Tuesday, January 25, 2011

Os 10 mandamentos de um deputado do PSOL

Antes de entender algumas relações de causa e efeito, eu também era um social-democrata-padrão-zona-sul-carioca, ou seja, eu era um "social-democrata" que votava em socialistas do PT como o Chico Alencar. Depois que os petistas chegaram ao poder e colocaram, como observou o Paulo Betti, "a mão na merda", o Chico e mais alguns amigos do "outro mundo possível" saíram do PT e fundaram o PSOL, um partido sem vergonha de misturar - dialeticamente, claro - socialismo com liberdade. Mesmo fora do PT, o Chico Alencar não se tornou exatamente da oposição, ele só acha que o partido no poder ainda não fez o suficiente pra tornar realmente possível o "outro mundo possível". "Se a presidente eleita do Brasil e os novos governadores, deputados e senadores quiserem de fato representar novidade para o povo, precisarão realizar, sempre empurrados pela mobilização popular, os ‘dez mandamentos’ que se seguem: 1) Reforma Agrária e Urbana ecológicas, com a limitação do tamanho das propriedades e o uso social dos imóveis urbanos estocados para especulação." Sei lá quantas centenas de milhares de "sem-terras" já foram assentados desde o governo FHC, mas - mesmo recebendo subsídios - não conseguem produzir o suficiente pra própria subsistência. Isso acontece porque plantar não é bem a praia do MST, um movimento de inspiração maoísta cujo objetivo maior é servir de ponta de lança pra demonização dos "ruralistas" (imagine o Ronaldo Caiado de chapelão num alazão) e a conseqüente estatização do campo, desejo antigo das esquerdas. A coisa é complicada porque foram justamente as exportações dos "ruralistas" que garantiram, até agora, os superávits da balança comercial que ajudaram a bancar a demagogia do PT. Então o governo vai empurrando com a barriga, sendo cúmplice das invasões dos seus companheiros ideológicos ao mesmo tempo em que tenta agradar os "ruralistas" (que pagam a conta) com protecionismo e crédito subsidiado. E o "uso social dos imóveis estocados para especulação" pode ser traduzido como o "uso socialista dos imóveis estocados para especulação", ou seja, desapropriação. É tudo feito na base da coerção, mas com muito amor no coração. "2) Mudança na política econômica, com controle dos capitais especulativos que entram e saem do país e auditoria da dívida pública, cujos juros e serviços consomem 36% do orçamento nacional." A dívida pública não foi obra, pra usar uma imagem que o católico Chico deve conhecer bem, do Espírito Santo, foi resultado de décadas de políticas equivocadas - a gente pode não ter a explicação pra tudo, mas tudo tem uma explicação - e o país paga esse passivo todo por não ter levado a sério a austeridade fiscal ao mesmo tempo em que levava a sério o conto do governo "indutor do desenvolvimento". São as conveniências da disputa pelo poder, sabe? (imagine o Gollum atrás do anel) Se uma pessoa não paga o que o governo diz que ela deve, ela é presa. Se o governo não paga o que deve, o governo chama isso de "moratória soberana" ou "calote compassivo" e estamos conversados, governos não precisam se submeter às mesmas regras que os seus cidadãos, não é verdade? Se o governo quiser, ao menos, rolar a dívida pra não acabar completamente com os investimentos externos, o "controle dos capitais especulativos" do Chico Alencar vai dificultar até mesmo a rolagem dessa dívida, porque são justamente esses capitais que a financiam. Se os capitais não sabem se vão poder sair, por que eles entrariam? "3) Prioridade para saúde e educação públicas, com meta de comprometimento de 10% do PIB em cada setor até o final dos mandatos." Aqui você vê claramente como funcionam os incentivos no serviço público: quanto menos resultado ele dá, mais recursos ele se sente no direito de pedir. Como a maioria acha que a educação e a saúde devem ser responsabilidade do estado, a arapuca está armada. As crianças então são obrigadas por lei a freqüentar as escolas do governo ou aprovadas pelo governo - com o currículo monopolizado pelo governo - pra aprenderem que a educação deve ser fornecida "de graça" pelo governo, caso contrário os especuladores comprariam todas as nossas riquezas naturais a preço de banana, o Brasil ficaria sempre nos últimos lugares dos testes internacionais e o ciclo não fecharia. Ficou confuso? Culpe o MEC. "4) Garantia e ampliação dos direitos trabalhistas, com redução da jornada para 40 horas semanais, sem redução de salários." Olha a caneta mágica: o salário não tem relação com a produtividade, tem relação com as leis que regem as relações trabalhistas. Por que então não baixar de 40 pra 20 horas semanais sem redução do salário? Aliás, por que não determinar logo de uma vez que ninguém pode ganhar menos de 10 mil reais + benefícios? A caneta do governo é mágica, gente. "5) Cuidado absoluto com a ‘Mãe Terra’ tão espoliada, o que, no Brasil, significa combate à revisão do Código Florestal no interesse dos grandes fazendeiros e Desmatamento Zero na Amazônia, além da preservação de todos os biomas." Como é que o Chico Alencar espera que as pessoas comam com a "preservação de todos os biomas"? Onde as pessoas vão plantar ou criar os animais que vão nas feijoadas que o Chico Alencar e a galera da esquerda festiva gosta de comer? E o que significa "desmatamento zero" na Amazônia? As pessoas estão proibidas de morar lá? Bem que o Zizek avisou que os esquerdistas estão "masoquisticamente" apostando num grande desastre ambiental... Eles apostam e os outros sofrem. Sem a produção em massa dos "grandes fazendeiros" que não preservam "todos os biomas", os "espoliados" - ao invés da "Mãe Terra" - seriam os mais pobres prejudicados pela escassez de comida, enquanto a "Mãe Terra" do Chico Alencar ficaria virgem e intocada pelo homem mau e impuro, praticamente uma Nossa Senhora verde. "6) Reforma Política com participação popular, na direção do fortalecimento dos partidos que têm doutrina, do financiamento público exclusivo das campanhas, da promoção de plebiscitos e referendos sobre grandes temas nacionais." Venezuela, here we go. Gostaria de propor também um plebiscito: socialistas como o Chico Alencar olham pro que tá acontecendo na Venezuela e acham realmente que as coisas tão melhorando por lá? You'll be the judge. E concordo, o "financiamento público exclusivo das campanhas" acabaria com o caixa 2, tenho fé no Deus da Teologia da Libertação que sim. "7) Fortalecimento do combate à corrupção, com transparência total e equipando melhor a Controladoria Geral da União, as controladorias estaduais e o Ministério Público." Quem fiscaliza os fiscais dos fiscais? O que combateria de fato a corrupção seria a desregulação da economia, que acabaria com a criação de dificuldades pra venda de facilidades, mas isso deixaria os políticos e burocratas sem o que fazer, melhor jogar conceitos como "transparência total" ao vento a se render ao livre-mercado. "8) Mudança progressiva do modelo energético, com a Petrobras 100% estatal e recursos do Pré-Sal voltados para as áreas social e ambiental." Beleza, Petrobras 100% estatal, nem Vargas foi tão "progressista". Se bem que essa concentração de recursos nas "áreas social e ambiental" não ia agradar muitos dos amigos e eleitores do Chico, cadê a verba do Pré-Sal pra cultura? "9) Força aos Direitos Humanos: combate aos preconceitos, consolidação dos direitos de mulheres, negros e povos indígenas, além de abertura total dos arquivos da ditadura e democratização dos meios de comunicação." Toda essa generosidade do Chico Alencar com os grupos que ele considera oprimidos se dá na marra, porque o governo é imposição, não esqueça disso antes de enxergar uma auréola de paz e amor na cabeça de quem fala em tirar de A pra dar pra B. Fora da igualdade perante a lei não há salvação. Em relação à "abertura total dos arquivos da ditadura", eu não me oponho, desde que os militantes armados que lutaram contra os militares também abram os seus arquivos e provem que não lutavam por uma ditadura ainda pior, uma ditadura comunista. Agora no poder, dizem que lutavam pela "democracia", mas você sabe como é a dialética, né? Por exemplo, a "democratização dos meios de comunicação", no caso, significa "controle pelo governo", e é lógico que eu apóio (numa vaibe meio Zizek) a idéia do governo controlar a imprensa, é assim nas melhores "democracias". "10) Política internacional independente, contra todos os hegemonismos, reforçando a relação Sul-Sul." Não podia faltar o tradicional antiamericanismo nessa pururuca ideológica, melhor se aliar a Venezuela, Bolívia, Cuba, Irã ou alguma ditadura africana a "se submeter" aos estadunidenses. Disso o Chico Alencar não tem mesmo do que reclamar, porque foi essa a política no Itamaraty do Celso Amorim nos últimos anos. "Só assim teremos, na política, o Advento de um vento novo, que abala a calmaria da prosseguida injustiça!" Como se o vento desse "Advento" já não tivesse soprado em várias outros lugares e fedido pra caramba. A ideologia deve ter subtraído mais-valia do olfato desses caras, não é possível. (http://youpode.com.br/blog/chicoalencar/2010/12/07/os-maiores-desafios-para-o-novo-governo/)

Wednesday, January 19, 2011

O "neoliberalismo" do Emir Sader

"O capitalismo passou por várias fases na sua história. Como reação à crise de 1929, fechou-se o período de hegemonia liberal, sucedido por aquele do predomínio do modelo keynesiano ou regulador." Já havia regulação antes de 1929, um mercado inteiro não entra simultaneamente em crise sem a participação de algo em comum a todos (governo). O New Deal - muito aclamado pelos esquerdistas pela concentração de poder no estado - apenas atrasou a recuperação americana, que só foi sair da crise de 29 no pós-guerra. "A crise deste levou ao renascimento do liberalismo, sob nova roupagem que, por isso, se auto denominou de neoliberalismo." Um sistema econômico não tem como se "autodenominar", quem fala em "neoliberalismo" são socialistas como o Sader. Da wikipedia: "O termo foi cunhado em 1938 no encontro de Colloque Walter Lippmann pelo sociologista e economista Alexander Rüstow", um alemão que advogava o "ordoliberalismo, uma doutrina econômica, adotada principalmente na Alemanha do pós-guerra, uma "terceira via" entre o socialismo e o capitalismo." "Este impôs uma desregulamentação geral na economia, com o argumento de que a economia havia deixado de crescer pelo excesso de normas, que frearia a capacidade do capital de investir." Esse "argumento" é um fato. "Desregulamentar é privatizar, é abrir os mercados nacionais à economia mundial, é promover o Estado mínimo, diminuindo os investimentos em politicas sociais, em favor do mercado, é impor a precariedade nas relações de trabalho." O que seria do discurso socialista sem esses apelos emocionais? Leis não evitam a "precariedade" do trabalho; se evitassem, todos os brasileiros estariam formalizados com a carteira assinada e ganhando, no mínimo, um salário mínimo. Não é isso o que acontece. "A desregulamentação levou a uma gigantesca transferência de capitais do setor produtivo ao especulativo porque, livre de travas, o capital se dirigiu para o setor onde tem mais lucros, com maios liquidez e menos tributação: o setor financeiro. Porque o capital não está feito para produzir, mas para acumular. Se pode acumular mais na especulação, se dirige para esse setor, que foi o que aconteceu em escala mundial." O setor financeiro também é produtivo, porque ao investir num empreendimento, o especulador está ajudando a viabilizar a produção desse empreendimento. O problema é que grande parte do movimento especulativo vai atrás dos papéis da dívida de governos como o brasileiro, que pagam juros altíssimos justamente pra que os especuladores continuem financiando a gastança dos governantes. "O modelo neoliberal se tornou hegemônico em escala mundial, impondo as politicas de livre comércio, de Estados mínimos, de globalização do mercado de trabalho para os investimentos, entre outros aspectos. É uma nova fase do capitalismo, como foram as fases de hegemonia liberal e keynesiana." Antes fosse, a última crise mostrou que o keynesianismo ainda domina a política econômica com seus "estímulos" (aumento de dívida e inflação) e juros artificialmente baixos (gestação da próxima bolha). Essa narrativa saderiana de que o "neoliberalismo" rules everything é bem conveniente pros governos, que podem então colocar a culpa da crise no "mercado desregulado" e assim acumular ainda mais poder. "Não se pode dizer que seja a última, porque um sistema sempre encontra formas – mesmo que aprofundem suas contradições - se outro sistema não surge como alternativa, com a força correspondente para superá-lo." O que "aprofunda a contradição" do sistema é o governo imaginar que pode criar prosperidade através da impressão de papel moeda e do endividamento constante, isso sim é insustentável. "Mas é uma fase difícil de ser superada, porque a desregulação tem muitas dificuldades para ser superada." Ele vai repetir essa ladainha de "desregulação" até alguém acreditar. "Mesmo com a crise atual afetando diretamente os países do centro do capitalismo, provocada pela fata de regulação do sistema financeiro, ainda assim pouco ou quase nada foi feito para o controle do capital financeiro, justamente a origem da crise." O setor financeiro, como todos os outros, também é afetado pela política monetária expansionista dos governos, Sader. "Como já se disse: Obama salvou os bancos, achando que os bancos salvariam a economia dos EUA. Mas os bancos se salvaram às custas da economia norteamericana, que segue em crise." Essa é uma discussão boa, o cartel de bancos comandado pelo Fed, um arranjo incompatível com o livre-mercado. "É difícil para o capitalismo desembaraçar-se do neoliberalismo, etapa que marca o final de um ciclo desse sistema." Repararam que, na análise de socialistas como o Emir Sader, os sistemas parecem ter vontade própria? "A discussão que se coloca é de se o modelo chinês representa vida útil e inteligência mais além do neoliberalismo ou do capitalismo. Se sua via de mercado se vale do mercado para superar o capitalismo ou se o mercado o vincula de obrigatória e estreita ao capitalismo." O sistema chinês vem "funcionando" porque o país partiu pro comércio internacional de uma base muito baixa após décadas de comunismo (que o Sader certamente aplaudia) e porque o governo vem desvalorizando a própria moeda pra exportar mais, subvencionando o consumo de países como os EUA. Talvez essa seja uma estratégia pra enfraquecer o dólar (e o próprio governo americano vem colaborando com isso), mas um sistema centralizador de partido único não pode - ou não deve - servir de modelo pra ninguém. "O certo é que ser de esquerda hoje é de lutar contra o neoliberalismo, não apenas resistindo a ele, mas sobretudo construindo alternativas a este modelo, allternativas que projetem para além do capitalismo." Continuo esperando que você ou o Chomsky ou o Zizek expliquem como vai ser essa alternativa "além do capitalismo", melhor eu esperar deitado. "O neoliberalismo promove um brutal processo de mercantilização das coisas e das relações sociais. Tudo passa a ter preço, tudo pode ser compra e vendido, tudo é reduzido a mercadoria, em um processo que tem no shopping center sua utopia." Você pode ir pro meio do mato, Sader, e viver da mão pra boca, longe desses terríveis shopping centers onde as pessoas trocam bens e serviços através do sistema de preços. Você não precisa negociar com um preá, basta dar-lhe uma traulitada na cabeça pra conseguir a sua próxima refeição, longe daquele antro de consumismo desenfreado sem consciência social que é a praça de alimentação. "Nesse caso, lutar pela superação do neoliberalismo é desmercantilizar, restabelecer e generalizar os direitos como acesso a bens e serviços, ao invés da luta selvagem no mercado, de todos contra todos, para obtê-los às expensas dos outros." Acho que o Sader se confundiu, quem tem o poder de tirar de uns pra dar pra outros é o governo, com os milhares de grupos de interesse correndo atrás de privilégios às custas dos demais. A inversão é a norma: o monopólio da coerção é o mocinho, o mecanismo voluntário é o bandido. "Generalizar a condição do cidadão às expensas da generalização do consumidor. Do sujeito de direitos e não do dono de poder aquisitivo. Quanto mais se desmercantilizar, quanto mais se afirmar os direitos de todos, mais se estará criando esfera pública, às expensas da esfera mercantil (que eles chamam de privada)." De quais "direitos" você está falando? O "direito" de alguém a um bem corresponde ao dever dos outros fornecerem esse bem. Se - ao invés de ficar insistindo numa teoria falsa - o Sader quisesse realmente que os "direitos" fossem generalizados, ele deixaria a "esfera mercantil" funcionar pra que os preços diminuíssem e mais pessoas tivessem acesso então aos bens e serviços que ele chama de "direitos". Mas ele não quer isso, ele quer "superar o capitalismo" tendo Cuba como exemplo. "Essa pode ser a via de passagem do neoliberalismo como estágio do capitalismo à sua superação, a uma era pós-capitalista." Continuo aqui deitado esperando pela explicação de como isso vai acontecer. "Mas hoje o que nos une a todos é a luta por distintas formas de pós neoliberalismo - pela universailização dos direitos, pela extensão da cidadania em todas suas formas – politica, econômica, social, cultural -, pelo triunfo do Estado social contra o Estado mínimo, da esfera pública contra a esfera mercantil." Tears in my eyes. Toda essa repetição de "superação do capitalismo" parece ter - à primeira vista - um charme meio rebelde e vanguardista, mas não se engane, o que o Sader defende é o mesmo socialismo de sempre, aquele em que o governo concentra todo o poder e o indivíduo não passa de uma mera engrenagem pros planos totalitários de uma ditadura "iluminada" com muitas aspas. (http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=650)

Monday, January 17, 2011

Slavoj Zizek e a "superação do capital"

O "Elvis da teoria cultural" vai logo avisando: "Não se esqueça de que comigo as coisas sempre são o contrário do que parecem." O esloveno Slavoj não veio pra explicar, veio pra confundir, praticamente um Chacrinha da filosofia. "Desde o final do século XVIII havia profetas que diziam que o capitalismo estava chegando ao fim. Marx achou que a Comuna francesa era o fim. Lênin achou que era o fim. Mao Tsé Tung achou que era o fim. Mas o problema é que, quanto mais o capitalismo se desintegra, mais ele ressurge como a Fênix." Verdade, a livre iniciativa individual sempre ressurge frente aos planos totalitários coletivistas, é isso mesmo. "Alguns esquerdistas colocam suas esperanças, masoquisticamente, em uma grande catástrofe ecológica." Não me diga... "Esses debates pseudo-liberais sobre até que ponto o Estado deve intervir no mercado... O mercado não pode sobreviver sem intervenção do Estado." O escopo do estado não é um debate "pseudo-liberal", é um debate central. Entre o controle absoluto e a liberdade total há muito o que se discutir. "O paradoxo é que... Vocês se lembram de que anos atrás os EUA processou a Microsoft por monopólio? Esse é um paradoxo maravilhoso. Significa que o Estado tem de intervir para que o mercado sobreviva." O mercado sobrevive apesar dessas intervenções e não por causa delas. "O mercado, espontaneamente, teria, há muito tempo, abolido a si próprio." O mercado não tem capacidade de escolha pra "abolir a si próprio", o mercado é um processo em que as pessoas trocam bens e serviços atrás dos seus próprios objetivos, com cada um sendo dono de si mesmo e daquilo que trocou ou ganhou de forma voluntária. Esse é o sistema diabólico que intelectuais como o Zizek fazem de tudo pra destruir, blaming capitalism for the evils done by government action. People seem to confuse corporatism, and state capitalism, with free market capitalism. It is the same old song and dance that I have heard over and over again. "Sou hegeliano. Meu amor absoluto é Hegel. E todas as outras coisas estão subordinadas a ele. Leio Marx e o que me interessa é como não é possível entender Marx sem Hegel. E por isso fiquei muito feliz ao ouvir de meus amigos que vocês têm no Brasil uma grande escola de marxistas hegelianos que estudam em detalhes que não se pode entender o capital sem referências à lógica de Hegel." Maravilha, então os amigos do Zizek se reúnem (com dinheiro público?) pra realizar truques dialéticos - e saltos carpados psicanalíticos - a fim de provar que A não é A, que A é uma ilusão criada pelos opressores estadunidenses pra se fazer de simulacro de A. A não é A, A é outra coisa e o seu contrário ao mesmo tempo. Com a galera do Zizek é assim, as identidades ficam todas juntas e misturadas. "O filósofo argentino Ernesto Laclau analisou a fundo a lógica do populismo, sustentando que existe uma variante de esquerda e uma variante de direita. A tarefa do pensamento crítico consistiria em evitar a derivação de direita. Não estou de acordo com essa posição. Em primeiro lugar, o populismo é sempre de direita." Como o Zizek quer sempre dizer o contrário do que diz, o populismo então é sempre de esquerda. "Além disso, o povo, como a natureza, é uma invenção." A natureza é uma "invenção" de quem? De Deus? De Zeus? Será que o Zizek vive desafiando por aí as leis físicas da "natureza inventada"? Se a natureza é uma "invenção", o Slavoj é o quê, o contrário dele que ainda não existiu? "Walter Benjamin escreveu que o fascismo emerge de onde uma revolução foi derrotada. Um conceito que, aplicado à realidade contemporânea, explica o fato que o populismo emerge quando a hipótese comunista, que não coincide com o socialismo real, é retirada da discussão pública." Comunistas raciocinam assim: tudo o que não é comunista, é "fascista". Qual comunismo não tem a ver com o "socialismo real"? O Zizek, infelizmente, não vai conseguir explicar como é que concentrar todo o poder no estado causará - PUF! - a sua abolição. Ele não veio pra explicar, veio pra confundir. "A crise econômica, além disso, exigiu uma intervenção do estado para salvar da bancarrota empresas, bancos e sociedades financeiras. Mas isso significou que o tabu sobre a periculosidade da intervenção reguladora do estado foi quebrado." Que mané tabu, o intervencionismo estatal é a norma no mundo há várias décadas, você sabia que o dinheiro é controlado pelos governos, Zizek? "Isso pode reforçar os socialistas, isto é, aqueles que apontam para uma redistribuição de renda e de poder." É, o poder vai mudar da gangue A pra gangue B, ipi ipi hurra. O lance é que as gangues socialistas quando chegam ao poder não sabem como produzir riqueza e a renda a ser redistribuída fica com o tempo cada vez menor. Ou maior, se você usar a dialética do Zizek. "Não é a política que eu amo, mas abre espaço a propostas mais radicais. Em outras palavras, volta forte a ideia comunista de transformar a realidade." Todo esse nhém-nhém-nhém pra voltarmos a isso, a idéia comunista. Ele não leva em consideração, claro, a tragédia comunista do século XX, aquilo foi só o "socialismo real", na próxima vez vai funcionar, pensamento positivo, galera. Ou negativo, sei lá. "Não acredito, como Hardt e Negri, que com o desenvolvimento capitalista a força produtiva, mais cedo ou mais tarde, entre em rota de colisão com as relações sociais de produção. Devemos, de fato, agir politicamente para que isso aconteça. É esse o legado de Lênin que não pode mais ser apagado." O cara quer ver o circo pegar fogo, tinha o Cassino do Chacrinha e agora vai rolar o Circo em Chamas do Zizek ou o Circo do Zizek em Chamas, depende do que for mais conveniente pra dialética hegeliana do momento. O "desenvolvimento capitalista" e as "relações sociais de produção", Zizek, não são contraditórios, eles andam juntos. Capital e trabalho não são rivais, são complementares. "Teremos de achar formas de não meramente abolir o capitalismo mas, de alguma forma, superá-lo." Falar em "superar o capital" sem explicar como fazer isso é uma afirmação de fé tipo "superar a matéria", e a gente "supera" a matéria sim, quando morre. A estrutura da realidade não vai se alterar com wishful thinking e as pessoas vão continuar tendo que cooperar umas com as outras pra passarem pela vida da melhor maneira possível. O modo delas cooperarem é o que se discute: como indivíduos autônomos responsáveis pelas próprias decisões (liberdade) ou como seres incapazes e dependentes de um poder central (controle)?

Tuesday, January 11, 2011

Noam Chomsky e o "socialismo libertário"

Quando você conhece um brasileiro meio politizado e meio rebelde, é quase certo que ele seja um admirador de Noam Chomsky. O homem se diz um "anarco-sindicalista", um "socialista libertário", e essas definições contraditórias não podiam dar mesmo num discurso claro e objetivo, porque premissas confusas geram conclusões confusas. Então por que ele é tão popular? Porque ele fala mal do capitalismo e dos EUA, exigir uma teoria lógica e consistente seria pedir muito, parece que o lance é mais descontar os ressentimentos através de um porta-voz de Harvard, um representante com autoridade e PhD lá da terra do "inimigo". "Não há ninguém que apareça e diga: queremos um programa de criação de empregos e não equilibrar o orçamento. Isso é o que o público quer, mas não é o que o mundo dos negócios quer." Caso não haja equilíbrio no orçamento, isto é, caso o governo continue gastando mais do que arrecada (e isso acontece quase sempre), os juros e os custos dos investimentos vão aumentar e tornar as coisas mais caras não é a melhor maneira de criar empregos. Não é assim porque eu e o "mundo dos negócios" achamos que é assim, é assim porque é assim. "O Brasil foi tomado pelos EUA em 1945 e foi uma das áreas de testes de métodos científicos de desenvolvimento do capitalismo americano. Os técnicos americanos tomaram grandes decisões e se orgulharam muito do seu projeto. Eles se orgulhavam inclusive de imporem uma ditadura neonazista. O Brasil era o queridinho latino-americano da comunidade empresarial. Até 1989, continuava a ser tratado como um êxito fantástico para o capitalismo americano." Que trecho fabuloso, o "Brasil foi tomado pelos EUA em 1945", que impuseram então "uma ditadura neonazista". Do que ele tá falando? De Dutra? De Vargas? Ou a ditadura militar é que era "neonazista"? Até 1989, o Chomsky diz, o Brasil era "um êxito fantástico para o capitalismo americano." Realmente, o estatismo nacionalista (neonazismo?) brasileiro - com seus monopólios governamentais, reservas de mercado, congelamento de preços e hiperinflação - pode ser caracterizado como "um êxito fantástico do capitalismo americano", isso não é um raciocínio sério, come on. "O Brasil é um país grande, tem muitas opções. A primeira coisa que o Brasil tem de fazer é controlar os seus ricos." Não tem que "controlar" ninguém, esses caras sempre com esse papo contra quem tem dinheiro, a inveja por acaso perdeu a vergonha e agora virou virtude? Me diga, seu Chomsky, os ricos do governo ou por causa do governo também vão ser controlados ou esse controle vai ser seletivo? "Meu país nunca desenvolveu o contrato social que os países europeus têm. Aqui existia a ideologia capitalista e ela dizia que ninguém tem direitos humanos, você só tem o direito de entrar no mercado de trabalho." É complicado quando um lado vive no mundo imaginário da abundância e fala em "direito" ao trabalho, à moradia, à cultura, ao lazer e à felicidade eterna guiada pelo governo clarividente e você, de outro lado, lembra da escassez e fala em direito apenas à liberdade de perseguir a própria felicidade através de acordos voluntários, mas paciência. "Na década de 20, os trabalhadores americanos não tinham nem uma fração dos direitos dos trabalhadores europeus, mas tinham muito mais bens. É um país muito livre, mas extremamente opressivo." Eis a vaibe de um partido como o PSOL, que juntou socialismo e liberdade sem medo de ser feliz. Os EUA, segundo o Chomsky, são "um país muito livre, mas extremamente opressivo". Tem como explicar isso ou a contradição virou uma forma válida de argumentação? O fato dos trabalhadores europeus terem um monte de "direitos" no papel não garante - como ele mesmo admite - esses direitos; frases (leis) num livro (constituição) não garantem automaticamente uma "vida digna a todos" nem que haja muita vontade política (imposição). "Porque o governo federal é a única força suficientemente forte para enfrentar os interesses das corporações." Não, o governo federal é a única força suficientemente forte pra se aliar de maneira simbiótica com as corporações amigas pra impedir o funcionamento livre do mercado. "Tudo é muito bem planejado: destruir os sindicatos e destruir qualquer ideia de que o governo pode ser um instrumento que as pessoas podem usar em seu próprio benefício." Mas as pessoas realmente usam o governo em seu próprio benefício, Chomsky, veja os políticos, burocratas, funcionários públicos, corporações amigas e todos os grupos de interesse que gravitam em torno do governo, é gente pra caramba, inclusive os seus amados sindicalistas, o resto paga a conta. "O governo Reagan, por exemplo, informou à comunidade de business que não iria seguir as leis e deixou claro para as corporações que elas podiam demitir trabalhadores e não precisavam cumprir as leis." Quando o Chomsky ficar insatisfeito com o serviço da sua diarista, ele vai pedir licença pro Obama pra demiti-la? É o pensamento da caneta mágica: se houver uma lei determinando que ninguém pode ser demitido, o desemprego desaparecerá. Cuba tentou essa fórmula e foi esse sucesso todo que o Fidel hoje em dia reconhece. "Essa é uma sociedade dirigida pelo business e boa parte do business são instituições totalitárias." A Coca-Cola é "totalitária" em que sentido? Como é que o McDonald's oprime o cidadão? É clara a inversão no discurso "socialista libertário". Somente o governo pode ser totalitário, porque é ele quem tem o monopólio do uso da força pra tentar obrigar os outros a obedecerem as regras do mundo da fantasia de intelectuais confusos como o Noam Chomsky. (http://resistir.info/eua/entrevista_chomsky.html)

Wednesday, January 05, 2011

"Capitalismo: o que é isso?", segundo o Emir Sader

"As duas referências mais importantes para a compreensão do mundo contemporâneo são o capitalismo e o imperialismo." Sei que o Emir Sader é meio lugar-comum pra tentar entender o que rola no mundo brasileiro das idéias, MAS, mesmo que o PT tente ser "pragmático" ao avançar a sua agenda, o que o Sader - um quadro do partido - escreve a seguir é uma descrição aceitável da teoria marxista, socialista e petista do que é o capitalismo. A coisa pode não parecer, mas é séria. "A natureza das sociedades contemporâneas é capitalista. Estão assentadas na separação entre o capital e a força de trabalho, com aquela explorando a esta, para a acumulação de capital." Por que o capital é antagonista ao trabalho? O capital é o resultado - se tudo der certo - do trabalho, o capital não surgiu do éter pra "explorar" os trabalhadores. E por que os "capitalistas" não seriam também trabalhadores? Um dono de uma franquia do Mister Pizza que fica o dia inteiro na loja não trabalha? Sem a demoníaca "acumulação de capital", não haveria desenvolvimento de novas tecnologias, construção de casas, produção de alimentos, fábricas, computadores, you name it. "Isto é, os trabalhadores dispõem apenas de sua capacidade de trabalho, produzir riqueza, sem os meios para poder materializa-la. Tem assim que se submeter a vender sua força de trabalho aos que possuem esses meios – os capitalistas -, que podem viver explorando o trabalho alheio e enriquecendo-se com essa exploração." Tentando ignorar os erros já clássicos de português do Sader, imagine que Fulano chegou ao Rio há pouco do Piauí e foi chamado pelo seu primo pizzaiolo pra ser entregador numa franquia do Mister Pizza. Ele tá duro e precisa pagar as contas, além de enviar algum pra família lá no interior do sertão. Fulano precisa de um emprego e o "capitalista" precisa de um entregador, mas esse acordo não serve pro Sader, o dono da franquia vai "explorar" o Fulano e alguém (governo) tem que tomar uma providência (usar a força pra impedir o acordo). "Para que fosse possível, o capitalismo precisou que os meios de produção –na sua origem, basicamente a terra – e a força de trabalho, pudessem sem compradas e vendidas. Daí a luta inicial pela transformação da terra em mercadoria, livrando-a do tipo de propriedade feudal." Ainda bem que a propriedade privada acabou com o feudalismo, não? Socialistas não gostam mesmo da fluidez do mercado, preferem as coisas bem estáticas, mais fáceis de controlar. "E o fim da escravidão, para que a força de trabalho pudesse ser comprada." Contabilizando aqui: o capitalismo acabou então com o feudalismo e com a escravidão. Continue, por favor. "Foram essas condições iniciais – junto com a exploração das colônias – que constituíram o chamado processo de acumulação originaria do capitalismo, que gerou as condições que tornaram possível sua existência e sua multiplicação a partir do processo de acumulação de capital." Será que o Emir preferia que o Brasil não tivesse sido descoberto e "explorado" pelos portugueses? Era melhor ter deixado os índios sossegados por aqui e nunca ter conhecido os 7 mares? Se houvesse tecnologia pra tanto e o Sader fosse vivo na época, ele poderia clamar pela construção do muro do Oceano Atlântico pra não se correr o risco de ninguém "explorar" ninguém. "O capitalismo busca a produção e a comercialização de riquezas orientada pelo lucro e não pela necessidade das pessoas. Isto é, o capitalista dirige seus investimentos não conforme o que as pessoas precisam, o que falta na sociedade, mas pela busca do que dá mais lucro." As pessoas precisam comer e os "capitalistas" fornecem comida. As pessoas precisam morar e os "capitalistas" constroem casas e edifícios. Só que no mundo de fantasia do Emir Sader, o primeiro é um latifundiário explorador de mão de obra escrava e o segundo um especulador imobiliário, pessoas más, muito más. É óbvio que a produção é orientada pro lucro, com prejuízos seguidos não há produção. "O capitalista remunera o trabalhador pelo que ele precisa para sobreviver – o mínimo indispensável à sobrevivência -, mas retira da sua força de trabalho o que ele consegue, isto é, conforme sua produtividade, que não está relacionada com o salário pago, que atende àquele critério da reprodução simples da força de trabalho, para que o trabalhador continue em condições de produzir riqueza para o capitalista." Essa é boa, o "capitalista" é tão malvado que paga ao trabalhador apenas e tão somente o "mínimo indispensável pra que ele sobreviva" e possa então ser "explorado" ad infinitum. Mas como se calcula esse "mínimo indispensável"? Um Bolsa-Família? 540 reais? 1.000 reais? E as pessoas que, como o Emir, ganham mais do que isso, também recebem apenas o "mínimo indispensável"? Ou isso varia de pessoa pra pessoa? "Vai se acumulando assim um montante de riquezas não remuneradas pelo capitalista ao trabalhador – que Marx chama de mais valia ou mais valor – e que vai permitindo ao capitalista acumular riquezas – sob a forma de dinheiro ou de terras ou de fábricas ou sob outra forma que lhe permite acumular cada vez mais capital -, enquanto o trabalhador – que produz todas as riquezas que existem – apenas sobrevive." O Fulano que entrega as pizzas e o seu primo que prepara as pizzas não produzem "todas as riquezas que existem" na franquia do Mister Pizza. O dono teve antes que trabalhar e economizar (acumular capital) pra abrir a franquia e organizar os fatores de produção, a loja não surgiu do nada. Se o Fulano e o seu primo trabalharem e economizarem, podem depois abrir a sua própria franquia e "explorar" um outro primo que tá querendo vir pra cá. Tá ruim lá no sertão do Piauí, não tem "acumulação de capital" suficiente. "O capitalista acumula riqueza pelo que o trabalhador produz e não é remunerado. Ela vem por tanto do gasto no pagamento de salários, que traz embutida a mais valia." O salário é um preço como outro qualquer, resultado do encontro entre oferta e demanda. Eu sei que esse fato é um choque pro mundo de fantasia marxista, mas paciência. "Mas o capitalista, para produzir riquezas, tem que investir também em outros itens, como fábricas, máquinas, tecnologia entre outros. Este gasto tende a aumentar cada vez mais proporcionalmente ao que ele gasta em salários, pelo peso que as máquinas e tecnologias vão adquirindo cada vez mais, até para poder produzir em escala cada vez mais ampla e diminuir relativamente o custo de cada produto." Sim, aumento de produtividade e diminuição de custos, é assim que se cria riqueza. O problema é que os socialistas não estão preocupados em criar riqueza; Cuba, por exemplo, produz atualmente menos açúcar do que produzia antes de 1959. E olha que lá tem até um Ministério do Açúcar. "Assim, o capitalista ganha na massa de produtos, porque em cada mercadoria produzida há sempre proporcionalmente menos peso da força de trabalho e, por tanto, da mais valia - que é o que lhe permite acumular capital." Esse papo de "mais-valia" é só mais um dos artigos de fé do marxismo, uma espécie de religião secular. "Por isso o capitalista está sempre buscando ampliar sua produção, para ganhar na competição, pela escala de produção e porque ganha na massa de mercadorias produzidas. Dai vem o caráter sempre expansivo do capitalismo, seu dinamismo, mobilizado pela busca incessante de lucros." Verdade, foi assim que as pessoas passaram a viver mais e melhor desde a Revolução Industrial. O que teria de errado, aliás, no "dinamismo, mobilizado pela busca incessante de lucros"? Ou o Emir Sader vive atrás da estagnação, mobilizado pela busca incessante de prejuízos? Essa é uma postura suicida, companheiro Emir. "Mas essa tendência expansiva do capitalismo não é linear, porque o que é produzido precisa ser consumido para que o capitalista receba mais dinheiro e possa reinvestir uma parte, consumir outra, e dar sequencia ao processo de acumulação de capital. Porém, como remunera os trabalhadores pelo mínimo indispensável à sobrevivência, a produção tende a expandir-se mais do que a capacidade de consumo da sociedade – concentrada nas camadas mais ricas, insuficiente para dar conta do ritmo de expansão da produção." Errado, muito errado. O capitalismo se expande justamente ao atender o consumo das massas. Uma televisão era originalmente acessível apenas aos mais ricos e hoje tem o seu uso praticamente universalizado. O Fulano e o seu primo pizzaiolo não consomem música clássica ou atonal, consomem axé e forró, estilos que os "capitalistas" competem entre si pra oferecer às massas que socialistas como o Emir Sader dizem defender. "Por isso o capitalismo tem nas crises – de superprodução ou de subconsumo, como se queira chamá-las – um mecanismo essencial. O desequilíbrio entre a oferta e a procura é a expressão, na superfície, das contradições profundas do capitalismo, da sua incapacidade de gerar demanda correspondente à expansão da oferta." Não existe algo como "incapacidade de gerar demanda", a demanda é infinita. Querer mansões, Ferraris e iates não é difícil, difícil é produzir o equivalente a mansões, Ferraris e iates. As vontades (demandas) são infinitas, os recursos (ofertas) são escassos. "As crises revelam a essência da irracionalidade do capitalismo: porque há excesso de produção ou falta de consumo, se destroem mercadorias e empregos, se fecham empresas, agudizando os problemas." O que agudiza os problemas é a má compreensão dos problemas, como achar que as crises são causadas por "excesso de produção" ou "falta de consumo". "Até que o mercado “se depura”, derrotando os que competiam em piores condições – tanto empresas, como trabalhadores – e se retoma o ciclo expansivo, mesmo se de um patamar mais baixo, até que se reproduzam as contradições e se chegue a uma nova crise." A teoria austríaca dos ciclos econômicos poderia resgatar o Emir dessa ignorância orgulhosa sobre os fenômenos de boom e bust, mas duvido que ele aceite ou mesmo leia a minha sugestão. "Esses mecanismos ajudam a entender o outro fenômeno central de referência no mundo contemporâneo – o imperialismo – que abordaremos em um próximo texto." Mal posso esperar. Como se viu, a teoria marxiana e saderiana sobre o que é o capitalismo não dá uma dentro, sendo refutada com relativa facilidade pelo raciocínio lógico. O lance é que o marxismo não é somente uma teoria econômica falsa, é um processo de conquista de poder. Perceba que a "luta de classes" começou colocando apenas "proletários" contra "burgueses", mas o potencial de conflito a ser explorado (sem aspas) era enorme. Hoje em dia, os marxistas e as suas variações escrevem teses e mais teses colocando "negros" contra "brancos", "índios" contra "brancos", "mulheres" contra "homens", "homossexuais" contra "heterossexuais", "nortistas" contra "sulistas" e assim por diante, dividir pra conquistar. Ou seja, os socialistas primeiro estimulam os conflitos e depois se anunciam como os solucionadores desses conflitos, contanto que sejam investidos de poder, muito poder. (http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=645)

50 anos em 5

Ler a gigantesca autobiografia do Roberto Campos, "A lanterna de popa", dá uma boa idéia dos bastidores do poder na perspectiva de quem serviu diversos governos desde Getúlio Vargas. Porque uma coisa é ver as decisões governamentais sendo implementadas; outra, bem diferente, é entender como elas foram tomadas. Por exemplo, Juscelino Kubitschek, antes de tomar posse, fez uma viagem pela Europa, visitando alguns governantes da época. Chegando em Portugal, perguntou ao primeiro-ministro Salazar - segundo Campos, "talvez o único ditador incorruptível da história" - qual era o segredo da estabilidade de preços e firmeza da moeda portuguesa: "O segredo é um governo forte com austeridade fiscal e corte drástico dos gastos públicos". Juscelino então perguntou quanto tempo seria necessário pra atingir essa meta e Salazar respondeu: "Talvez 5 anos pra colher os frutos." Sabendo o que aconteceu no governo JK, ganha uma mariola quem adivinhar a sua reação: "O velho (Salazar) quer me proibir de gastar, a única coisa que sei fazer bem. E depois, aguentar 5 anos... Será que esse velho espera que eu arreie o cavalo pro meu sucessor montar?" Moral da história: esqueça esse papo de que os governos pensam no longo prazo enquanto os empresários focam no curto prazo, é justamente o contrário. O "longo prazo" de um governante é a próxima eleição, algo que não se aplicava, obviamente, à ditadura Salazar. JK tomou posse, disse que ia fazer 50 anos em 5 e tudo o que conseguiu foi transferir a capital federal pro meio do nada ao custo de um aumento extraordinário das dívidas interna e externa, um passivo não resolvido até hoje.

Thursday, December 09, 2010

Recessões (6)

Você ouve um amigo dizendo que investiu em imóveis porque os preços estão sempre subindo, não tem erro, você compra agora e vende depois, sem problema, vai dar lucro com certeza. Veja os gráficos e estatísticas recentes, os números não mentem, certo? Quando os imóveis disponíveis não derem mais conta da procura, você compra então empreendimentos na planta por um preço muito abaixo do que você imagina que terão quando estiverem prontos, um negócio da China, fala sério. Só que algo acontece no meio do caminho e aquilo que parecia lucro de repente se transforma em prejuízo, os bancos páram de emprestar, os financiamentos - que antes eram a perder de vista - secam e todo aquele investimento vira pó. É complicado, porque não foi um erro de cálculo de A ou B, todos parecem ter errado ao mesmo tempo e ao invés dos preços continuarem subindo como nos anos anteriores, eles de repente caem, a recessão chega. O que aconteceu? Como explicar a razão de todos terem errado ao mesmo tempo? Talvez algo em comum a todos tenha sido deliberadamente manipulado... Mas o quê (dinheiro) e por quem (governo)? A última recessão americana, por exemplo. Como se deu essa manipulação? Com o Banco Central americano praticamente zerando os juros por vários anos, os mesmos anos do boom dos imóveis. Não vou discutir agora os motivos do Fed fazer isso, mas o fato é que o crédito fácil inundou o mercado e fez parecerem viáveis - como miragens - empreendimentos que seriam inviáveis caso a taxa de juros não tivesse sido artificialmente zerada. E por que os juros são tão importantes? Porque eles transmitem o preço do dinheiro, o preço que informa a disponibilidade de recursos pra investimento numa economia. Se o nível de poupança é alto, os juros serão baixos e vice versa. Se essa taxa é manipulada pra baixo, as pessoas imaginam uma abundância de capital que não existe. Quando o clima de euforia passa e isso fica claro, o crédito se retrai e tem início a recessão, um período de ressaca em que os preços tentam se ajustar à realidade.

Wednesday, December 08, 2010

Monopólios (5)

Outra confusão espalhada por aí sobre o livre-mercado é a de que ele levaria inevitavelmente à formação de monopólios. Claro que, muitas vezes, isso vem da boca de quem deseja o governo monopolizando tudo, mas beleza, a bronca é livre, pelo menos no sistema que defendo. Quem, como eu, assiste o seriado 30 Rock, sabe que a GE controla diversas companhias que criam desde microondas até perucas, o que dá margem pra muitas piadas. Agora, por maior que seja essa corporação, ela não tem o monopólio de nenhum desses mercados, ninguém tem, a não ser que o governo interfira no processo beneficiando X e prejudicando o resto do alfabeto. Os anti-capitalistas argumentam que as empresas maiores comprariam as menores até terem o domínio completo do mercado pra então prejudicar os consumidores com preços altos e outras maldades. Um caso famoso foi a fusão entre Brahma e Antártica. "A Ambev é detentora de um grande número de marcas nos segmentos onde atua. Estas marcas são originárias das diversas empresas que foram incorporadas durante o crescimento da mesma." São, sei lá, umas 20 cervejas diferentes entre nacionais e importadas, todas sob o controle desse conglomerado. Há um monopólio no setor? Nem perto disso, dezenas de outras cervejas continuam competindo, porque - a não ser que o governo torne inviável a entrada de novos participantes com taxas e regulações proibitivas - vai sempre haver espaço pra novas marcas, sabores e estratégias de produção e venda. É irônico, porque logo depois da reclamação contra essa fusão, aconteceu uma explosão de cervejarias artesanais, cervejarias de restaurantes, cervejas disso ou daquilo, "a cerveja é o novo vinho", é o que dizem por aí, prefiro destilados. Se a concorrência nacional não estiver dando conta, basta facilitar a entrada de produtos estrangeiros baixando a tarifa de importação, coisa que não deveria nem existir in the first place, um dia a gente chega lá.

Tuesday, December 07, 2010

"Concorrência desleal" (4)

A melhor maneira de promover a "concorrência leal" é mantendo o mercado o mais livre possível de interferências e subsídios, longe da arbitrariedade dos agentes do governo, qualquer governo. Veja o mercado de sucos de açaí, por exemplo. Se essas lojas tipo Bibi, Big Polis e Pin Pin decidirem se unir e cartelizar o preço do copo de 300 ml (sem granola) a 5 reais - aumentando em, sei lá, 50% a sua margem de lucro - isso vai motivar o surgimento de novos empreendedores que vão enxergar aí a oportunidade de vender os mesmos 300 ml (sem granola) a 3 reais e ainda ter lucro. Isso, claro, se o governo não estabelecer que somente a galera Bibi-Big-Polis-Pin-Pin (BBPPP) tem o direito de comercializar suco de açaí. Se as empresas que quiserem concorrer forem de capital estrangeiro, pode-se alegar "defesa do interesse nacional", porque as pessoas que gostam de beber açaí podem muito bem pagar 2 reais a mais no copo de 300 ml (sem granola) pela glória da indústria tipicamente brasileira de açaí, não é verdade? Óbvio que os estrangeiros podem contratar então um testa de ferro tipicamente brasileiro pra escapar dessa regrinha e cometer o pecado de vender mais barato que a concorrência, mas o lobby da galera BBPPP é forte e pode argumentar que está sofrendo "concorrência desleal", que os estrangeiros estão praticando "dumping" e que "alguém tem que tomar uma providência pra salvar os nossos empregos". O governo, sensível ao sofrimento de um cartel tipicamente brasileiro, decide subsidiá-lo, pra que ele tenha condição de enfrentar a competição dos "inimigos", os estrangeiros. Então ao invés de baixar o Custo Brasil pra tornar as empresas nacionais competitivas, o governo obriga o fã de açaí a pagar duas vezes: no copo de 300 ml (sem granola) subsidiado e no subsídio em si. Quem realmente sofre "concorrência desleal" tem a língua colorida, só digo isso.

Monday, December 06, 2010

Uma minoria perseguida: os empreendedores (3)

Demora-se em média 152 dias pra se abrir uma empresa no Brasil, fora o baile dos impostos. "Na prática, pra abrir uma empresa no Brasil é necessário pagar de 12 a 16 taxas e obter 43 documentos." Pra fechar a empresa que não deu certo, o processo é 12 vezes ainda mais lento, o que faz com que 80% desses empreendimentos não dêem sequer baixa nos órgãos públicos, criando uma confusão burocrática de custos diretos e indiretos difíceis de calcular. Faz sentido, depois de zerar a sua poupança e ir à falência, o empresário não tem mais dinheiro ou energia pra enfrentar outra via crucis. Esses números apenas ilustram o modo como a livre-iniciativa é encarada no Brasil, com desconfiança e, muitas vezes, hostilidade. Isso acontece por diversos motivos, mas algumas incompreensões do processo econômico são cruciais pro estabelecimento dessa cultura anti-empreendedorismo. Pra começar, a noção de que o empregador "explora" o empregado. Cria-se então milhares de regrinhas de como as relações trabalhistas devem ser, o que encarece e atrasa um processo que deveria ser dinâmico. Na verdade, empregado e empregador "exploram-se" mutuamente, o empregador aumentando a produtividade com o empregado e o empregado beneficiando-se da acumulação prévia de capital do empregador. Só que esse benefício só acontece se o negócio prosperar e der lucro, o que a cultura anti-capitalista faz de tudo pra evitar. Depois de tentar proteger os empregados dos empregadores, a mentalidade pró-controle tenta proteger os consumidores dos produtos e serviços oferecidos pelos empresários. São criadas então mais milhares de outras regrinhas que o empreendedor vai ser obrigado a cumprir caso não queira receber uma visita ainda mais onerosa dos representantes do governo, os fiscais. Pense na margem que isso dá pra corrupção. É como se fosse do interesse de um dono de restaurante, por exemplo, servir comida estragada aos seus clientes. Não é, como pretendo demonstrar nesta série de textos.

Monday, November 29, 2010

Olinda

Na praça que fica no início do centro histórico, o carro de som com todos os seus 15 megafones anunciava a realização na cidade da Fliporto, evento literário em que artistas e intelectuais provavelmente cantariam as glórias desta terra abençoada, salve salve o dinheiro público que viabilizou o evento - you better put me on a good spot, brother - uma mão lava a outra, sabe como é. Bom mesmo ficar atento, porque aquela área é onde mais se mata no Brasil e os noticiários locais não me deixavam mentir, o bicho pega mesmo quando os amigos do povo estão no poder. Incrível a quantidade de adesivos da Dilma, dava pra fazer um tumblr maneiro com o tema. A cidade tava vazia, mas a música não podia parar. Não descobrimos de onde vinha aquele som que tocava todas as tardes, mas desconfiamos que era obra do G.R.E.S. Preto Velho, que fica no alto do centro histórico. Ao contrário dos guias locais que ficavam perturbando os poucos turistas em busca de algum caraminguá, a música não nos incomodou em nada, numa vaibe meio fanfarra hipnótica, trilha sonora que embalava os descansos pós-caminhadas pelo sobe e desce de Olinda. Se existe algo universal em qualquer cidade, são os seus cachorros de rua. Não, existem muitas outras coisas em comum, mas não resisti ao clichê. Esse aí - a coleira indica - tem dono e parecia muito orgulhoso do seu quarteirão, mas fazia tanto sol que foi se refugiar na sombra da entrada de uma das casas. O céu parecia estar sempre azul e os restaurantes pareciam estar sempre fechados ou vazios, padrões constantes em nossa passagem pela cidade. Sol na moleira e dificuldade em achar um lugar pra comer. Agora uma explicação: o que essa reclamação tem a ver com a imagem do simpaticão? Eis a questão. A vista do mar no alto do centro histórico era bem bonita, essa é a visão desde a sede da prefeitura, que parecia, de dia, ser o ponto mais movimentado da cidade. Ouvia-se as pessoas falando que tinham que resolver isso ou aquilo com o prefeito - "eu conheço o homem, vai dar tudo certo" - até que, de repente, o tempo virou e veio uma daquelas chuvas que eu agradeceria aos céus se isso fizesse alguma diferença. O vapor subiu e a temperatura baixou. Uma exibição dos bonecos de mamulengo ficava exatamente na sede da prefeitura e o funcionário do lugar explicava que aqueles bonecos é que eram "tipicamente brasileiros, porque influenciados por X ou Y", ao contrário dos bonecos mais ao sul do país, "influenciados por W ou Z". De onde vem essa ânsia em delimitar e subsidiar o que é ou não é "tipicamente brasileiro"? O museu dos bonecos "tipicamente brasileiros" ficava mesmo no lugar certo, porque não há nada que paralise mais a cultura de um lugar que o seu governo decidindo o que é ou não é cultura. A cultura é dinâmica e não obedece fronteiras ou autoridades, gente, ou melhor, ôxente, ou melhor, ôxe.

Thursday, November 25, 2010

O que é o capitalismo? (2)

Não sei se foi Marx quem inventou esse termo, mas foi ele quem certamente o popularizou. Falo em "capitalismo", mas poderia falar em liberalismo, livre-mercadismo, laissez-faire ou libertarianismo, que não são exatamente sinônimos, mas representam mais ou menos a mesma idéia. Segundo Marx, a história do capitalismo se desenvolve através da "luta de classes" entre opressores (burgueses) e oprimidos (proletários), com os burgueses "explorando" os proletários através da "mais-valia" (lucro). Esse esquema mental é muito popular, sendo adotado por aí de maneira consciente ou não, mas não resiste a uma análise lógica simples, por exemplo: uma diarista, dizem os marxistas, é "explorada" pelos seus patrões, que contratam os seus serviços por X reais por dia. Ela concorda em ser "explorada" por esse valor, faz o serviço e recebe então o dinheiro resultado dessa "exploração". Com ele, ela decide comprar mantimentos na quitanda do seu bairro depois de ter feito as unhas numa manicure. Pergunta aos marxistas: a diarista também "explorou" o dono da quitanda e a manicure ao contratar os seus serviços? Não, ninguém "explorou" ninguém no processo, as pessoas trocaram bens e serviços de maneira voluntária baseadas em seus próprios interesses e necessidades. A dona da casa onde a diarista trabalha não tem poder algum sobre ela a não ser nos termos acordados. A diarista presta um serviço e em troca recebe um valor. Não há coerção entre as partes, há uma troca. Quando compra pão, requeijão e refrigerante na quitanda, ela não está "oprimindo" o quitandeiro, eles estão realizando uma troca voluntária em que ambos saem satisfeitos, caso contrário não a realizariam. Não há conflito entre ela e a manicure, há cooperação. Não respondi exatamente o que é o capitalismo, mas esse último raciocínio dá uma boa pista a respeito.

Wednesday, November 24, 2010

Capitalismo: o ideal desconhecido (1)

Uma pessoa fala uma coisa, a outra entende outra e um monte de diferenças de percepção e preconceitos interditam a discussão. Ok, vamos celebrar as diferenças, mas se a nossa diferença envolver o uso da força de um sobre o outro, vai acontecer um impasse que tenta-se resolver através da política, do jogo de poder que determina como se deve e quem deve exercer esse uso da força. A paz não se impõe com uma arma, mas a paz impõe o uso da arma em legítima defesa. Ou seja, você não pode iniciar agressão, essa é a lei. Caso inicie, uma agressão proporcional contra você é justificada. Há um intenso debate sobre as culpas disso ou daquilo, a origem da propriedade de X ou Y, a escravidão, as capitanias hereditárias, a guerra contra as drogas, a legitimidade do estado e etc. Beleza. O que estou dizendo é que há uma lei acima das ações e papéis dos governos de todas as épocas e lugares que pode-se chamar de "natural", que estabelece que você não pode matar, roubar ou enganar o outro. "Natural" porque não se pode fazer com os outros o que não se quer que façam com você. Ou você quer ser morto, roubado ou enganado? As particularidades e circunstâncias podem justificar algum positivismo nas regras, mas a essência da lei deve seguir esse princípio de não agressão, que "é um princípio ético e jurídico, paralelo ao da propriedade de si mesmo, que sustenta que deve ser legal para qualquer indivíduo fazer o que deseje, sempre que não inicie (nem ameace) violência contra a pessoa ou a propriedade de outro indivíduo. Afirma que a coação - definida como o início de força física, a ameaça de tal, ou a fraude às pessoas ou seus bens pacificamente adquiridos - é intrinsecamente ilegítima e deve ser recusada. O princípio não se opõe à defesa contra a agressão, ao invés, a respalda e legitima." Ou seja, a liberdade de um termina quando começa a do outro. Pretendo demonstrar nos próximos posts, usando como gancho os capítulos do livro da Ayn Rand, que o capitalismo - corretamente compreendido - é o único sistema compatível com o princípio de não agressão.

Tuesday, October 26, 2010

Primavera dos Livros 2

Então passei o cartão com 40% de desconto - lindo projeto gráfico o do livro, realmente - não tem problema, essa máquina é intuitiva e anti-idiota. Se bem que na hora de selecionar entre débito e crédito a coisa não fica clara, não tinha botão pra cima ou pra baixo, tinha que apertar um outro com uma parada escrita que não tinha nada a ver. Fica aqui como dica pra melhoria do serviço pro pessoal da empresa responsável. Sacanagem o RJTV não divulgar o evento, alguém tem que tomar uma Providência, a garrafa no varejo custa uns 40 reais, sem 40% de desconto, 50% pra professor. Não, não vou me cansar dessas piadinhas, chegam a ser "piadinhas"? Não, servem pra desanuviar o ambiente da feira na sexta-feira tinha música ambiente, com muito rock, samba e MPB da melhor qualidade, comando do Garotinho. Conservador como o Caetano? Você quer dizer liberal? Podia ser mais, bem mais. Disse que pior que um comunista, só um anti-comunista. Como assim? Então o cara que critica o Fidel é "pior" que o Fidel? Até o Fidel critica o Fidel, fez um mea culpa incrível que não teve a repercussão que deveria ter tido. Viu, 3 variações de um mesmo verbo numa mesma frase. Aliás, por que a Caros Amigos tinha o estande mais destacado da feira? (risos) Não consigo deixar de falar de política porque a política é uma arena (e não estande) comum a todos nós, QUEIRAMOS OU NÃO WE ARE ALL GOING TO DIE. Então enquanto a gente não morre é importante estabelecer parâmetros legislatórios de acordo com análises lógicas e qualificadas sobre a estrutura da realidade, faliu bonito, quer dizer, falou bonito. Não, não compro livro. Quer dizer, até compro, mas poucos, pra ler antes de dormir, minha biblioteca é a internet. Não subestimo os clássicos não, não coloque palavras na minha boca, eles também estão na internet. Propriedade intelectual? Assunto delicado, nem tanto quanto o a... deixa disso, vamos falar das flores desta estação maravilhosa, a primavera. Aliás, estamos mesmo na primavera, seu Google? Tinha uma flor no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma flor. Uma versão mais otimista da pedra no meio do caminho faz o cara se perguntar: que pedra? Pedra que rola não cria limo, sacou bicho? Vai rolando e criando um atrito que remove o limo, uma metáfora sobre a sociedade contemporânea careta e conservadora diferente daqueles loucos anos 60, antes da AIDS e do aquecimento global. Ok, agora eu estou sendo deliberadamente chato. Mas o Dr. Feelgood é outro cara, aquele de laquê, maquiagem e cheio de dentes. Ainda bem, depois de beber um açaí é bom mesmo escovar a dentadura 0800 com o crachá da firma, se lembra do Bozó? Bozo e Bozó, duas figuras diferentes, se liga na missão, os caras não reconhecem um fato como verdadeiro se ele não for útil à causa, não te disseram a vida inteira que a verdade não existia? Então, vai vendo.

Monday, October 25, 2010

Primavera dos Livros

O homem parou, olhou, pegou o panfleto e se encaminhou pro outro estande onde estava uma bela mulher. Num relance, seus olhares se cruzaram e se estabeleceu que "se estabeleceu" não segue a norma culta estabeleceu-se que é. Li umas poesias lá. Por não falar nisso, viu-se ainda algum orgulho com o Lula e o PT, pessoas com adesivos da Dilma e um casal fantasiado com bandeira e tudo se encaminhando pro estande da Caros Amigos conferenciar com cineastas e outros militantes da causa. A causa? O controle da sua vida, caro leitor. Quer dizer então que o gigante gentil jogou longe aquele jornalista famoso cujo nome não vou revelar porque não quero fazer frases longas, eu mesmo esqueci do que tava falando. Claro que não, ele não teve nenhuma intenção, foi pura energia rock'n'roll numa roda de pogo combinada com o corpo robusto de um e a formação mirrada do outro, adjetivação plenamente justificada, pode confiar. "Falei com todos os médicos do Botafogo e posso te garantir que o Garrincha e outros jogadores faziam infiltração no joelho. Só que não foi isso que mais o prejudicou." A gente sabe beber no almoço antes da feira e curtir um anoitecer junto com os gansos no lago de frente pra gruta. O ambiente é legal onde o Getúlio deu um tiro na cabeça. Mas na Rua do Catete, uma meia dúzia vinha me abordar pedindo dinheiro e quase levei um estabaco na pedra derrapante da calçada. "nA PEDRA derrapante DA CALÇada", hoje eu tô muito literato. Porque eu não tenho costume de ler livros de ficção, quem perguntou, né? Ninguém precisa perguntar, por isso escrevo aqui. O suporte físico não vai morrer, mas vai virar um negócio de colecionador essa coisa do governo ser o maior comprador, tô falando dos livros de um modo um tanto torto pra retomar o fio da meada. Tá vendo, já esqueci do que eu tava falando... Esqueci nada, é só charme. Ir pra São Paulo ver o Pavement? Tocar violino no show da PELVs, agora não sei se é violino ou rabeca, mas, em todo caso, vou encher isso aqui de vírgulas e botar a maior pilha indie, a pírgulindie. Não sei se chega a rolar pogo num show do Pavement, mas só em falar POGO I feel young again. You're still young, dummie. Well... É, entabula um papo sobre a morte, a gente taí pra isso mesmo, levantar o astral da rapaziada, o desconto é de 40%, 50% pros professores. Sim, vou confiar na sua palavra, nem a chefia pede documentação, sou apenas uma mola nessa grande engrenagem que é o SISTEMA, obrigado pela oportunidade. O cara do Vasco foi expulso? Beleza, vai rolar uma pressão e o Flamengo logo empata, futebol também é cultura, pô. Leia o Vermelho e o Negro do Ruy Castro pra ver como o Flamengo tem uma linda história, não eram só playboyzinhos dissidentes do Fluminense, falar de futebol é muito mais confortável que de política. E o tempo, hein? Não, não vou me calar. Quer dizer, vou falar quando sentir necessidade, as pessoas com crachá não pagam pra usar o banheiro, 1 real. TOO REAL. 5 aplausos, declamando minhas entranhas estranhas na tenda em frente à carrocinha do Geneal. Sim, é genial. Sem catchup, por favor. I'll catch you up later. See, it never ends... No, it ends.

Sunday, October 17, 2010

A lógica dos 7 pecados

Não tenho religião, não acredito em Deus, em "força superior" que não seja a natureza, em mundo numenal, espiritismo ou em misticismo de qualquer ordem. Não sei como o universo foi acontecer, ninguém sabe, sei que a Terra é um planeta privilegiado por ter tido condições de criar vida e, sobretudo, vida com consciência - o que torna tudo divertido e angustiante ao mesmo tempo. Como não temos todas as respostas, especulamos, pesquisamos e alguns criam seres sobrenaturais pra lidar com o desconhecido, a crença é livre e é bom que continue assim. A força da religião pode se assentar em bases duvidosas (fé), mas alguns dos seus princípios funcionam porque fazem sentido, porque são importantes pra preservação da vida humana. IRA - Se o camarada tá sempre nervoso, é porque tá rolando um desequilíbrio sério, que se revela na forma de, por exemplo, hipertensão e stress, dificultando o bombeamento de sangue pelo coração. Isso também o afasta das outras pessoas, porque ninguém quer ficar perto de quem pode explodir a qualquer momento. Sem falar que a agressividade de um pode potencializar a agressividade do outro, com resultados imprevisíveis. GULA - A forma física não é uma coisa meramente estética (apesar da estética também ser importante), ela interfere na sua qualidade e quantidade de vida. Sei que soa clichê, mas clichês são clichês por um motivo. A comida é uma necessidade, mas depois de um certo ponto ela se acumula como gordura, um mecanismo que fazia sentido em épocas de escassez, o que não é o caso agora com toda oferta de alimentos. INVEJA - Sentimento negativo porque corrói o camarada por dentro, afetando a sua auto-estima. Quer dizer, a sua auto-estima já não devia estar lá essas coisas pra ele sentir inveja de alguém, retroalimentando um ciclo vicioso. A inveja pode gerar atitudes destrutivas, porque o camarada se sente no direito de rebaixar, nem que seja à força, o invejado. ORGULHO - Melhor seria "soberba", porque orgulho próprio, quando justificado, é algo bom e virtuoso. Lembro quando eu tava tranquilo no mar de Lopes Mendes e, de repente, rolou uma correnteza forte me tirando o pé e o controle do que tava acontecendo. Tentava voltar pro raso e não conseguia, o mar era mais forte que eu. A minha soberba podia ter me prejudicado ali, porque me recusei a pedir ajuda. Consegui sobreviver, mas foi por pouco. AVAREZA - "É o apego excessivo e descontrolado pelos bens materiais e pelo dinheiro, priorizando-os e deixando Deus em segundo plano." Nada que é "descontrolado" quando se tem a possibilidade de controle pode ser bom. Sobre deixar "Deus em segundo plano", me parece uma forma oblíqua de se justificar o dízimo, mas beleza, um neurótico como o Tio Patinhas não deve mesmo ser exemplo pra ninguém. PREGUIÇA - Se você quer manter a sua vida, você precisa agir. A vida não se mantém apenas com a força do pensamento, mesmo os monges tibetanos plantam e colhem. A preguiça também pode ser mental, o que prejudica a ação, uma vez que os atos são guiados pelos valores e pensamentos determinados pelo processo de reflexão. LUXÚRIA - O sexo é uma coisa séria, muito boa, mas séria. Se você se entregar às delícias sexuais sem nenhum critério, pode contrair uma doença ou um filho indesejado. Isso vai atentar contra a sua própria vida e a vida de quem ainda não viu a luz do dia. Você também pode trair a confiança de alguém, perdendo laços importantes. A religião não é a verdade, mas pode conter muitas verdades, o lance é saber separar o joio do trigo.

Thursday, October 07, 2010

Contradições e inconsistências lógicas

Época de eleição é uma maravilha em matéria de enrolação, contradição e inconsistências lógicas em geral, sem falar nas mentiras puras e simples. Os candidatos falam o que as pessoas querem ouvir, o lance é prometer isso e aquilo pra agradar o máximo de eleitores. Democracia, um arranjo delicado que pode descambar com muita facilidade pra uma ditadura da maioria ou pra uma ditadura de uma minoria que soube manipular a maioria. Como a ideologia que norteou os sonhos de mudança no século passado (socialismo) foi um fracasso óbvio e a alternativa (capitalismo) é quase que unanimamente rejeitada pela galera intelectual - que não vai fazer um mea culpa nessa altura do campeonato e dizer que "realmente, lutei minha vida inteira por uma causa furada" - o pragmatismo passou a ser a filosofia não declarada da vez, o que faz bastante sentido, porque ela não propõe nada específico, pragmatismo é tudo aquilo "que dá resultado". Resultado pra quem? Pra quem tem o poder, claro. Então, como diria um blogueiro progressista, a política estabelece a moral, ou seja, quem tem o poder determina o que é certo e o que é errado. Como não dispõem de instrumentos teóricos consistentes e coerentes (descartados de antemão como dogmatismo) - por causa da desconfiança criada pela diferença entre os objetivos alardeados pelo socialismo e os seus resultados práticos - as pessoas então misturam as estações, defendendo uma coisa numa hora e contradizendo-a logo em seguida. Os políticos fazem isso de caso pensado, a maioria dos eleitores, não.

Tuesday, October 05, 2010

Questão de crença ou conhecimento

"Capitalismo ou socialismo? Ah, questão de crença." Não é questão de crença, é questão de conhecimento. Você acreditar, por exemplo, em cientologia é questão de crença, não tem como verificar se "vários planetas se reuniram há 75 milhões de anos numa confederação das galáxias, governada por um líder maléfico chamado Xenu. Como os planetas estavam com problemas de superpopulação, Xenu mandou bilhões de seus habitantes para Terra, em espaçonaves parecidas com os Douglas DC-8, onde foram jogados dentro de vulcões e mortos com bombas de hidrogênio. Seus espíritos foram recapturados e reunidos em cachos (como uvas, ou talvez bananas) - chamados de "thetans" (em português, "tetões") - os seres humanos." Você pode achar isso ridículo, mas o Tom Cruise acredita. Adianta eu ficar falando em teste de falseabilidade pra quem dá crédito a uma história dessas? Não, isso é crença. Dizer que a estatização dos meios de produção não funciona pros fins desejados (abundância material) não é questão de crença, é questão de conhecimento, tanto da teoria quanto da prática. É "crença" no sentido de acreditar que o socialismo não funciona, mas se essa "crença" é confirmada pelos fatos, vira então conhecimento. Controle de preços pelo governo resulta em escassez e em mercado paralelo, isso não é mera "crença", é conhecimento da ciência econômica. "Crença" é achar que, mesmo com todos os exemplos contrários, o próximo controle governamental de preços vai dar certo.

Monday, October 04, 2010

Discutindo Ayn Rand

Rand começa dizendo que a Idade Média foi regida pelo misticismo, numa época em que a filosofia era considerada uma extensão da teologia, relacionando a forte influência de Platão com Santo Agostinho, "um platônico". O renascimento da filosofia de Aristóteles se deu, segundo Rand, via São Tomás de Aquino, "que trouxe de volta a parte principal da filosofia de Aristóteles, a epistemologia (lógica e razão)". [esse descolamento da parte mais platônica da religião coincidiu, não por acaso, com o surgimento do renascimento e o fim da idade média, evidenciando a importância da base filosófica na "vida prática"] O entrevistador então pergunta a opinião de Rand sobre a influência de Kant na filosofia. Ela explica que Kant desenvolveu um esquema falso, que desqualifica a mente humana ao descrever a realidade como uma ilusão criada pela percepção. Para Kant, o homem não seria capaz de "ver as coisas como elas são", um ataque, segundo Rand, ao poder da consciência, "negando a realidade e a validade das nossas percepções". [sem falar naquela divisão entre o mundo numenal e fenomenal, o fenomenal sendo aquele em que vivemos, onde não conseguimos "ver as coisas como elas são", ao contrário do numenal, onde conseguiríamos ver the real deal se essa dimensão fora do nosso alcance realmente existisse. Kant queria assim justificar o misticismo e os seus mundos incognoscíveis através de uma "razão pura"] O entrevistador menciona as duas personificações mais presentes no exercício do poder ao longo da história segundo a própria Rand, os chamados Átilas e os Feiticeiros (witch doctors). Ela diz que a razão é a única forma de se perceber a realidade ao integrar o material fornecido pelos sentidos. A razão, porém, não funciona automaticamente, ela tem um caráter volitivo. A maioria das culturas, ela continua, foi governada pelos chamados witch doctors, que "são guiados não pela razão, mas pelas suas emoções, funcionando com base na fé", uma crença sem evidência que encaram como guia no mundo real. [me desculpem os amigos religiosos, mas a fé é um salto no escuro que, parafraseando Kant, não tem a ver "com as coisas como elas são". claro que existem religiões mais civilizadas e menos irracionais que outras - e a liberdade religiosa é um valor inegociável - mas todas são irracionais. não estou dizendo que todo religioso é irracional, estou dizendo que buscar a verdade a partir da fé é irracional] Como tem que lidar com os outros homens, o witch doctor acaba se juntando ao Átila, "seu aliado natural, o chefe primitivo de uma tribo que age sempre no calor do momento, se recusando a considerar idéias, princípios ou abstrações". Os Átilas, "os gangsters, os ditadores e os chefes militares", lidam com os outros na base da força. "Em qualquer época da história e na maioria dos lugares, o poder foi exercido por uma aliança entre os witch doctors e os Átilas". [veja a nossa eleição, por exemplo, e o esforço feito pelos candidatos pra agradar, ou ao menos não desagradar muito, os líderes religiosos. veja a aliança entre Lula e Edir Macedo, o presidente que usa a força do poder pra impor a sua agenda e o bispo que usa a força da fé pra angariar mais poder] O homem da fé dando a sanção moral pra que o homem da força a imponha. Na sociedade atual se vê o mesmo fenômeno, e ela cita os "leftists, liberals and socialist intellectuals" como sendo os novos-místicos que tentam justificar o uso da força, porque - como Kant - não reconhecem a validade da razão. [os esquerdistas se acham muito sensíveis e humanistas, mas a sua agenda só se realiza com o uso da força. se você quer equalizar a sociedade de cima pra baixo, enfraquecendo uns e fortalecendo outros, você vai ter necessariamente que ter mais força que todos os outros, numa coerção-compassiva (a hipótese otimista)] O entrevistador então pergunta por que os místicos precisariam dos homens da força. Como colocam as emoções em primeiro lugar e negam os fatos, explica Rand, os místicos não conseguem lidar com a realidade e, por isso mesmo, formam uma aliança com os Átilas, que os protegem e impõem os seus dogmas. [uma das conquistas do iluminismo - e uma das consequências do renascimento - foi a separação entre o estado e a igreja. claro que nem todos os lugares chegaram lá, veja o mundo muçulmano] (http://www.youtube.com/watch?v=lrr2wfm4fNY)