que puder pelo seu trabalho. Ele está sendo "egoísta" e nem percebe, ou percebe e finge que não percebe. O outro deve ser menos "egoísta", mas ele tem salvo conduto pra ser "egoísta", porque "tem que pagar as contas". O outro não tem contas a pagar, o outro deve fingir que os outros são mais importantes pra ele do que ele próprio. Faça o que eu digo, não faça o que eu faço, eis a mensagem nem tão cifrada dos anti-egoístas. Colocar os outros em primeiro lugar, é o que se doutrina por aí como o máximo da moralidade. Uma leoa faminta não coloca os interesses da gazela na frente dos seus, seria como assinar uma sentença de suicídio. Mesmo tendo uma capacidade de raciocínio que a leoa não tem, o homem não deixa de ser um animal. Claro que ele pode racionalizar esse fato com o cérebro que desenvolveu ao longo da evolução, mas isso não muda o fato de que ele também está inserido na natureza e luta pela sobrevivência tanto quanto a leoa ou a gazela. Na sua sobrevivência e daqueles que ele valoriza. Se tivesse que escolher entre salvar a vida de alguém que eu ame muito e a vida de 100 desconhecidos, eu não pensaria duas vezes. E você? Não confunda egoísmo com egocentrismo e seja sincero.

Tuesday, January 12, 2010

A interdição do debate

Ok, eu não devia chamar os comunistas de "jegues", é deselegante. Mesmo porque o camarada pode ser um jegue no pensamento político e um gênio em outras áreas. Só acho um erro desqualificar a crítica de antemão, como se ela não passasse de um ressentimento mal resolvido que encontra vazão num determinado bode expiatório. "Ninguém é perfeito". Concordo, mas - por não ser perfeito - o homem não tem o direito e até mesmo o dever de lutar contra o que considera errado? Há coisas erradas acontecendo por aí, como não? Não posso falar mal da presidência Lula porque isso não passaria de inveja? Não posso afirmar que o liberalismo é um ideal que vale a pena lutar porque estou assumindo com essa defesa que eu sei alguma coisa que os outros ainda não perceberam e isso é muito vaidoso da minha parte? Tenho que ficar calado porque já nasci pecador e a vida não é mais do que um ensaio pra algo maior? Não posso me expressar porque tudo não passa de um jogo de cena pra me justificar? "Por que não olha pra dentro de si antes de sair apontando o dedo por aí?" Uma coisa não exclui a outra, ora bolas. Quem te garante que a minha angústia com os meus próprios problemas não é maior do que a minha angústia com o modo como o poder é exercido? Quem faz essa crítica à crítica está, por acaso, se excluindo dessas mesmas limitações? Essa espécie de apologia do imobilismo intelectual é superior moralmente ao debate calcado em argumentos? Oh, c'mon...

Monday, January 11, 2010

Luís Nachbin no Braseiro

Estava almoçando sábado no Braseiro da Gávea junto com a fina flor da sociedade mundial, quando uma das ilustres comensais (ha!) me apontou pro Luís Nachbin, que almoçava ao lado com - imagino - a sua senhora. Como sou fã do cara e já tinha bebido uma caipirinha (coada, a new phase), nem pensei duas vezes antes de perturbá-lo dizendo que gostava do seu programa etc e tal. Uma criatura doce o Nachbin, ficou amarradão de conversar comigo, ainda mais quando percebeu que eu realmente acompanho o seu trabalho no Canal Futura, em que ele embarca pros lugares mais exóticos sozinho com a sua câmera. Falei que sabia que ele tinha acabado de entrevistar a Yoani Sánchez (http://www.desdecuba.com/generaciony/) e, sem querer, acabei entrando mais uma vez num assunto político. A Yoani faz um blog de sucesso questionando a ditadura cubana e o Nachbin disse que o povo cubano - mesmo com todas as restrições - ainda é muito alegre. Retruquei que eles poderiam ser ainda mais alegres (e prósperos) se não fossem tão tolhidos pelo regime. O Nachbin então falou que o regime devia se abrir mais, "mantendo as conquistas na saúde e educação". Deu um dó no meu coração ver aquela figura caindo no conto-clichê do Fidel e das esquerdas em geral. Como não me interessa ficar discutindo política a 3 por 4 por aí, reiterei a minha admiração pelo seu trabalho e o deixei em paz com a sua senhora.

O socialismo no século 21 e as suas conseqüências

Tava zapeando ontem (sou realmente bom nisso) e caí num daqueles canais públicos que, mui discretamente, passam aqueles documentários "retratando a história do Brasil" sob uma ótica gramsciana ou, no mínimo, estatista. Quem falava era o Jacob Gorender, militante histórico do PCB que, ainda na década de 50, defendia que a tal "ditadura do proletariado" poderia ser alcançada pela via democrática. Ele não era bem um "proletário", mas um intelectual burguês, você sabe como funciona esse papo de dialética, não é mesmo? Se safam de qualquer prurido lógico e moral com essa picaretagem. Essa mudança de foco da ruptura revolucionária leninista pra dominação cultural dos postulados marxistas até a tomada do poder através do voto caracteriza o socialismo atual. Então não é surpreendente perceber que, entre os cacoetes verbais que caracterizam a esquerda atual, a palavra "democracia" foi alçada à instância máxima da embromação semântica como justificação do controle da sociedade pelo Partido. No caso brasileiro, o PT. Se a presidência Lula foi marcada por uma certa ortodoxia econômica, longe das antigas ameaças de moratórias e heterodoxias afins, isso não significou de maneira alguma uma capitulação dos velhos comunas à economia de mercado e à propriedade privada. Se tratou de uma inflexão tática, porque sabiam que não havia clima pra baixar de uma vez o decreto socialistóide que agora - aproveitando a popularidade do atual presidente - tentam enfiar goela abaixo dos brasileiros sob o manto dos "direitos humanos". A tortura que é infligida aos conceitos e palavras por essa gente é realmente digna de nota, verdadeiros mestres da inversão. A cartilha segue exatamente a trilha iniciada pelo personagem bolivariano da "Praça é Nossa", Hugo Chávez. Alguns jornalistas amiguinhos do poder já trataram de tirar o dedo do Lula dessa história, dizendo se tratar apenas de "uma satisfação que o presidente dá à ala mais à esquerda do PT". Ou seja, ele aprova, mas não aprova, entendeu? É a dialética, senhoras e senhores. Tomara que o tal decreto seja derrubado, mas ali está uma verdadeira carta de intenções que deixa claro o que quer o governo. Como nada do que vai ali é novidade no mundo, já dá pra prever o que vai acontecer caso aquilo seja realmente implementado. Temos, neste exato momento, um exemplo logo aqui do lado, a Venezuela. É realmente fascinante perceber que - não importa aonde - o controle da economia pelo estado nunca funciona. Isso não é o suficiente pros comunas desistirem da utopia, são teimosos e inteligentes como uns jegues, com todo o respeito aos jegues. Enfim, como é sabido pela teoria e pela prática (temos experiência nisso), controle de preços resulta em escassez do produto e estímulo ao mercado negro. Como a escassez na Venezuela já atingiu a geração de eletricidade, o personagem da "Praça é Nossa" venezuelano determinou que todos os estabelecimentos comerciais fechem mais cedo pra poupar energia. Jaula pra quem descumprir o decreto de Vossa Excelência, tudo no interesse do povo, obviamente. Em mais uma tentativa de evitar o inevitável, o retardado agora tenta fazer uma mágica com o câmbio pra "reduzir as importações e estimular a produção nacional", arenga bem conhecida dos brasileiros "desenvolvimentistas". Como os preços não se curvam a decretos, lá vem uma inflação tremenda, que vai ser debitada pelo governo, naturalmente, na "ganância da burguesia". É um filminho tão manjado que dá até preguiça de comentar. Resumindo, funciona assim: o governo faz uma cagada fenomenal e coloca a culpa nos efeitos (aumento de preços), ignorando as causas (descontrole fiscal). O Chávez também diz que (prepare-se) "os preços continuam regidos pelo capitalismo selvagem, e o governo e o povo têm de acabar com isso". O "povo" é mais uma vez acionado na nova tentativa do amigo do Lula de revogar a lei da oferta e procura. Como todo louco, diz que vai transformar o país "em uma potência" com essas medidas. É caso de internação imediata, mas infelizmente esse camarada comanda um país vizinho. Pra finalizar, tratou de apontar o bode expiatório quando ficar claro que as suas políticas vão levar a Venezuela definitivamente pro buraco: "Os filmes do capitalismo nos metem na cabeça o consumismo. Fazem telenovelas para envenenar nossos filhos, para incitá-los ao consumo de drogas. Estive há pouco tempo em Cuba e lá não passam telenovelas capitalistas, mas sim de conteúdo social". Duas coisinhas: ninguém mete na cabeça de ninguém o "consumismo", consumir é uma necessidade humana de sobrevivência. Quando um indivíduo atinge um certo nível de prosperidade - que só é possível ao se respeitar certas regras - ele pode então se engajar no consumo de produtos de luxo. Não há nada de errado nisso, aliás, se a sua riqueza é resultado de trocas voluntárias. Outra, os cubanos são obrigados a assistir às tais novelas com "conteúdo social" (socialismo). Não há opção, a doutrinação é compulsória. São esses os amigos e modelos do PT, é isso o que acontece quando o que essa gente defende é colocado em prática. Depois comento com mais calma o programa de "direitos humanos" do "cara" e sua escolhida.

Wednesday, December 30, 2009

"O Globo" e a mentalidade dominante

Cada vez menos pessoas lêem jornais, mas eles continuam sendo uma boa amostra do que se pensa por aí. Uma pessoa que lê jornal é considerada, em relação à média, alguém com uma boa formação intelectual, alguém capaz de influenciar a visão de mundo dos outros. Então vou comentar aqui algumas notícias e opiniões dos principais jornais brasileiros, começando pelo "O Globo" de hoje, 30 de dezembro de 2009. A parte de Ciência tem se dedicado há alguns anos a propagandear a tese do aquecimento global antropogênico. Quem lê apenas o "O Globo" fica com a impressão de que os únicos a questionar essa tese são pessoas egoístas com interesses econômicos inconfessáveis, ao contrário dos seus proponentes, altruístas que não têm interesse pessoal algum a não ser salvar o planeta enquanto é tempo. (http://www.midiaamais.com.br/ambientalismo/1917-climategate-siga-a-trilha-do-dinheiro) (http://www.midiaamais.com.br/ambientalismo/1965-outra-fraude-ambientalista) Chegando à seção de Negócios, há uma entrevista muito laudatória com o presidente do Banco do Brasil. A repórter trata o banco público como se a concorrência com os privados fosse igual e diz que "o Banco do Brasil se destacou no pós-crise pela oferta de crédito num período de completa escassez. Ganhou 2% de participação no mercado". Claro, é fácil subsidiar o crédito quando você controla a oferta monetária, não é verdade? Todo o sistema bancário é um cartel controlado pelo governo, mas isso a repórter não diz. "Porra Sol, o 'O Globo' não é um veículo libertário!". Eu sei, estou aqui justamente pra apontar que ele está ali defendendo os seus interesses, inclusive o de não comprar briga com quem manda no dinheiro. Um jornal libertário diria que não deveria existir banco público de espécie alguma, seja um que cartelize a atividade bancária e controle a emissão monetária (Banco Central), um que dê crédito subsidiado aos amigos do rei (BNDES) ou um que faça populismo demagógico com o dinheiro dos outros (Banco do Brasil). Esses instrumentos dão um poder imenso aos políticos e burocratas e, a não ser que você assuma total honestidade e conhecimento desses agentes, isso é arbitrário e perigoso. Depois a Míriam Leitão comenta a eleição do Ben Bernanke, atual presidente do FED, como "homem do ano" pela revista Time. Alan Greenspan também foi eleito várias vezes "o homem do ano", até que a sua política de juros artificialmente baixos causou a atual crise. Mas essas revistas fizeram um mea culpa? Not even close, elegeram como "homem do ano" o sucessor que está fazendo exatamente o mesmo que Greenspan, praticamente zerando os juros e preparando o terreno pra próxima bolha, que - quando estourar - será debitada naturalmente na conta da "desregulação do mercado" pelos estatistas que comandam essas publicações. A Míriam termina dizendo que "o ano termina sem o medo de uma depressão, mas com a sensação de que os dilemas da crise foram apenas adiados e que o resgate à moda Bernanke confirmou a ideia de que no mercado financeiro os lucros são privados, os prejuízos públicos". Sim, os lucros são privados, mas a articulista se esquece de dizer que esses "privados" são aqueles que vivem em simbiose com os representantes públicos, os políticos e os seus bailouts de trilhões de dólares. Por que não se questiona a raiz disso tudo? Não parece razoável inferir que - havendo os instrumentos pra isso - os políticos teriam todos os incentivos pra beneficiar aqueles nobres patriotas que bancaram as suas eleições? Se concentram num sintoma e esquecem de apontar a causa. No Segundo Caderno, o Artur Xexéo publicou uma carta inacreditável mandada pela Fernanda Young, muito irritada por ter sido uma das eleitas como "mala do ano". Sempre que alguém metia o pau nela, eu tendia a defendê-la, pelo menos mentalmente. Mas a prepotência joselita da sua carta ao Xexéo era tão grande, mas tão grande, que faço aqui o mea culpa, ela é mesmo uma "mala". Bonitinha, mas "mala". O jornal pode ser um grande instrumento na manutenção do status quo, mas pode ser divertido também. Como estamos num caderno brasileiro de cultura, a relação com o estado é onipresente. Lá está a manchete: "Lula sanciona Simples da Cultura". Acho ótimo que o governo diminua impostos e burocracia, acho terrível que ele tenha o poder de agradar esse grupo ou aquele, dependendo do seu interesse. Todos ficam reféns do estado e o iluminado da vez ainda sai na foto como um benfeitor das artes. O Lula, aliás, deve ter um índice de aprovação entre a "classe artística" maior do que o que tem no nordeste, ou seja, beirando os 95%. Quem vai falar mal do governo se depende da aprovação dele pra viabilizar os seus projetos? Pra fechar o caixão da cultura, uma entrevista muito favorável à comunista do Brasil Jandira Feghali, secretária municipal da cultura. Na editoria Rio: "4 mil máquinas caça-níqueis são destruídas no Rio". Não encontrei uma palavra melhor que "estupidez" pra qualificar a guerra contra o jogo empreendida pelas autoridades. Guerra contra o jogo que não seja estatal, bem entendido, porque o governo não admite concorrência. Tá lá a escavadeira esmagando as máquinas e ilustrando toda a imbecilidade (vou controlar a minha adjetivação) que norteia a política que tenta nos proteger de nós mesmos. É o contrário, meu povo, a gente é que tem que se proteger contra o governo, é contra ele que a nossa desconfiança deve estar voltada. Ou vocês não têm ainda exemplos o suficiente de mau trato da coisa pública? Por que o jogo do bicho é proibido? Por que os cassinos são proibidos? Por que os bingos são proibidos? Eu queria proibir o estado de dizer onde eu posso gastar o meu dinheiro, mas tá difícil. Como o Réveillon se aproxima, já estão sendo montados os palcos oferecendo o circo pro povo em Copacabana. Claro que as pessoas que moram por ali e não estão interessadas em confraternizar com milhões de desconhecidos de branco não gostam tanto assim da idéia, mas se a maioria gosta, o que há de se fazer? Tapem os ouvidos e os narizes, porque aquilo ali vai virar um banheirão. "Fiscalização da Lei Seca será reforçada nas festas de fim de ano" Por que seria diferente? Os agentes da lei também são filhos de deus e merecem fazer uma caixinha, tudo pelo bem comum, obviamente. Outra coisa que me alegrou sobremaneira foi a decisão da prefeitura em proibir o churrasquinho no Piscinão de Ramos. O poder público gosta tanto de pobre que o proíbe de comer o seu tira gosto favorito. Se não fosse pelo poder público, os pobres sairiam por aí se intoxicando, porque é isso o que os dementes e os incapazes fazem, não é verdade? Obrigado mais uma vez por me proteger de mim mesmo, senhor prefeito. Sim, sou pobre também, quer ver a minha conta? O Réveillon da Barra também suscita polêmicas. A questão é: rave ou pagode? Nem passou pela cabeça da reportagem dar uma outra opção: música alguma, silêncio. Que tal? Por que o pessoal que mora na orla tem que aturar música alta, qualquer que seja o gênero? Esse bundalelê carioca que vai do Natal até o Carnaval deperta em mim os instintos mais primitivos, tenho que admitir. Tentando ignorar - com todo o respeito - a coluna e o mulato do Gois, chego à notícia que pra mim simboliza a administração municipal: "Prefeitura convoca o Cacique Cobra Coral". Querem evitar a chuva na virada do ano através de uma médium. É pra essas e outras que vai o dinheiro do seu imposto, nobre "contribuinte". Une-se o poder da força (estado) com o poder do misticismo (Cacique Cobra Coral) pra dar um pouco mais de racionalidade numa festa que sempre se notabilizou pelo seu apelo científico, como diria Iemanjá. Nas páginas de opinião, o Elio Gaspari segue cometendo os seus artigos. No último, ele dá uma forcinha pra que o Obama consiga transformar o sistema de saúde americano numa espécie de SUS estadunidense. "Saúde de graça para todos", é o que o SUS promete. O que ele entrega não interessa aos bem intencionados dizer, porque saúde, educação, lazer, moradia são direitos de todos e ai de quem questionar o conto de fadas em que esses paladinos da justiça social vivem. É, tomara que os EUA imitem o SUS, talvez assim eles saiam da estagnação tecnológica em que se encontram e sigam os gloriosos passos do Brasil nessa área. A humanidade e o Elio Gaspari agradecem. Sobre o ataque a brasileiros no Suriname, um antropólogo diz que o fato tem a ver com o "tráfico de brasileiros". Como é que se "trafica" um ser humano? Se a pessoa está indo contra a sua vontade, não é "tráfico", é sequestro. Se está indo voluntariamente, não há "tráfico" algum - como se a pessoa fosse um objeto sem vontade própria - há apenas a imigração ilegal. E pra completar, a treta da época da ditadura militar entre as forças armadas e os comunistas. Como um companheiro dos comunistas conseguiu ascender ao poder, eles trataram de colocar as manguinhas de fora e conseguiram indenizações milionárias por terem tentado transformar o Brasil numa ditadura do proletariado. Como dinheiro não é o bastante, agora instituíram uma Comissão da Verdade (http://pt.wikipedia.org/wiki/Minist%C3%A9rio_da_Verdade_%281984%29) pra se vingarem de vez dos militares que frustraram os seus planos totalitários. Uma ditadura militar desastrada, como não poderia deixar de ser, mas menos nefasta do que seria com a vitória dos guerrilheiros. Alguma dúvida?