Friday, May 27, 2011

Green peace, war on mankind 3


"Sol, parece programa da Regina Casé, mas quando a gente está escrevendo estas poucas linhas você sabe quantos hectares estão sendo desmatados? Quinhentos por dia. Multiplica por dez mil metros..." O novo código preserva, pelo menos no papel, 70% dos chamados biomas, sobrando 30% do território pras atividades humanas. Se é essa a proposta que deixou os ambientalistas furiosos, quem é que não está sendo razoável? "Sol, pergunta pro pessoal de Itaunas, no Espírito Santo, o que eles acham dessa cascata de maré enchendo." Ninguém constrói as suas casas perto do mar esperando vê-las engolidas pela natureza, o que não é o mesmo que dizer que esse evento foi causado por X (ação do homem) ou Y (ação do homem). "Sol, o problema é que dá pra consorciar hortifrutis com floresta, mas e a ganância de derrubar aquela tralha toda e vender no mercado negro?" O mercado negro acontece, por definição, quando o governo lança restrições à atividade econômica. Foi assim com a Lei Seca nos EUA e é assim com a atual guerra contra as drogas. O Greenpeace, a WWF, a Fundação Ford e todas essas ONG's podiam deixar de fazer lobby em Brasília pra manter as florestas brasileiras virgens à força e podiam, com esse dinheiro economizado, comprar grandes extensões de terra, cercá-las e mantê-las intocadas do jeito que eles querem. "Dá pra criar boi estabulado, aproveitando esterco pra plantação ou biodigestor, mas dá trabalho. O que os pessoal não quer é trabalho." Se esse esquema não tem como competir com outros esquemas de maior escala, o que fazer? Proibir a criação extensiva de gado? O caminho pra essa produção mais "ecologicamente correta" passa mesmo por esses selos de consumo "verde" ou "consciente", em que as pessoas aceitam pagar um pouco mais por isso. É assim com o boi estabulado assim como com qualquer outro produto raro e diferenciado. "Jogar um cigarro no mato seco é sempre mais fácil, e sempre dá pra botar a culpa na combustão espontânea. Depois solta a boiada no capoeirão e não se fala mais nisso." Olha o que eu li por aí nas minhas pesquisas: "Quando uma floresta, primária ou secundária, é derrubada para o plantio de alimentos, caso o agricultor não tenha condições de utilizar um maquinário altamente caro, não há outra coisa a fazer a não ser colocar fogo na área. Além de ser uma forma muito prática de limpar uma área para plantio, o fogo traz outro benefício: as cinzas. Estas elevam a fertilidade de um solo ácido. As cinzas são um material alcalino, portanto diminuem a acidez dos solos e fazem com que seja eliminada a nocividade de certos elementos, como o alumínio, por exemplo." "Sol, eles desmatam para satisfazer as necessidades deles mesmos. Não tem ninguém que fica pedindo pra hortifruticultor desmatar para plantar roça de batatinha." Isso é muito bom pra ilustrar a metáfora do Adam Smith sobre a "mão invisível": ninguém pediu pro agricultor plantar roça de batatinha, ele o fez por interesse próprio, claro, mas esse interesse próprio acaba - como efeito colateral - beneficiando todas as outras pessoas por aumentar a oferta de alimentos e diminuir os seus preços. "Sol, se o governo não determina isso de cima para baixo não tinha mais floresta amazônica." Grande parte da floresta amazônica já pertence ao governo e é nas barbas dele que acontecem os desmatamentos. "Vai por mim, Sol, se não tem Lei Seca nego sai doidão do buteco dando porradão de carro e matando gente que tá chegando em casa de cara limpa." O abuso de uns não deveria tolher o uso de todos. O problema é de impunidade, que tem a ver com o esvaziamento da responsabilidade individual, que tem a ver com a tutela governamental. Ao invés de punir de antemão todas as pessoas que bebem uns chopps ou umas taças de vinho e continuam perfeitamente capazes de guiar os seus carros com segurança, podia-se começar a punir com agravante quem causa acidentes embriagado ou dirige de forma agressiva e ameaçadora, mas isso ia dar mais trabalho e ia render menos multas. "Caramba, se com o Governo enchendo o saco a realidade ambiental brasileira é essa pouca vergonha de gente fazendo o que quer na terra dele, imagina sem." O governo, do jeito que está configurado, é o problema e não a solução. "Sol, o homem chegou por último nesse vale de lágrimas e detonou o planeta." A vida não é só sofrimento, vamos combinar. "Não quero que matem todo ser humano mas que pro planeta seria melhor, isso não tem a menor dúvida." O planeta não tem consciência pra saber o que é ou não é melhor pra ele, esse é um julgamento humano. "Agora que a gente sabe após breves cinco milhões de anos como construir uma civilização (embora devamos considerar que em muitas regiões brasileiros isso está muito longe de acontecer) é hora de usar essa expertise (palavra que odeio) pra fazer as coisas bem feitas." Toda discussão construtiva vai nesse sentido de melhorar as coisas. "Eu também mato uma porrada de mosquito, parada e por mim tudo quanto é mico estrela poderia ir pro beleléu - sem falar nos pardais, maravilhosa contribuição lusitana à Terra Brasilis - mas não acho bacana ficar matando onça só por esporte." A tendência é que a própria pressão social diminua a prática desse tipo de "esporte". "Você conhece coisa mais grave na categoria perverter a ordem outrora pacífica e idílica do que jogar uma bomba atômica no atol de Mururoa, no paraíso do Pacífico Sul?" O homem não é um anjo, senão seria chamado de "anjo" e não de "homem". Anjos não existem, homens existem. Se a humanidade avançou a tecnologia a ponto de criar uma arma dessas, o que vai se fazer? Proibi-las - regra que criminosos, por definição, não respeitam muito - ou cuidar pra que não se criem situações de conflito em que exista a chance delas serem usadas? "Bicho come bicho por sobrevivência, mas só um bicho mata outro bicho para botar a cara empalhada na parede da sala, como peça de decoração. Não conheço nada mais perverso do que matar por esporte e expor a morte por ostentação." Adoro certos animais e considero desprezível quem maltrata ou mata os bichos por diversão, o caminho é mesmo o da denúncia, do boicote social. "O homem também não vive um dilema moral ao matar um bicho pra botar a pele no chão, como peça decorativa. E deveria viver." Antigamente, uma pele de animal tinha diversas utilidades práticas pro homem, como se aquecer, por exemplo. Hoje em dia com o surgimento de outros materiais isso não é mais necessário (pelo menos nas sociedades mais industrializadas), então a pressão social e o avanço da civilização cuidam pra que isso aconteça cada vez menos.

Thursday, May 26, 2011

Green peace, war on mankind 2

"Qual o posicionamento na questão ambiental você considera plausível?" O direito de você usar a sua propriedade termina quando se inicia a propriedade do outro, ou seja, o dono da terra pode plantar, criar gado ou o que quiser dentro da sua propriedade desde que a sua ação não prejudique o outro, e isso serve na sua relação com o outro tanto na cidade quanto no campo. "Ou melhor, o que você considera ambientalismo não xiita?" Tudo o que eu disser aqui vai ser considerado "xiita" por quem imagina que a amazônia esteja acabando, que as marés estejam enchendo e que alguma catástrofe está prestes a acontecer caso o governo não multe ou prenda os agricultores e pecuaristas que não respeitam as regras e limitações impostas ao uso das suas propriedades. Se o homem quer frutas, verduras, legumes e cereais, ele tem que plantar; se quer carne, tem que criar animais. Ninguém desmata por sadismo, fazem isso pra satisfazer as necessidades e desejos das próprias pessoas. "Ou ainda, não há nada que preste no ambientalismo?" Eu também quero ar limpo, florestas frondosas e rios despoluídos, só não acho que o governo determinando isso de cima pra baixo sem levar em consideração as pessoas seja a solução. "E, se assim for, como você lida com as questões envolvendo o homem e o meio ambiente?" O homem também faz parte do meio ambiente, ele não é um forasteiro que veio perverter uma ordem outrora idílica e pacífica. Seres vivos se alimentam de outros seres vivos, um leão não vive um dilema moral ao atacar uma gazela, e essa é a diferença entre os animais irracionais e o homem, a sua consciência. Só que essa consciência - se quiser continuar operando, ou seja, viva - não o exime de lidar com a estrutura da realidade, pelo contrário, foi justamente ela quem permitiu à humanidade acumular conhecimento ao longo do tempo pra construir uma civilização em meio a um ambiente hostil.

Wednesday, May 25, 2011

Green peace, war on mankind

Depois que o sacrifício do indivíduo ao coletivo (socialismo) não deu os resultados esperados, outra forma de controle devia ser encontrada, então a onda agora é sacrificar o indivíduo à natureza (ambientalismo). É a inversão de sempre: o governo não deve satisfação aos seus cidadãos, os cidadãos devem satisfação ao seu governo; a natureza não deve ser usada em benefício do homem, o homem deve ser usado em benefício da natureza. O ambientalista parte do princípio de que se algo não for feito já, se o homem não repensar (restringir) o seu consumo, a natureza vai pro brejo. Claro que o brejo continua fazendo parte da natureza, assim como o homem e tudo o mais que existe. Esse ambientalismo xiita, como qualquer outra religião, também tem a sua escatologia e o seu profeta, Al Gore. "Olha aqui, humano ganancioso e desprezível, se você continuar desmatando pra plantar ou criar gado, a Terra vai acabar, pau nos ruralistas exploradores de Gaia!" Assim como os comunistas não gostam dos comerciantes, os ambientalistas também não gostam dos ruralistas, percebe o padrão? Acontece que nada indica o fim do planeta, o mar de Ipanema ainda não invadiu a Vieira Souto e mesmo a tese do aquecimento global já é desacreditada pela própria ONU, sendo chamada agora de "mudança climática". "O tempo mudou, culpa do desmatamento e do combustível fóssil!" Psicologizando o assunto, poderia-se especular que, da mesma maneira que os comunistas não gostam (ou dizem não gostar) do individualismo porque não apreciam muito o que vêem no espelho, os ambientalistas parecem não ter também uma opinião muito positiva sobre a própria espécie. Então o homem vira a última das prioridades do homem, pensamento que eu, membro da espécie, não tenho como apoiar.

Monday, May 23, 2011

Página 26 do Mundo

O que me chama a atenção nessa pendenga eterna entre israelenses e palestinos é o modo quase unânime como os brasileiros que se metem a falar de política se posicionam, tomando automaticamente as dores dos palestinos. Não que isso surpreenda, porque o padrão ideológico aqui é fácil de detectar: se é contra os EUA (o "imperialismo"), o capitalismo (o "instrumento de opressão imperialista") e Israel (os judeus aliados dos inimigos imperialistas), o brasileiro-médio-representante-do-zeitgeist-mental vai ser a favor. A pessoa não precisa nem ser uma comunista hardcore pra se encaixar nessa generalização, basta não querer destoar muito do que se diz por aí. Esse confronto na opinião pública segue o conceito de guerra assimétrica: cobra-se toda a retidão de um lado (Israel) e exime-se, de antemão, qualquer culpa do outro (Palestina). Então quando o Hamas prega a destruição da "entidade sionista" e joga foguetes a esmo em Israel, o estado judeu não pode nem reagir, justamente por ser mais forte, o que caracterizaria uma "reação desproporcional". Ficar ao lado do mais fraco por ser o mais fraco não é (ou não deveria ser) critério de justiça. Mas isso tem uma explicação que também passa pela ideologia: se a pessoa assume que A ficou forte e rico porque "explorou" B, então todo o contexto se torna secundário; B está certo e tem o direito de jogar bombas, enquanto A tem o direito de receber bombas na cabeça sem dar um pio até criar vergonha na cara e deixar o Oriente Médio totalmente dominado pelos iluministas muçulmanos.

Thursday, April 07, 2011

Camelo e o "fundamentalismo materialista"

Antes de comentar a reportagem do O Globo com o Marcelo Camelo, devo dizer que gosto do Los Hermanos e das músicas dele junto com o Hurtmold, só que nada disso faz diferença pra discussão, a questão é de princípio. "O compositor acusa, no fundo dessas questões, o que chama de "fundamentalismo materialista". Um pensamento que sustentaria a reação ("De uma classe média dateniana, com um caráter denuncista escroto") à autorização dada pelo Ministério da Cultura para que o blog de poesia de Maria Bethânia captasse R$1,3 milhão." O valor é subjetivo, mas, nesse caso, o dinheiro é público. Não adianta evocar o Datena pra tentar desqualificar quem questiona essa política de escolher A em detrimento do resto do alfabeto. Qual o critério pro governo escolher A e não B, C ou D? Denunciar essa arbitrariedade não é "escroto", escroto é achar que o artista A tem direito ao dinheiro de todos, inclusive daqueles que não concordam com isso ou não gostam desse artista. "As pessoas entendem o valor de uma barra de ouro, mas não entendem o valor de Bethânia declamando poesia." Quem entender o valor de um blog de poesia da Bethânia pode, voluntariamente, colaborar financeiramente com ele. Quando se mete o governo no meio, esse aspecto voluntário desaparece, você vai ter que pagar mesmo que não queira. Ninguém é obrigado a dar valor ao ouro, todos são obrigados a dar valor aos escolhidos do MinC. "Da mesma forma, pensam que é justo baixar música de graça (...)" A única maneira de se cobrar pelo partilhamento de arquivos é controlando a internet, inclusive a troca de e-mails. A web é fluida demais pra isso funcionar, mas veja por outro lado: por causa dessa facilidade de acesso às músicas, mais pessoas passam a conhecer e gostar do trabalho do artista, que pode então ganhar dinheiro fazendo shows, por exemplo. "(...) não pagar direito autoral em baile de carnaval. Sem música do Braguinha você não faz baile!" Como é que se calcula isso? Uma banda de bloco ou baile toca "A cabeleira do Zezé" e passa a dever quanto pro João Roberto Kelly? Vai ter em todos os blocos e bailes um fiscal do Ecad anotando: "tocou duas do Braguinha por 10 minutos, 5 do Kelly por 20 minutos, etc"? Saíram uns mil blocos nesse último carnaval, tem fiscal suficiente pra controlar tudo isso? E quem vai pagar esses fiscais? E quem vai fiscalizar esses fiscais? Se eu assoviar a música da Rebecca Black pra fazer uma graça, eu vou estar devendo algo a ela? Se eu pegar o violão e tocar uma música do Camelo numa rodinha (é só uma hipótese), tenho que pagar direito autoral também? "O segurança ganha, o cara que vende confete ganha, só o autor, que dá sentido àquela festa, não ganha." Eu entendo que esse seja um debate complicado, mas fico curioso pra saber como vão fazer pra cobrar por cada música executada em cada festa que se faz no Brasil se mal conseguem fiscalizar o que se toca na rádio. "Nesse debate, estou à direita da direita. Se for questionar propriedade, questiono primeiro a da barra de ouro, um elemento químico que existe independentemente de nós." O ouro pode existir independentemente de nós, a barra de ouro não, é um processo longo e trabalhoso desde extrair o ouro da natureza até transformá-lo em barra. Você pode pegar uma barra de ouro, você não pode pegar uma música. A barra de ouro é tangível, a música não. O João Roberto Kelly pode continuar tocando as suas marchinhas mesmo quando outras pessoas as executam, o dono de uma barra de ouro não pode mais usufruí-la se alguém roubá-la. O ouro é escasso, a capacidade de se executar uma música - ainda mais na era digital - não. Agora, se você quiser que o próprio João Roberto Kelly execute as suas próprias músicas, ele tem todo o direito de cobrar e você tem todo o direito de pagar ou não. O caso Bethânia não deixa escolha: o MinC já decidiu e você tem que pagar mesmo que não queira. O valor é subjetivo, mas, nesse caso, o dinheiro é público e isso faz toda diferença. (http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2011/04/06/marcelo-camelo-lanca-disco-elogia-sao-paulo-se-diz-direita-da-direita-na-questao-dos-direitos-autorais-924176443.asp)

Monday, March 14, 2011

O senso comum e o bom senso

Volta e meia se lê que a era das ideologias já era, que o lance agora é ser "pragmático". Tenho a impressão de que esse raciocínio parte normalmente de pessoas que professavam uma ideologia (socialismo) que se mostrou inviável e que, pra não reconhecerem o triunfo intelectual do que sempre combateram (liberalismo), se refugiaram numa ideologia sem princípios, o que é muito conveniente quando se tem a arma na mão (governo). O PT chegou lá e viu (ou já sabia) que não seria possível aplicar o socialismo que sempre defendeu, mais "pragmático" seria aparelhar o máximo possível o estado brasileiro e comandar um capitalismo de compadres, com o governo "fomentando" o desenvolvimento. Claro que as únicas coisas que esse tipo de governo consegue "fomentar" são a inflação, a corrupção, a dependência, a violência, a ineficiência e o enriquecimento dos seus grupos de interesse favoritos às custas dos demais, mas aparentemente essa é a vontade da maioria - "justiça social" - vamo que vamo. Porque, de fato, a economia e a política não operam no vácuo, elas estão subordinadas aos valores predominantes na sociedade, você não pode esperar uma cultura tolerante com as diferenças num lugar como o Oriente Médio, por exemplo, que ainda não separou o estado da religião. Imagine a combinação da força do poder com a irracionalidade da religião e tenha uma idéia da confusão. A chegada da democracia num país desses não vai operar milagres, um povo majoritariamente tosco vai ter sempre um governo tosco. Passar de uma cultura tribal pra uma civilizada não acontece de uma hora pra outra, mas pra que essa evolução tenha o mínimo de chance de acontecer são necessárias algumas condições: Que as pessoas não estejam engessadas num determinismo paralisante, o ser humano tem livre-arbítrio. E que as pessoas tenham a noção de que pra determinados fins existem idéias melhores que outras e que é possível distingui-las através da experiência e do julgamento racional. Claro que mudanças são sempre difíceis, ainda mais com a quantidade de interesses em jogo. É complicado iniciar um debate desses por aqui, porque quando os centros irradiadores de idéias não estão tentando glorificar ou justificar o status quo (afinal de contas, o status quo paga as suas contas), apresentam como alternativa uma concentração ainda maior de poder. Então quando os poucos que se incomodam com o modo como o poder é exercido tentam encontrar respostas, a intelligentsia oficial lhes garante uma prescrição teórica que agrava ainda mais o que se pretendia curar. A saída é organizar-se em lugares ainda não totalmente cooptados pelo poder, como a internet, pra desmontar os mitos que formam o senso comum que legitima o avanço do governo sobre as liberdades individuais. Porque há o senso comum e o bom senso, o primeiro doutrinado pelas escolas e meios de comunicação em simbiose com o governo e o segundo resistindo o quanto pode ao ataque dessas forças. O senso comum é criado pelo ambiente de idéias convenientes ao poder e o bom senso é criado pela própria necessidade de sobrevivência do ser humano. Um é subordinado às circunstâncias do momento, o outro à própria natureza do homem.

Wednesday, February 23, 2011

A liberdade de um termina quando:

Muitos olham pro modo como o poder é exercido e não conseguem imaginar como as coisas poderiam ser diferentes, mas a política é dinâmica e o que parece consenso hoje pode virar controvérsia amanhã. A escravidão no século 18, por exemplo, era fato consumado e os poderosos da época nem queriam imaginar como aquele arranjo pudesse depois ser questionado e finalmente abolido. Hoje se percebe o absurdo de se possuir outro ser humano, mas na época era o de praxe, "sempre foi assim, por que mudar?" Não importa se "sempre foi assim", isso não torna certo o errado, mesmo que o equívoco conte com o apoio da lei ou da maioria. Como o ser humano tem a capacidade de abstração pra imaginar outras possibilidades, o desejo de alterar o que se considera errado é permanente. E ao mesmo tempo em que todos concordam que há espaço pra melhora, poucos concordam sobre o modo de realizar essa melhora. Quer dizer, há uma certa convergência de valores e conveniências que resulta no que se conhece como o "sistema", mas esse arranjo é instável, são muitos interesses em jogo e a sua sustentação depende de condições econômicas objetivas e uma mentalidade dominante que o dê legitimidade. Então se as pessoas concordam que a educação deve ser controlada e fornecida "de graça" pelo governo, é isso o que elas vão ter, num ciclo que se retroalimenta: como o governo controla a educação, os seus agentes vão ter todos os incentivos pra fazer a apologia desse controle e a maioria doutrinada vai acabar encarando esse arranjo como algo tão natural como a lei da gravidade. Só que a educação controlada pelo governo não é uma imposição física da realidade, é uma imposição construída pelo homem, que - como a escravidão - também pode ser abolida pelo homem. Mas por que eu tô falando isso? Porque se hoje não há mais uma escravidão explícita como a do século 18, ainda há muita violência passível de abolição. Indo nos fundamentos, uma regra ética: a liberdade de um termina quando começa a do outro. Imagino que a maioria das pessoas concorda com isso em tese, mas quantas estão realmente dispostas a aplicar esse pensamento com consistência? Se a minha liberdade termina quando começa a do outro, estamos falando de dois indivíduos diferentes, não estamos falando de dois grupos diferentes, a minha liberdade não é a dos homens nascidos no Rio descendentes de X ou Y com renda de até Z salários mínimos, a minha liberdade é minha e a sua liberdade é sua. Agora, como determinar onde começa e onde termina a liberdade de um ou de outro? Não há como exercer a liberdade a não ser através do próprio corpo, o seu corpo é seu. Pode parecer redundante, mas em sistemas coletivistas - tipo comunismo ou nazismo - você meio que pertence ao coletivo, numa espécie de escravidão pelo "bem comum" definido por quem tem o poder. Então com a propriedade de si mesmo você é livre pra lidar com as outras pessoas que, como você, são soberanas de si mesmas. Essas relações não são impostas, a lei da "liberdade de um termina quando começa a do outro" diz basicamente que você não pode iniciar agressão, o que remove as imposições do cardápio legislativo. Ou você acha que você ou a maioria têm o direito de impor um comportamento ao outro? Use a persuasão e esqueça a iniciação de agressão. O lance é que esse princípio tem um violador constante, o governo e os seus representantes. Sei que falam num "contrato social", mas nunca o assinei. Se eu quero educar o meu filho em casa, eu não posso, sou obrigado pela lei a matriculá-lo em alguma das instituições de ensino aprovadas pelo governo. Se eu quero usar determinada substância ou comer determinado alimento, eu não posso, porque o governo diz que me faz mal e sobrecarrega o sistema público de saúde. Se eu quero contratar alguém pra um trabalho qualquer, eu não posso, a não ser que a pessoa tenha o certificado X aprovado pelo governo. Se eu quero abrir um estabelecimento em que o fumo é permitido, eu não posso, porque faz mal pra saúde e as pessoas são aparentemente incapazes de decidirem por si mesmas. Então a "liberdade de um termina quando começa a do outro" acaba virando "a liberdade de um termina quando o governo determina". Quem vive nesse esquema de controle acaba tendo todos os incentivos pra usar o governo a fim de garantir privilégios ou impor sobre os outros aquilo que imagina ser o correto. Não há mais liberdade, há uma guerra de todos contra todos com o objetivo de usar a força do "contrato social" em favor da agenda A ou B. Não importa se você considera a sua agenda nobre ou justa, o fato de muitas pessoas idolatrarem a Elis Regina, por exemplo, não justifica o uso de dinheiro público pra patrocinar um show em sua homenagem. Num sistema voluntário, os fãs da Elis Regina se reuniriam e pagariam pelo ingresso, pelo DVD e viabilizariam o projeto, sem obrigar o outro - através dos impostos - a pagar a conta. Se os impostos fossem voluntários, não teriam esse nome.

Wednesday, February 09, 2011

Comentários sobre o Roberto Campos

Quando comecei a acompanhar o debate político, o Roberto Campos era o vilão favorito dos nacionalistas e socialistas, que o chamavam de Bob Fields, "lacaio do imperialismo", "vassalo do FMI" e "entreguista", entre outros nomes depreciativos. Mesmo eu não tendo muita noção do que tava acontecendo, essa campanha de desmoralização tinha efeito sobre mim, que identificava aquele senhor com tudo o que havia de errado no mundo. Claro, eu era apenas uma criança influenciada pelo ambiente e é mesmo complicado escapar da doutrinação nessa fase. Quando o mito da superioridade moral da esquerda sucumbiu aos meus olhos e me encaminhei pra uma visão mais liberal das coisas, comecei a acompanhar os artigos do Bob Fields e finalmente percebi o seu valor. Fiquei então curioso pra ler o seu livro de memórias - muito elogiado pelo Paulo Francis na época do lançamento - porque o homem não era apenas um liberal, mas um liberal que viveu o poder por mais de meio século e desenvolveu, ao longo dessa experiência, um ceticismo cada vez maior em relação à benevolência e eficiência do governo. "O século do coletivismo foi talvez o mais violento da história humana. Eclodiram duas guerras mundiais. Realizaram-se dois grandes experimentos de engenharia social, visando ambos a criação de um homem novo e superior: o homo aryanus e o homo sovieticus. Somados os expurgos e conflitos em vários continentes, o experimento socialista terá liquidado talvez 50 milhões de pessoas. O nazi-fascismo, com a II Guerra e o holocausto, sacrificou cerca de 45 milhões de pessoas. E nenhum desses experimentos de engenharia social logrou mudar permanentemente os homens. Houve apenas um temporário eclipse da razão e da compaixão." Você deve estar acostumado aos apelos em nome do bem comum, da comunidade, da nação, da pátria et cetera, mas quantas vezes ouviu falar das maravilhas do individualismo? É natural colocar o próprio interesse em primeiro lugar, mas reconhecer isso ainda é uma espécie de tabu. Não estou dizendo que a pessoa só pensa nela mesma, estou dizendo que a pessoa pensa primeiro nela e depois nos outros, use a própria experiência pra comprovar essa parte do seu instinto de sobrevivência. Você até se sacrifica pelo outro, mas faz isso quando o outro significa algo pra você. Somente o reconhecimento da individualidade de cada um é capaz de promover uma justiça livre de preconceitos de cor, raça, classe ou do que quer que seja. Sei que estamos inseridos num contexto de influências mútuas, mas a responsabilidade - pro bem ou pro mal - tem que ser individual. Responsabilizou-se grupos ao invés de indivíduos ("proletários" X "burgueses", "arianos" X "judeus") e foi a violência que se viu. Só o indivíduo pensa, só o indivíduo age. Só o indivíduo faz o bem, só o indivíduo faz o mal. Se aconteceram e acontecem tragédias inspiradas em alucinações coletivistas do naipe de um nazismo ou de um comunismo, é porque não se respeitou as diferenças entre as pessoas e não se reconheceu cada uma delas como fins em si mesmas (individualismo). "Nesse fim de século ressurgem tendências liberais sob a forma do capitalismo democrático. Este se baseia na convicção de que somente através do mercado se alcança a opulência, enquanto que para a preservação da liberdade o instrumento fundamental é a democracia." Depende da democracia, né? Se for uma em que as liberdades individuais são resguardadas pela lei e não são objeto de voto pela maioria, pode-se concordar com o que o Roberto Campos diz. Caso isso não aconteça - o que é mais provável e comum - o que impediria A de se juntar a B pra roubar ou matar C de forma "democrática"? "Conciliar o mercado, que é o voto econômico, com a democracia, que é o voto político, eis a grande tarefa da era pós-coletivista." Beleza, o problema é que ainda nem superamos a era coletivista, o Campos não viveu o suficiente pra testemunhar a ascensão do socialismo do século 21 através da democracia; ou os venezuelanos, bolivianos e equatorianos não votam? Votam sim, e segundo o Lula esses países "têm democracia até demais". "Sobrava confiança nos keynesianos dos anos 30 e 40 quanto à capacidade governamental de administrar o pleno emprego através da sintonia fina. Os desapontamentos viriam no pós-guerra, quando as políticas keynesianas, casualmente eficazes no combate à recessão, trouxeram prolongados períodos de pressão inflacionária." Se você se endivida pra construir uma ponte ligando o nada ao lugar nenhum, você pode até criar alguns empregos, mas esse gasto não vai ser eficiente e você vai ter agora uma dívida a pagar. Como o governo tem o poder de criar dinheiro do nada, ele tem todos os incentivos pra quitar ou rolar esse passivo através do aumento da base monetária, ou seja, inflação. "Somente nos anos 70, o keynesianismo, como doutrina, seria temporariamente desbancado pelo monetarismo." Temporariamente mesmo, porque as políticas econômicas dos principais países hoje em dia (incluindo os EUA) com seus "estímulos", endividamentos e inflação "pra gerar emprego" ainda são keynesianas. "John Kenneth Gailbraith nota, pitorescamente, que Hitler foi um predecessor pouco honorável do keynesianismo, utilizando maciçamente déficits orçamentários, a partir de 1933, para atenuar o desemprego." There you go, nacional-socialistas, o keynesianismo é uma teoria sem pé nem cabeça convenientemente usada por qualquer governo que não queira o mercado livre e queira controlar a economia sem estatizar completamente os meios de produção. "Apesar de se julgar uma secular meritocracia, o sistema de seleção para a carreira eclesiástica premia às vezes a mediocridade e o conformismo." Isso surpreende alguém ou as religiões se tornaram de repente amigas do inconformismo inovador? "Dirigida inicialmente por Ricardo Cravo Albim, a Embrafilme foi depois sujeita a grande descontinuidade administrativa, com suspeitas, periodicamente averiguadas, de malversação de fundos, através de alguns empréstimos descriteriosos a grupos privilegiados, quase todos, por sinal, cultores da temática do cinema novo." Não me diga... Esse pessoal queria "denunciar o sistema" usando o dinheiro do sistema a fundo perdido, claro. Fazem isso até hoje e não é surpresa a pressão gigantesca que um ministério (que nem deveria existir) como o da cultura sofre da "classe artística", por si só um sintoma de coletivismo; ou os artistas pensam todos da mesma maneira? "Minhas divergências com Gudin e Bulhões nos anos 50, muito comentadas na época, diminuíram rapidamente à medida que adquiri maturidade intelectual e experimentei desilusões quanto à eficácia do serviço público." Demorou, mas abalou. O serviço público simplesmente não tem os incentivos pra ser eficiente, porque os seus recursos são obtidos à força e a competição só acontece na hora das eleições, quando as pessoas podem então escolher qual das máfias - também conhecidas como partidos - vai ter acesso ao butim. "Cheguei mesmo - horresco referens - à tolice, que Gudin nunca me perdoou, de escrever o seguinte: 'As objeções de Hayek e Von Mises sobre a irracionalidade dos preços e de fatores nas economias planificadas teriam sido destruídas, em grande parte, pela análise de Barone, Taylor e Lange.' Nada disso aconteceu. Demoraria algum tempo, mas no fim das década de 80, com a queda do Muro de Berlim e o colapso do marxismo, verificou-se que as objeções dos liberais austríacos às economias planificadas, proferidas na década de 20, eram absolutamente válidas e incrivelmente proféticas." A lógica pode demorar, mas prevalece. O problema é que aquele papo de que "o que se aprende com a história é que não se aprende com a história" tem um fundo de verdade e não importa pra muita gente que o experimento socialista do século 20 tenha fracassado miseravelmente, a "superação do capital" continua na ordem intelectual do dia como um tema respeitável. "O máximo que se pode dizer é que Getúlio Vargas explorava um nacionalismo oportunista, antes que ideológico. Chamei-o de pragmático preconceituoso porque tinha uma visão falsa dos méritos relativos do investimento direto, em contraste com empréstimos e financiamentos." Os governantes querem o controle dos investimentos pra que os recursos passem pelas suas mãos e eles possam então fazer os seus negócios (malversações políticas ou monetárias). O lance é que muitas pessoas não enxergam nenhum problema nisso, só lamentam e criticam quando não são elas - ou a máfia a que pertencem - que controlam o processo. "Essa parte do pensamento de Vargas, que atribui os obstáculos ao desenvolvimento à ação das 'forças ocultas' foi depois acentuada por Leonel Brizola, que, por cerca de 30 anos, transformou as 'perdas internacionais' em bode explicativo do fracasso do desenvolvimento brasileiro." Cultuarem até hoje um socialista como o Brizola e um ditador como o Vargas mostra como o coletivismo ainda domina o debate nacional e ajuda a entender o vai-não-vai do Brasil rumo ao desenvolvimento. Vai, não vai, agora vai, não foi, fica pra próxima, quando "os outros" deixarem.

Tuesday, January 25, 2011

Os 10 mandamentos de um deputado do PSOL

Antes de entender algumas relações de causa e efeito, eu também era um social-democrata-padrão-zona-sul-carioca, ou seja, eu era um "social-democrata" que votava em socialistas do PT como o Chico Alencar. Depois que os petistas chegaram ao poder e colocaram, como observou o Paulo Betti, "a mão na merda", o Chico e mais alguns amigos do "outro mundo possível" saíram do PT e fundaram o PSOL, um partido sem vergonha de misturar - dialeticamente, claro - socialismo com liberdade. Mesmo fora do PT, o Chico Alencar não se tornou exatamente da oposição, ele só acha que o partido no poder ainda não fez o suficiente pra tornar realmente possível o "outro mundo possível". "Se a presidente eleita do Brasil e os novos governadores, deputados e senadores quiserem de fato representar novidade para o povo, precisarão realizar, sempre empurrados pela mobilização popular, os ‘dez mandamentos’ que se seguem: 1) Reforma Agrária e Urbana ecológicas, com a limitação do tamanho das propriedades e o uso social dos imóveis urbanos estocados para especulação." Sei lá quantas centenas de milhares de "sem-terras" já foram assentados desde o governo FHC, mas - mesmo recebendo subsídios - não conseguem produzir o suficiente pra própria subsistência. Isso acontece porque plantar não é bem a praia do MST, um movimento de inspiração maoísta cujo objetivo maior é servir de ponta de lança pra demonização dos "ruralistas" (imagine o Ronaldo Caiado de chapelão num alazão) e a conseqüente estatização do campo, desejo antigo das esquerdas. A coisa é complicada porque foram justamente as exportações dos "ruralistas" que garantiram, até agora, os superávits da balança comercial que ajudaram a bancar a demagogia do PT. Então o governo vai empurrando com a barriga, sendo cúmplice das invasões dos seus companheiros ideológicos ao mesmo tempo em que tenta agradar os "ruralistas" (que pagam a conta) com protecionismo e crédito subsidiado. E o "uso social dos imóveis estocados para especulação" pode ser traduzido como o "uso socialista dos imóveis estocados para especulação", ou seja, desapropriação. É tudo feito na base da coerção, mas com muito amor no coração. "2) Mudança na política econômica, com controle dos capitais especulativos que entram e saem do país e auditoria da dívida pública, cujos juros e serviços consomem 36% do orçamento nacional." A dívida pública não foi obra, pra usar uma imagem que o católico Chico deve conhecer bem, do Espírito Santo, foi resultado de décadas de políticas equivocadas - a gente pode não ter a explicação pra tudo, mas tudo tem uma explicação - e o país paga esse passivo todo por não ter levado a sério a austeridade fiscal ao mesmo tempo em que levava a sério o conto do governo "indutor do desenvolvimento". São as conveniências da disputa pelo poder, sabe? (imagine o Gollum atrás do anel) Se uma pessoa não paga o que o governo diz que ela deve, ela é presa. Se o governo não paga o que deve, o governo chama isso de "moratória soberana" ou "calote compassivo" e estamos conversados, governos não precisam se submeter às mesmas regras que os seus cidadãos, não é verdade? Se o governo quiser, ao menos, rolar a dívida pra não acabar completamente com os investimentos externos, o "controle dos capitais especulativos" do Chico Alencar vai dificultar até mesmo a rolagem dessa dívida, porque são justamente esses capitais que a financiam. Se os capitais não sabem se vão poder sair, por que eles entrariam? "3) Prioridade para saúde e educação públicas, com meta de comprometimento de 10% do PIB em cada setor até o final dos mandatos." Aqui você vê claramente como funcionam os incentivos no serviço público: quanto menos resultado ele dá, mais recursos ele se sente no direito de pedir. Como a maioria acha que a educação e a saúde devem ser responsabilidade do estado, a arapuca está armada. As crianças então são obrigadas por lei a freqüentar as escolas do governo ou aprovadas pelo governo - com o currículo monopolizado pelo governo - pra aprenderem que a educação deve ser fornecida "de graça" pelo governo, caso contrário os especuladores comprariam todas as nossas riquezas naturais a preço de banana, o Brasil ficaria sempre nos últimos lugares dos testes internacionais e o ciclo não fecharia. Ficou confuso? Culpe o MEC. "4) Garantia e ampliação dos direitos trabalhistas, com redução da jornada para 40 horas semanais, sem redução de salários." Olha a caneta mágica: o salário não tem relação com a produtividade, tem relação com as leis que regem as relações trabalhistas. Por que então não baixar de 40 pra 20 horas semanais sem redução do salário? Aliás, por que não determinar logo de uma vez que ninguém pode ganhar menos de 10 mil reais + benefícios? A caneta do governo é mágica, gente. "5) Cuidado absoluto com a ‘Mãe Terra’ tão espoliada, o que, no Brasil, significa combate à revisão do Código Florestal no interesse dos grandes fazendeiros e Desmatamento Zero na Amazônia, além da preservação de todos os biomas." Como é que o Chico Alencar espera que as pessoas comam com a "preservação de todos os biomas"? Onde as pessoas vão plantar ou criar os animais que vão nas feijoadas que o Chico Alencar e a galera da esquerda festiva gosta de comer? E o que significa "desmatamento zero" na Amazônia? As pessoas estão proibidas de morar lá? Bem que o Zizek avisou que os esquerdistas estão "masoquisticamente" apostando num grande desastre ambiental... Eles apostam e os outros sofrem. Sem a produção em massa dos "grandes fazendeiros" que não preservam "todos os biomas", os "espoliados" - ao invés da "Mãe Terra" - seriam os mais pobres prejudicados pela escassez de comida, enquanto a "Mãe Terra" do Chico Alencar ficaria virgem e intocada pelo homem mau e impuro, praticamente uma Nossa Senhora verde. "6) Reforma Política com participação popular, na direção do fortalecimento dos partidos que têm doutrina, do financiamento público exclusivo das campanhas, da promoção de plebiscitos e referendos sobre grandes temas nacionais." Venezuela, here we go. Gostaria de propor também um plebiscito: socialistas como o Chico Alencar olham pro que tá acontecendo na Venezuela e acham realmente que as coisas tão melhorando por lá? You'll be the judge. E concordo, o "financiamento público exclusivo das campanhas" acabaria com o caixa 2, tenho fé no Deus da Teologia da Libertação que sim. "7) Fortalecimento do combate à corrupção, com transparência total e equipando melhor a Controladoria Geral da União, as controladorias estaduais e o Ministério Público." Quem fiscaliza os fiscais dos fiscais? O que combateria de fato a corrupção seria a desregulação da economia, que acabaria com a criação de dificuldades pra venda de facilidades, mas isso deixaria os políticos e burocratas sem o que fazer, melhor jogar conceitos como "transparência total" ao vento a se render ao livre-mercado. "8) Mudança progressiva do modelo energético, com a Petrobras 100% estatal e recursos do Pré-Sal voltados para as áreas social e ambiental." Beleza, Petrobras 100% estatal, nem Vargas foi tão "progressista". Se bem que essa concentração de recursos nas "áreas social e ambiental" não ia agradar muitos dos amigos e eleitores do Chico, cadê a verba do Pré-Sal pra cultura? "9) Força aos Direitos Humanos: combate aos preconceitos, consolidação dos direitos de mulheres, negros e povos indígenas, além de abertura total dos arquivos da ditadura e democratização dos meios de comunicação." Toda essa generosidade do Chico Alencar com os grupos que ele considera oprimidos se dá na marra, porque o governo é imposição, não esqueça disso antes de enxergar uma auréola de paz e amor na cabeça de quem fala em tirar de A pra dar pra B. Fora da igualdade perante a lei não há salvação. Em relação à "abertura total dos arquivos da ditadura", eu não me oponho, desde que os militantes armados que lutaram contra os militares também abram os seus arquivos e provem que não lutavam por uma ditadura ainda pior, uma ditadura comunista. Agora no poder, dizem que lutavam pela "democracia", mas você sabe como é a dialética, né? Por exemplo, a "democratização dos meios de comunicação", no caso, significa "controle pelo governo", e é lógico que eu apóio (numa vaibe meio Zizek) a idéia do governo controlar a imprensa, é assim nas melhores "democracias". "10) Política internacional independente, contra todos os hegemonismos, reforçando a relação Sul-Sul." Não podia faltar o tradicional antiamericanismo nessa pururuca ideológica, melhor se aliar a Venezuela, Bolívia, Cuba, Irã ou alguma ditadura africana a "se submeter" aos estadunidenses. Disso o Chico Alencar não tem mesmo do que reclamar, porque foi essa a política no Itamaraty do Celso Amorim nos últimos anos. "Só assim teremos, na política, o Advento de um vento novo, que abala a calmaria da prosseguida injustiça!" Como se o vento desse "Advento" já não tivesse soprado em várias outros lugares e fedido pra caramba. A ideologia deve ter subtraído mais-valia do olfato desses caras, não é possível. (http://youpode.com.br/blog/chicoalencar/2010/12/07/os-maiores-desafios-para-o-novo-governo/)

Wednesday, January 19, 2011

O "neoliberalismo" do Emir Sader

"O capitalismo passou por várias fases na sua história. Como reação à crise de 1929, fechou-se o período de hegemonia liberal, sucedido por aquele do predomínio do modelo keynesiano ou regulador." Já havia regulação antes de 1929, um mercado inteiro não entra simultaneamente em crise sem a participação de algo em comum a todos (governo). O New Deal - muito aclamado pelos esquerdistas pela concentração de poder no estado - apenas atrasou a recuperação americana, que só foi sair da crise de 29 no pós-guerra. "A crise deste levou ao renascimento do liberalismo, sob nova roupagem que, por isso, se auto denominou de neoliberalismo." Um sistema econômico não tem como se "autodenominar", quem fala em "neoliberalismo" são socialistas como o Sader. Da wikipedia: "O termo foi cunhado em 1938 no encontro de Colloque Walter Lippmann pelo sociologista e economista Alexander Rüstow", um alemão que advogava o "ordoliberalismo, uma doutrina econômica, adotada principalmente na Alemanha do pós-guerra, uma "terceira via" entre o socialismo e o capitalismo." "Este impôs uma desregulamentação geral na economia, com o argumento de que a economia havia deixado de crescer pelo excesso de normas, que frearia a capacidade do capital de investir." Esse "argumento" é um fato. "Desregulamentar é privatizar, é abrir os mercados nacionais à economia mundial, é promover o Estado mínimo, diminuindo os investimentos em politicas sociais, em favor do mercado, é impor a precariedade nas relações de trabalho." O que seria do discurso socialista sem esses apelos emocionais? Leis não evitam a "precariedade" do trabalho; se evitassem, todos os brasileiros estariam formalizados com a carteira assinada e ganhando, no mínimo, um salário mínimo. Não é isso o que acontece. "A desregulamentação levou a uma gigantesca transferência de capitais do setor produtivo ao especulativo porque, livre de travas, o capital se dirigiu para o setor onde tem mais lucros, com maios liquidez e menos tributação: o setor financeiro. Porque o capital não está feito para produzir, mas para acumular. Se pode acumular mais na especulação, se dirige para esse setor, que foi o que aconteceu em escala mundial." O setor financeiro também é produtivo, porque ao investir num empreendimento, o especulador está ajudando a viabilizar a produção desse empreendimento. O problema é que grande parte do movimento especulativo vai atrás dos papéis da dívida de governos como o brasileiro, que pagam juros altíssimos justamente pra que os especuladores continuem financiando a gastança dos governantes. "O modelo neoliberal se tornou hegemônico em escala mundial, impondo as politicas de livre comércio, de Estados mínimos, de globalização do mercado de trabalho para os investimentos, entre outros aspectos. É uma nova fase do capitalismo, como foram as fases de hegemonia liberal e keynesiana." Antes fosse, a última crise mostrou que o keynesianismo ainda domina a política econômica com seus "estímulos" (aumento de dívida e inflação) e juros artificialmente baixos (gestação da próxima bolha). Essa narrativa saderiana de que o "neoliberalismo" rules everything é bem conveniente pros governos, que podem então colocar a culpa da crise no "mercado desregulado" e assim acumular ainda mais poder. "Não se pode dizer que seja a última, porque um sistema sempre encontra formas – mesmo que aprofundem suas contradições - se outro sistema não surge como alternativa, com a força correspondente para superá-lo." O que "aprofunda a contradição" do sistema é o governo imaginar que pode criar prosperidade através da impressão de papel moeda e do endividamento constante, isso sim é insustentável. "Mas é uma fase difícil de ser superada, porque a desregulação tem muitas dificuldades para ser superada." Ele vai repetir essa ladainha de "desregulação" até alguém acreditar. "Mesmo com a crise atual afetando diretamente os países do centro do capitalismo, provocada pela fata de regulação do sistema financeiro, ainda assim pouco ou quase nada foi feito para o controle do capital financeiro, justamente a origem da crise." O setor financeiro, como todos os outros, também é afetado pela política monetária expansionista dos governos, Sader. "Como já se disse: Obama salvou os bancos, achando que os bancos salvariam a economia dos EUA. Mas os bancos se salvaram às custas da economia norteamericana, que segue em crise." Essa é uma discussão boa, o cartel de bancos comandado pelo Fed, um arranjo incompatível com o livre-mercado. "É difícil para o capitalismo desembaraçar-se do neoliberalismo, etapa que marca o final de um ciclo desse sistema." Repararam que, na análise de socialistas como o Emir Sader, os sistemas parecem ter vontade própria? "A discussão que se coloca é de se o modelo chinês representa vida útil e inteligência mais além do neoliberalismo ou do capitalismo. Se sua via de mercado se vale do mercado para superar o capitalismo ou se o mercado o vincula de obrigatória e estreita ao capitalismo." O sistema chinês vem "funcionando" porque o país partiu pro comércio internacional de uma base muito baixa após décadas de comunismo (que o Sader certamente aplaudia) e porque o governo vem desvalorizando a própria moeda pra exportar mais, subvencionando o consumo de países como os EUA. Talvez essa seja uma estratégia pra enfraquecer o dólar (e o próprio governo americano vem colaborando com isso), mas um sistema centralizador de partido único não pode - ou não deve - servir de modelo pra ninguém. "O certo é que ser de esquerda hoje é de lutar contra o neoliberalismo, não apenas resistindo a ele, mas sobretudo construindo alternativas a este modelo, allternativas que projetem para além do capitalismo." Continuo esperando que você ou o Chomsky ou o Zizek expliquem como vai ser essa alternativa "além do capitalismo", melhor eu esperar deitado. "O neoliberalismo promove um brutal processo de mercantilização das coisas e das relações sociais. Tudo passa a ter preço, tudo pode ser compra e vendido, tudo é reduzido a mercadoria, em um processo que tem no shopping center sua utopia." Você pode ir pro meio do mato, Sader, e viver da mão pra boca, longe desses terríveis shopping centers onde as pessoas trocam bens e serviços através do sistema de preços. Você não precisa negociar com um preá, basta dar-lhe uma traulitada na cabeça pra conseguir a sua próxima refeição, longe daquele antro de consumismo desenfreado sem consciência social que é a praça de alimentação. "Nesse caso, lutar pela superação do neoliberalismo é desmercantilizar, restabelecer e generalizar os direitos como acesso a bens e serviços, ao invés da luta selvagem no mercado, de todos contra todos, para obtê-los às expensas dos outros." Acho que o Sader se confundiu, quem tem o poder de tirar de uns pra dar pra outros é o governo, com os milhares de grupos de interesse correndo atrás de privilégios às custas dos demais. A inversão é a norma: o monopólio da coerção é o mocinho, o mecanismo voluntário é o bandido. "Generalizar a condição do cidadão às expensas da generalização do consumidor. Do sujeito de direitos e não do dono de poder aquisitivo. Quanto mais se desmercantilizar, quanto mais se afirmar os direitos de todos, mais se estará criando esfera pública, às expensas da esfera mercantil (que eles chamam de privada)." De quais "direitos" você está falando? O "direito" de alguém a um bem corresponde ao dever dos outros fornecerem esse bem. Se - ao invés de ficar insistindo numa teoria falsa - o Sader quisesse realmente que os "direitos" fossem generalizados, ele deixaria a "esfera mercantil" funcionar pra que os preços diminuíssem e mais pessoas tivessem acesso então aos bens e serviços que ele chama de "direitos". Mas ele não quer isso, ele quer "superar o capitalismo" tendo Cuba como exemplo. "Essa pode ser a via de passagem do neoliberalismo como estágio do capitalismo à sua superação, a uma era pós-capitalista." Continuo aqui deitado esperando pela explicação de como isso vai acontecer. "Mas hoje o que nos une a todos é a luta por distintas formas de pós neoliberalismo - pela universailização dos direitos, pela extensão da cidadania em todas suas formas – politica, econômica, social, cultural -, pelo triunfo do Estado social contra o Estado mínimo, da esfera pública contra a esfera mercantil." Tears in my eyes. Toda essa repetição de "superação do capitalismo" parece ter - à primeira vista - um charme meio rebelde e vanguardista, mas não se engane, o que o Sader defende é o mesmo socialismo de sempre, aquele em que o governo concentra todo o poder e o indivíduo não passa de uma mera engrenagem pros planos totalitários de uma ditadura "iluminada" com muitas aspas. (http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=650)

Monday, January 17, 2011

Slavoj Zizek e a "superação do capital"

O "Elvis da teoria cultural" vai logo avisando: "Não se esqueça de que comigo as coisas sempre são o contrário do que parecem." O esloveno Slavoj não veio pra explicar, veio pra confundir, praticamente um Chacrinha da filosofia. "Desde o final do século XVIII havia profetas que diziam que o capitalismo estava chegando ao fim. Marx achou que a Comuna francesa era o fim. Lênin achou que era o fim. Mao Tsé Tung achou que era o fim. Mas o problema é que, quanto mais o capitalismo se desintegra, mais ele ressurge como a Fênix." Verdade, a livre iniciativa individual sempre ressurge frente aos planos totalitários coletivistas, é isso mesmo. "Alguns esquerdistas colocam suas esperanças, masoquisticamente, em uma grande catástrofe ecológica." Não me diga... "Esses debates pseudo-liberais sobre até que ponto o Estado deve intervir no mercado... O mercado não pode sobreviver sem intervenção do Estado." O escopo do estado não é um debate "pseudo-liberal", é um debate central. Entre o controle absoluto e a liberdade total há muito o que se discutir. "O paradoxo é que... Vocês se lembram de que anos atrás os EUA processou a Microsoft por monopólio? Esse é um paradoxo maravilhoso. Significa que o Estado tem de intervir para que o mercado sobreviva." O mercado sobrevive apesar dessas intervenções e não por causa delas. "O mercado, espontaneamente, teria, há muito tempo, abolido a si próprio." O mercado não tem capacidade de escolha pra "abolir a si próprio", o mercado é um processo em que as pessoas trocam bens e serviços atrás dos seus próprios objetivos, com cada um sendo dono de si mesmo e daquilo que trocou ou ganhou de forma voluntária. Esse é o sistema diabólico que intelectuais como o Zizek fazem de tudo pra destruir, blaming capitalism for the evils done by government action. People seem to confuse corporatism, and state capitalism, with free market capitalism. It is the same old song and dance that I have heard over and over again. "Sou hegeliano. Meu amor absoluto é Hegel. E todas as outras coisas estão subordinadas a ele. Leio Marx e o que me interessa é como não é possível entender Marx sem Hegel. E por isso fiquei muito feliz ao ouvir de meus amigos que vocês têm no Brasil uma grande escola de marxistas hegelianos que estudam em detalhes que não se pode entender o capital sem referências à lógica de Hegel." Maravilha, então os amigos do Zizek se reúnem (com dinheiro público?) pra realizar truques dialéticos - e saltos carpados psicanalíticos - a fim de provar que A não é A, que A é uma ilusão criada pelos opressores estadunidenses pra se fazer de simulacro de A. A não é A, A é outra coisa e o seu contrário ao mesmo tempo. Com a galera do Zizek é assim, as identidades ficam todas juntas e misturadas. "O filósofo argentino Ernesto Laclau analisou a fundo a lógica do populismo, sustentando que existe uma variante de esquerda e uma variante de direita. A tarefa do pensamento crítico consistiria em evitar a derivação de direita. Não estou de acordo com essa posição. Em primeiro lugar, o populismo é sempre de direita." Como o Zizek quer sempre dizer o contrário do que diz, o populismo então é sempre de esquerda. "Além disso, o povo, como a natureza, é uma invenção." A natureza é uma "invenção" de quem? De Deus? De Zeus? Será que o Zizek vive desafiando por aí as leis físicas da "natureza inventada"? Se a natureza é uma "invenção", o Slavoj é o quê, o contrário dele que ainda não existiu? "Walter Benjamin escreveu que o fascismo emerge de onde uma revolução foi derrotada. Um conceito que, aplicado à realidade contemporânea, explica o fato que o populismo emerge quando a hipótese comunista, que não coincide com o socialismo real, é retirada da discussão pública." Comunistas raciocinam assim: tudo o que não é comunista, é "fascista". Qual comunismo não tem a ver com o "socialismo real"? O Zizek, infelizmente, não vai conseguir explicar como é que concentrar todo o poder no estado causará - PUF! - a sua abolição. Ele não veio pra explicar, veio pra confundir. "A crise econômica, além disso, exigiu uma intervenção do estado para salvar da bancarrota empresas, bancos e sociedades financeiras. Mas isso significou que o tabu sobre a periculosidade da intervenção reguladora do estado foi quebrado." Que mané tabu, o intervencionismo estatal é a norma no mundo há várias décadas, você sabia que o dinheiro é controlado pelos governos, Zizek? "Isso pode reforçar os socialistas, isto é, aqueles que apontam para uma redistribuição de renda e de poder." É, o poder vai mudar da gangue A pra gangue B, ipi ipi hurra. O lance é que as gangues socialistas quando chegam ao poder não sabem como produzir riqueza e a renda a ser redistribuída fica com o tempo cada vez menor. Ou maior, se você usar a dialética do Zizek. "Não é a política que eu amo, mas abre espaço a propostas mais radicais. Em outras palavras, volta forte a ideia comunista de transformar a realidade." Todo esse nhém-nhém-nhém pra voltarmos a isso, a idéia comunista. Ele não leva em consideração, claro, a tragédia comunista do século XX, aquilo foi só o "socialismo real", na próxima vez vai funcionar, pensamento positivo, galera. Ou negativo, sei lá. "Não acredito, como Hardt e Negri, que com o desenvolvimento capitalista a força produtiva, mais cedo ou mais tarde, entre em rota de colisão com as relações sociais de produção. Devemos, de fato, agir politicamente para que isso aconteça. É esse o legado de Lênin que não pode mais ser apagado." O cara quer ver o circo pegar fogo, tinha o Cassino do Chacrinha e agora vai rolar o Circo em Chamas do Zizek ou o Circo do Zizek em Chamas, depende do que for mais conveniente pra dialética hegeliana do momento. O "desenvolvimento capitalista" e as "relações sociais de produção", Zizek, não são contraditórios, eles andam juntos. Capital e trabalho não são rivais, são complementares. "Teremos de achar formas de não meramente abolir o capitalismo mas, de alguma forma, superá-lo." Falar em "superar o capital" sem explicar como fazer isso é uma afirmação de fé tipo "superar a matéria", e a gente "supera" a matéria sim, quando morre. A estrutura da realidade não vai se alterar com wishful thinking e as pessoas vão continuar tendo que cooperar umas com as outras pra passarem pela vida da melhor maneira possível. O modo delas cooperarem é o que se discute: como indivíduos autônomos responsáveis pelas próprias decisões (liberdade) ou como seres incapazes e dependentes de um poder central (controle)?

Tuesday, January 11, 2011

Noam Chomsky e o "socialismo libertário"

Quando você conhece um brasileiro meio politizado e meio rebelde, é quase certo que ele seja um admirador de Noam Chomsky. O homem se diz um "anarco-sindicalista", um "socialista libertário", e essas definições contraditórias não podiam dar mesmo num discurso claro e objetivo, porque premissas confusas geram conclusões confusas. Então por que ele é tão popular? Porque ele fala mal do capitalismo e dos EUA, exigir uma teoria lógica e consistente seria pedir muito, parece que o lance é mais descontar os ressentimentos através de um porta-voz de Harvard, um representante com autoridade e PhD lá da terra do "inimigo". "Não há ninguém que apareça e diga: queremos um programa de criação de empregos e não equilibrar o orçamento. Isso é o que o público quer, mas não é o que o mundo dos negócios quer." Caso não haja equilíbrio no orçamento, isto é, caso o governo continue gastando mais do que arrecada (e isso acontece quase sempre), os juros e os custos dos investimentos vão aumentar e tornar as coisas mais caras não é a melhor maneira de criar empregos. Não é assim porque eu e o "mundo dos negócios" achamos que é assim, é assim porque é assim. "O Brasil foi tomado pelos EUA em 1945 e foi uma das áreas de testes de métodos científicos de desenvolvimento do capitalismo americano. Os técnicos americanos tomaram grandes decisões e se orgulharam muito do seu projeto. Eles se orgulhavam inclusive de imporem uma ditadura neonazista. O Brasil era o queridinho latino-americano da comunidade empresarial. Até 1989, continuava a ser tratado como um êxito fantástico para o capitalismo americano." Que trecho fabuloso, o "Brasil foi tomado pelos EUA em 1945", que impuseram então "uma ditadura neonazista". Do que ele tá falando? De Dutra? De Vargas? Ou a ditadura militar é que era "neonazista"? Até 1989, o Chomsky diz, o Brasil era "um êxito fantástico para o capitalismo americano." Realmente, o estatismo nacionalista (neonazismo?) brasileiro - com seus monopólios governamentais, reservas de mercado, congelamento de preços e hiperinflação - pode ser caracterizado como "um êxito fantástico do capitalismo americano", isso não é um raciocínio sério, come on. "O Brasil é um país grande, tem muitas opções. A primeira coisa que o Brasil tem de fazer é controlar os seus ricos." Não tem que "controlar" ninguém, esses caras sempre com esse papo contra quem tem dinheiro, a inveja por acaso perdeu a vergonha e agora virou virtude? Me diga, seu Chomsky, os ricos do governo ou por causa do governo também vão ser controlados ou esse controle vai ser seletivo? "Meu país nunca desenvolveu o contrato social que os países europeus têm. Aqui existia a ideologia capitalista e ela dizia que ninguém tem direitos humanos, você só tem o direito de entrar no mercado de trabalho." É complicado quando um lado vive no mundo imaginário da abundância e fala em "direito" ao trabalho, à moradia, à cultura, ao lazer e à felicidade eterna guiada pelo governo clarividente e você, de outro lado, lembra da escassez e fala em direito apenas à liberdade de perseguir a própria felicidade através de acordos voluntários, mas paciência. "Na década de 20, os trabalhadores americanos não tinham nem uma fração dos direitos dos trabalhadores europeus, mas tinham muito mais bens. É um país muito livre, mas extremamente opressivo." Eis a vaibe de um partido como o PSOL, que juntou socialismo e liberdade sem medo de ser feliz. Os EUA, segundo o Chomsky, são "um país muito livre, mas extremamente opressivo". Tem como explicar isso ou a contradição virou uma forma válida de argumentação? O fato dos trabalhadores europeus terem um monte de "direitos" no papel não garante - como ele mesmo admite - esses direitos; frases (leis) num livro (constituição) não garantem automaticamente uma "vida digna a todos" nem que haja muita vontade política (imposição). "Porque o governo federal é a única força suficientemente forte para enfrentar os interesses das corporações." Não, o governo federal é a única força suficientemente forte pra se aliar de maneira simbiótica com as corporações amigas pra impedir o funcionamento livre do mercado. "Tudo é muito bem planejado: destruir os sindicatos e destruir qualquer ideia de que o governo pode ser um instrumento que as pessoas podem usar em seu próprio benefício." Mas as pessoas realmente usam o governo em seu próprio benefício, Chomsky, veja os políticos, burocratas, funcionários públicos, corporações amigas e todos os grupos de interesse que gravitam em torno do governo, é gente pra caramba, inclusive os seus amados sindicalistas, o resto paga a conta. "O governo Reagan, por exemplo, informou à comunidade de business que não iria seguir as leis e deixou claro para as corporações que elas podiam demitir trabalhadores e não precisavam cumprir as leis." Quando o Chomsky ficar insatisfeito com o serviço da sua diarista, ele vai pedir licença pro Obama pra demiti-la? É o pensamento da caneta mágica: se houver uma lei determinando que ninguém pode ser demitido, o desemprego desaparecerá. Cuba tentou essa fórmula e foi esse sucesso todo que o Fidel hoje em dia reconhece. "Essa é uma sociedade dirigida pelo business e boa parte do business são instituições totalitárias." A Coca-Cola é "totalitária" em que sentido? Como é que o McDonald's oprime o cidadão? É clara a inversão no discurso "socialista libertário". Somente o governo pode ser totalitário, porque é ele quem tem o monopólio do uso da força pra tentar obrigar os outros a obedecerem as regras do mundo da fantasia de intelectuais confusos como o Noam Chomsky. (http://resistir.info/eua/entrevista_chomsky.html)

Wednesday, January 05, 2011

"Capitalismo: o que é isso?", segundo o Emir Sader

"As duas referências mais importantes para a compreensão do mundo contemporâneo são o capitalismo e o imperialismo." Sei que o Emir Sader é meio lugar-comum pra tentar entender o que rola no mundo brasileiro das idéias, MAS, mesmo que o PT tente ser "pragmático" ao avançar a sua agenda, o que o Sader - um quadro do partido - escreve a seguir é uma descrição aceitável da teoria marxista, socialista e petista do que é o capitalismo. A coisa pode não parecer, mas é séria. "A natureza das sociedades contemporâneas é capitalista. Estão assentadas na separação entre o capital e a força de trabalho, com aquela explorando a esta, para a acumulação de capital." Por que o capital é antagonista ao trabalho? O capital é o resultado - se tudo der certo - do trabalho, o capital não surgiu do éter pra "explorar" os trabalhadores. E por que os "capitalistas" não seriam também trabalhadores? Um dono de uma franquia do Mister Pizza que fica o dia inteiro na loja não trabalha? Sem a demoníaca "acumulação de capital", não haveria desenvolvimento de novas tecnologias, construção de casas, produção de alimentos, fábricas, computadores, you name it. "Isto é, os trabalhadores dispõem apenas de sua capacidade de trabalho, produzir riqueza, sem os meios para poder materializa-la. Tem assim que se submeter a vender sua força de trabalho aos que possuem esses meios – os capitalistas -, que podem viver explorando o trabalho alheio e enriquecendo-se com essa exploração." Tentando ignorar os erros já clássicos de português do Sader, imagine que Fulano chegou ao Rio há pouco do Piauí e foi chamado pelo seu primo pizzaiolo pra ser entregador numa franquia do Mister Pizza. Ele tá duro e precisa pagar as contas, além de enviar algum pra família lá no interior do sertão. Fulano precisa de um emprego e o "capitalista" precisa de um entregador, mas esse acordo não serve pro Sader, o dono da franquia vai "explorar" o Fulano e alguém (governo) tem que tomar uma providência (usar a força pra impedir o acordo). "Para que fosse possível, o capitalismo precisou que os meios de produção –na sua origem, basicamente a terra – e a força de trabalho, pudessem sem compradas e vendidas. Daí a luta inicial pela transformação da terra em mercadoria, livrando-a do tipo de propriedade feudal." Ainda bem que a propriedade privada acabou com o feudalismo, não? Socialistas não gostam mesmo da fluidez do mercado, preferem as coisas bem estáticas, mais fáceis de controlar. "E o fim da escravidão, para que a força de trabalho pudesse ser comprada." Contabilizando aqui: o capitalismo acabou então com o feudalismo e com a escravidão. Continue, por favor. "Foram essas condições iniciais – junto com a exploração das colônias – que constituíram o chamado processo de acumulação originaria do capitalismo, que gerou as condições que tornaram possível sua existência e sua multiplicação a partir do processo de acumulação de capital." Será que o Emir preferia que o Brasil não tivesse sido descoberto e "explorado" pelos portugueses? Era melhor ter deixado os índios sossegados por aqui e nunca ter conhecido os 7 mares? Se houvesse tecnologia pra tanto e o Sader fosse vivo na época, ele poderia clamar pela construção do muro do Oceano Atlântico pra não se correr o risco de ninguém "explorar" ninguém. "O capitalismo busca a produção e a comercialização de riquezas orientada pelo lucro e não pela necessidade das pessoas. Isto é, o capitalista dirige seus investimentos não conforme o que as pessoas precisam, o que falta na sociedade, mas pela busca do que dá mais lucro." As pessoas precisam comer e os "capitalistas" fornecem comida. As pessoas precisam morar e os "capitalistas" constroem casas e edifícios. Só que no mundo de fantasia do Emir Sader, o primeiro é um latifundiário explorador de mão de obra escrava e o segundo um especulador imobiliário, pessoas más, muito más. É óbvio que a produção é orientada pro lucro, com prejuízos seguidos não há produção. "O capitalista remunera o trabalhador pelo que ele precisa para sobreviver – o mínimo indispensável à sobrevivência -, mas retira da sua força de trabalho o que ele consegue, isto é, conforme sua produtividade, que não está relacionada com o salário pago, que atende àquele critério da reprodução simples da força de trabalho, para que o trabalhador continue em condições de produzir riqueza para o capitalista." Essa é boa, o "capitalista" é tão malvado que paga ao trabalhador apenas e tão somente o "mínimo indispensável pra que ele sobreviva" e possa então ser "explorado" ad infinitum. Mas como se calcula esse "mínimo indispensável"? Um Bolsa-Família? 540 reais? 1.000 reais? E as pessoas que, como o Emir, ganham mais do que isso, também recebem apenas o "mínimo indispensável"? Ou isso varia de pessoa pra pessoa? "Vai se acumulando assim um montante de riquezas não remuneradas pelo capitalista ao trabalhador – que Marx chama de mais valia ou mais valor – e que vai permitindo ao capitalista acumular riquezas – sob a forma de dinheiro ou de terras ou de fábricas ou sob outra forma que lhe permite acumular cada vez mais capital -, enquanto o trabalhador – que produz todas as riquezas que existem – apenas sobrevive." O Fulano que entrega as pizzas e o seu primo que prepara as pizzas não produzem "todas as riquezas que existem" na franquia do Mister Pizza. O dono teve antes que trabalhar e economizar (acumular capital) pra abrir a franquia e organizar os fatores de produção, a loja não surgiu do nada. Se o Fulano e o seu primo trabalharem e economizarem, podem depois abrir a sua própria franquia e "explorar" um outro primo que tá querendo vir pra cá. Tá ruim lá no sertão do Piauí, não tem "acumulação de capital" suficiente. "O capitalista acumula riqueza pelo que o trabalhador produz e não é remunerado. Ela vem por tanto do gasto no pagamento de salários, que traz embutida a mais valia." O salário é um preço como outro qualquer, resultado do encontro entre oferta e demanda. Eu sei que esse fato é um choque pro mundo de fantasia marxista, mas paciência. "Mas o capitalista, para produzir riquezas, tem que investir também em outros itens, como fábricas, máquinas, tecnologia entre outros. Este gasto tende a aumentar cada vez mais proporcionalmente ao que ele gasta em salários, pelo peso que as máquinas e tecnologias vão adquirindo cada vez mais, até para poder produzir em escala cada vez mais ampla e diminuir relativamente o custo de cada produto." Sim, aumento de produtividade e diminuição de custos, é assim que se cria riqueza. O problema é que os socialistas não estão preocupados em criar riqueza; Cuba, por exemplo, produz atualmente menos açúcar do que produzia antes de 1959. E olha que lá tem até um Ministério do Açúcar. "Assim, o capitalista ganha na massa de produtos, porque em cada mercadoria produzida há sempre proporcionalmente menos peso da força de trabalho e, por tanto, da mais valia - que é o que lhe permite acumular capital." Esse papo de "mais-valia" é só mais um dos artigos de fé do marxismo, uma espécie de religião secular. "Por isso o capitalista está sempre buscando ampliar sua produção, para ganhar na competição, pela escala de produção e porque ganha na massa de mercadorias produzidas. Dai vem o caráter sempre expansivo do capitalismo, seu dinamismo, mobilizado pela busca incessante de lucros." Verdade, foi assim que as pessoas passaram a viver mais e melhor desde a Revolução Industrial. O que teria de errado, aliás, no "dinamismo, mobilizado pela busca incessante de lucros"? Ou o Emir Sader vive atrás da estagnação, mobilizado pela busca incessante de prejuízos? Essa é uma postura suicida, companheiro Emir. "Mas essa tendência expansiva do capitalismo não é linear, porque o que é produzido precisa ser consumido para que o capitalista receba mais dinheiro e possa reinvestir uma parte, consumir outra, e dar sequencia ao processo de acumulação de capital. Porém, como remunera os trabalhadores pelo mínimo indispensável à sobrevivência, a produção tende a expandir-se mais do que a capacidade de consumo da sociedade – concentrada nas camadas mais ricas, insuficiente para dar conta do ritmo de expansão da produção." Errado, muito errado. O capitalismo se expande justamente ao atender o consumo das massas. Uma televisão era originalmente acessível apenas aos mais ricos e hoje tem o seu uso praticamente universalizado. O Fulano e o seu primo pizzaiolo não consomem música clássica ou atonal, consomem axé e forró, estilos que os "capitalistas" competem entre si pra oferecer às massas que socialistas como o Emir Sader dizem defender. "Por isso o capitalismo tem nas crises – de superprodução ou de subconsumo, como se queira chamá-las – um mecanismo essencial. O desequilíbrio entre a oferta e a procura é a expressão, na superfície, das contradições profundas do capitalismo, da sua incapacidade de gerar demanda correspondente à expansão da oferta." Não existe algo como "incapacidade de gerar demanda", a demanda é infinita. Querer mansões, Ferraris e iates não é difícil, difícil é produzir o equivalente a mansões, Ferraris e iates. As vontades (demandas) são infinitas, os recursos (ofertas) são escassos. "As crises revelam a essência da irracionalidade do capitalismo: porque há excesso de produção ou falta de consumo, se destroem mercadorias e empregos, se fecham empresas, agudizando os problemas." O que agudiza os problemas é a má compreensão dos problemas, como achar que as crises são causadas por "excesso de produção" ou "falta de consumo". "Até que o mercado “se depura”, derrotando os que competiam em piores condições – tanto empresas, como trabalhadores – e se retoma o ciclo expansivo, mesmo se de um patamar mais baixo, até que se reproduzam as contradições e se chegue a uma nova crise." A teoria austríaca dos ciclos econômicos poderia resgatar o Emir dessa ignorância orgulhosa sobre os fenômenos de boom e bust, mas duvido que ele aceite ou mesmo leia a minha sugestão. "Esses mecanismos ajudam a entender o outro fenômeno central de referência no mundo contemporâneo – o imperialismo – que abordaremos em um próximo texto." Mal posso esperar. Como se viu, a teoria marxiana e saderiana sobre o que é o capitalismo não dá uma dentro, sendo refutada com relativa facilidade pelo raciocínio lógico. O lance é que o marxismo não é somente uma teoria econômica falsa, é um processo de conquista de poder. Perceba que a "luta de classes" começou colocando apenas "proletários" contra "burgueses", mas o potencial de conflito a ser explorado (sem aspas) era enorme. Hoje em dia, os marxistas e as suas variações escrevem teses e mais teses colocando "negros" contra "brancos", "índios" contra "brancos", "mulheres" contra "homens", "homossexuais" contra "heterossexuais", "nortistas" contra "sulistas" e assim por diante, dividir pra conquistar. Ou seja, os socialistas primeiro estimulam os conflitos e depois se anunciam como os solucionadores desses conflitos, contanto que sejam investidos de poder, muito poder. (http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=645)

50 anos em 5

Ler a gigantesca autobiografia do Roberto Campos, "A lanterna de popa", dá uma boa idéia dos bastidores do poder na perspectiva de quem serviu diversos governos desde Getúlio Vargas. Porque uma coisa é ver as decisões governamentais sendo implementadas; outra, bem diferente, é entender como elas foram tomadas. Por exemplo, Juscelino Kubitschek, antes de tomar posse, fez uma viagem pela Europa, visitando alguns governantes da época. Chegando em Portugal, perguntou ao primeiro-ministro Salazar - segundo Campos, "talvez o único ditador incorruptível da história" - qual era o segredo da estabilidade de preços e firmeza da moeda portuguesa: "O segredo é um governo forte com austeridade fiscal e corte drástico dos gastos públicos". Juscelino então perguntou quanto tempo seria necessário pra atingir essa meta e Salazar respondeu: "Talvez 5 anos pra colher os frutos." Sabendo o que aconteceu no governo JK, ganha uma mariola quem adivinhar a sua reação: "O velho (Salazar) quer me proibir de gastar, a única coisa que sei fazer bem. E depois, aguentar 5 anos... Será que esse velho espera que eu arreie o cavalo pro meu sucessor montar?" Moral da história: esqueça esse papo de que os governos pensam no longo prazo enquanto os empresários focam no curto prazo, é justamente o contrário. O "longo prazo" de um governante é a próxima eleição, algo que não se aplicava, obviamente, à ditadura Salazar. JK tomou posse, disse que ia fazer 50 anos em 5 e tudo o que conseguiu foi transferir a capital federal pro meio do nada ao custo de um aumento extraordinário das dívidas interna e externa, um passivo não resolvido até hoje.

Thursday, December 09, 2010

Recessões (6)

Você ouve um amigo dizendo que investiu em imóveis porque os preços estão sempre subindo, não tem erro, você compra agora e vende depois, sem problema, vai dar lucro com certeza. Veja os gráficos e estatísticas recentes, os números não mentem, certo? Quando os imóveis disponíveis não derem mais conta da procura, você compra então empreendimentos na planta por um preço muito abaixo do que você imagina que terão quando estiverem prontos, um negócio da China, fala sério. Só que algo acontece no meio do caminho e aquilo que parecia lucro de repente se transforma em prejuízo, os bancos páram de emprestar, os financiamentos - que antes eram a perder de vista - secam e todo aquele investimento vira pó. É complicado, porque não foi um erro de cálculo de A ou B, todos parecem ter errado ao mesmo tempo e ao invés dos preços continuarem subindo como nos anos anteriores, eles de repente caem, a recessão chega. O que aconteceu? Como explicar a razão de todos terem errado ao mesmo tempo? Talvez algo em comum a todos tenha sido deliberadamente manipulado... Mas o quê (dinheiro) e por quem (governo)? A última recessão americana, por exemplo. Como se deu essa manipulação? Com o Banco Central americano praticamente zerando os juros por vários anos, os mesmos anos do boom dos imóveis. Não vou discutir agora os motivos do Fed fazer isso, mas o fato é que o crédito fácil inundou o mercado e fez parecerem viáveis - como miragens - empreendimentos que seriam inviáveis caso a taxa de juros não tivesse sido artificialmente zerada. E por que os juros são tão importantes? Porque eles transmitem o preço do dinheiro, o preço que informa a disponibilidade de recursos pra investimento numa economia. Se o nível de poupança é alto, os juros serão baixos e vice versa. Se essa taxa é manipulada pra baixo, as pessoas imaginam uma abundância de capital que não existe. Quando o clima de euforia passa e isso fica claro, o crédito se retrai e tem início a recessão, um período de ressaca em que os preços tentam se ajustar à realidade.

Wednesday, December 08, 2010

Monopólios (5)

Outra confusão espalhada por aí sobre o livre-mercado é a de que ele levaria inevitavelmente à formação de monopólios. Claro que, muitas vezes, isso vem da boca de quem deseja o governo monopolizando tudo, mas beleza, a bronca é livre, pelo menos no sistema que defendo. Quem, como eu, assiste o seriado 30 Rock, sabe que a GE controla diversas companhias que criam desde microondas até perucas, o que dá margem pra muitas piadas. Agora, por maior que seja essa corporação, ela não tem o monopólio de nenhum desses mercados, ninguém tem, a não ser que o governo interfira no processo beneficiando X e prejudicando o resto do alfabeto. Os anti-capitalistas argumentam que as empresas maiores comprariam as menores até terem o domínio completo do mercado pra então prejudicar os consumidores com preços altos e outras maldades. Um caso famoso foi a fusão entre Brahma e Antártica. "A Ambev é detentora de um grande número de marcas nos segmentos onde atua. Estas marcas são originárias das diversas empresas que foram incorporadas durante o crescimento da mesma." São, sei lá, umas 20 cervejas diferentes entre nacionais e importadas, todas sob o controle desse conglomerado. Há um monopólio no setor? Nem perto disso, dezenas de outras cervejas continuam competindo, porque - a não ser que o governo torne inviável a entrada de novos participantes com taxas e regulações proibitivas - vai sempre haver espaço pra novas marcas, sabores e estratégias de produção e venda. É irônico, porque logo depois da reclamação contra essa fusão, aconteceu uma explosão de cervejarias artesanais, cervejarias de restaurantes, cervejas disso ou daquilo, "a cerveja é o novo vinho", é o que dizem por aí, prefiro destilados. Se a concorrência nacional não estiver dando conta, basta facilitar a entrada de produtos estrangeiros baixando a tarifa de importação, coisa que não deveria nem existir in the first place, um dia a gente chega lá.

Tuesday, December 07, 2010

"Concorrência desleal" (4)

A melhor maneira de promover a "concorrência leal" é mantendo o mercado o mais livre possível de interferências e subsídios, longe da arbitrariedade dos agentes do governo, qualquer governo. Veja o mercado de sucos de açaí, por exemplo. Se essas lojas tipo Bibi, Big Polis e Pin Pin decidirem se unir e cartelizar o preço do copo de 300 ml (sem granola) a 5 reais - aumentando em, sei lá, 50% a sua margem de lucro - isso vai motivar o surgimento de novos empreendedores que vão enxergar aí a oportunidade de vender os mesmos 300 ml (sem granola) a 3 reais e ainda ter lucro. Isso, claro, se o governo não estabelecer que somente a galera Bibi-Big-Polis-Pin-Pin (BBPPP) tem o direito de comercializar suco de açaí. Se as empresas que quiserem concorrer forem de capital estrangeiro, pode-se alegar "defesa do interesse nacional", porque as pessoas que gostam de beber açaí podem muito bem pagar 2 reais a mais no copo de 300 ml (sem granola) pela glória da indústria tipicamente brasileira de açaí, não é verdade? Óbvio que os estrangeiros podem contratar então um testa de ferro tipicamente brasileiro pra escapar dessa regrinha e cometer o pecado de vender mais barato que a concorrência, mas o lobby da galera BBPPP é forte e pode argumentar que está sofrendo "concorrência desleal", que os estrangeiros estão praticando "dumping" e que "alguém tem que tomar uma providência pra salvar os nossos empregos". O governo, sensível ao sofrimento de um cartel tipicamente brasileiro, decide subsidiá-lo, pra que ele tenha condição de enfrentar a competição dos "inimigos", os estrangeiros. Então ao invés de baixar o Custo Brasil pra tornar as empresas nacionais competitivas, o governo obriga o fã de açaí a pagar duas vezes: no copo de 300 ml (sem granola) subsidiado e no subsídio em si. Quem realmente sofre "concorrência desleal" tem a língua colorida, só digo isso.

Monday, December 06, 2010

Uma minoria perseguida: os empreendedores (3)

Demora-se em média 152 dias pra se abrir uma empresa no Brasil, fora o baile dos impostos. "Na prática, pra abrir uma empresa no Brasil é necessário pagar de 12 a 16 taxas e obter 43 documentos." Pra fechar a empresa que não deu certo, o processo é 12 vezes ainda mais lento, o que faz com que 80% desses empreendimentos não dêem sequer baixa nos órgãos públicos, criando uma confusão burocrática de custos diretos e indiretos difíceis de calcular. Faz sentido, depois de zerar a sua poupança e ir à falência, o empresário não tem mais dinheiro ou energia pra enfrentar outra via crucis. Esses números apenas ilustram o modo como a livre-iniciativa é encarada no Brasil, com desconfiança e, muitas vezes, hostilidade. Isso acontece por diversos motivos, mas algumas incompreensões do processo econômico são cruciais pro estabelecimento dessa cultura anti-empreendedorismo. Pra começar, a noção de que o empregador "explora" o empregado. Cria-se então milhares de regrinhas de como as relações trabalhistas devem ser, o que encarece e atrasa um processo que deveria ser dinâmico. Na verdade, empregado e empregador "exploram-se" mutuamente, o empregador aumentando a produtividade com o empregado e o empregado beneficiando-se da acumulação prévia de capital do empregador. Só que esse benefício só acontece se o negócio prosperar e der lucro, o que a cultura anti-capitalista faz de tudo pra evitar. Depois de tentar proteger os empregados dos empregadores, a mentalidade pró-controle tenta proteger os consumidores dos produtos e serviços oferecidos pelos empresários. São criadas então mais milhares de outras regrinhas que o empreendedor vai ser obrigado a cumprir caso não queira receber uma visita ainda mais onerosa dos representantes do governo, os fiscais. Pense na margem que isso dá pra corrupção. É como se fosse do interesse de um dono de restaurante, por exemplo, servir comida estragada aos seus clientes. Não é, como pretendo demonstrar nesta série de textos.